Presidente do Movimento de Direitos Humanos brasileiro é ameaçado de morte no Uruguai

Referência mundial em direitos humanos, o gaúcho Jair Krischke foi incluído em uma lista de 13 nomes ameaçados de morte por um grupo paramilitar de extrema-direita, integrado por remanescentes da ditadura uruguaia. Entre os alvos do autodenominado Comando Barneix estão, além de Krischke, o ministro de Defensa do Uruguai, Jorge Menéndez, o promotor Jorge Díaz, um jurista francês e vários advogados conhecidos pela atuação para levar à prisão oficiais que atuaram durante o regime militar no país vizinho, entre 1973 e 1985.

A reportagem é de Rodrigo Lopes, publicada por Zero Hora, 01-03-2017.

A ameaça ganhou repercussão no Uruguai depois que Díaz recebeu um e-mail assinado pelo Barneix com a mensagem: “para cada suicídio de agora em diante, mataremos três escolhidos aleatoriamente da seguinte lista”. Na sequência, vinha os nomes. O comando leva o nome do general uruguaio Pedro Barneix, que se suicidou no ano passado, enquanto era processado por violações aos direitos humanos na época da ditadura.

Presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos brasileiro, com sede em Porto Alegre, Krischke ficou surpreso com a ameaça. Como medida de segurança, avisou a embaixada brasileira no Uruguai. A expectativa é de que o governo brasileiro exerça pressão junto às autoridades uruguaias para que investigue o grupo, segundo ele, formado por militares e antigos integrantes do serviços de inteligência ligados à ditadura. O gaúcho também está organizando, junto aos demais nomes que aparecem na lista, uma audiência com a Comissão Interamericana de Direitos Humanas da Organização dos Estados Americanos (OEA), com sede em Washington, que estará em maio em Buenos Aires.

“As ameaças são muito graves. Vamos pedir à comissão que cobre do Estado uruguaio investigações e que apresente resultados”, diz Krischke.

Para ele, a mensagem é mais uma tentativa de intimidação por conta de seu trabalho para levar à Justiça envolvidos na Operação Condor, o acordo entre as ditaduras de Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile para caçar opositores políticos além das fronteiras nacionais nos anos 1970. Krischke é figura conhecida no Cone Sul por sua luta. Em 1978, teve atuação decisiva para libertar Lilian Celiberti e Universindo Diaz, sequestrados em Porto Alegre em uma operação orquestrada por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) gaúcho e integrantes da repressão uruguaia. Em 2010, também contribuiu para a extradição para a Argentina do ex-coronel uruguaio Manuel Cordero Piacentini, preso pela Polícia Federal (PF) em Santana do Livramento, onde morou por vários anos. O ex-militar está detido em Buenos Aires e foi condenado recentemente a 25 anos de reclusão por atuação na Operação Condor. Krischke ainda tem denunciado outro militar uruguaio, coronel Pedro Antonio Mato Narbondo, que segue foragido. Mato foi acusado em 1986 de integrar o esquadrão clandestino que sequestrou e matou em Buenos Aires, 10 anos antes, o senador Zelmar Michelini e o ex-presidente da Câmara de Deputados uruguaia Héctor Gutierrez Ruiz.

Apesar da ameaças, Krischke não se sente intimidado:

“Só louco não tem medo, e eu não sou louco. Essas intimidações não podem atrapalhar o meu trabalho. A gente tem de enfrentar e até aproveitar para pressionar. Temos muitos documentos em nossos arquivos (sobre a ditadura uruguaia), que, inclusive, mostram a atuação do serviço de inteligência militar para espionar jornais, rádios, TV, sindicatos e movimentos estudantis em plena democracia”.

Para Krischke, o grupo paramilitar resolveu partir para ofensiva depois que seus membros perderam a proteção do ex-ministro da Defesa Eleuterio Fernández Huidobro, que morreu em agosto. O sucessor, Jorge Menéndez, que aparece como potencial alvo de assassinato, anunciou em janeiro a reativação dos chamados Tribunais de Honra para militares envolvidos em crimes da ditadura. Entre as ações em que o comando é suspeito está um roubo de documentos da sede do Grupo de Investigação em Arqueologia Forense (Giaf), que busca restos de desaparecidos políticos.

No pedido de investigação a ser encaminhado por Krischke à OEA está o de esclarecimentos sobre essa ação. Na mensagem da ameaça, enviada por meio do Tor, software de computador que impede que o usuário seja rastreado, o grupo diz que o suicídio do general Pedro Barneix não ficará impune: “Não aceitaremos nenhum suicídio mais por conta de processos injustos”. O militar se matou em setembro de 2015. Ele era investigado pelo assassinato de Aldo Perrini, militante de esquerda da cidade de Colonia del Sacramento, torturado e morto pelas mãos do Batalhão de Infantaria número 4 do Uruguai, em 1974.

Dez teses sobre a ascensão da extrema direita europeia

O resultado das eleições para o Parlamento Europeu, no fim de maio, registrou na prática o fortalecimento dos partidos de extrema direita no continente. Para sociólogo, discurso com que esquerda explica o crescimento do fascismo pela via da crise econômica reduz fenômeno e deixa de lado suas raízes históricas.

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1. As eleições europeias confirmaram uma tendência observada já há alguns anos na maior parte dos países do continente: o crescimento espetacular da extrema direita. Esse é um fenômeno sem precedente desde os anos 1930. Em muitos países, essa corrente obtinha entre 10 e 20%. Hoje, em três países (França, Inglaterra e Dinamarca), ela já atinge entre 25 e 30% dos votos. Na verdade, sua influência é mais vasta do que seu eleitorado: ela contamina com suas ideias a direita “clássica” e até mesmo uma parte da esquerda social-liberal. O caso francês é o mais grave; o avanço da Frente Nacional ultrapassa todas as previsões, mesmo as mais pessimistas. Como escreveu o site Mediapart em um editorial recente: “São cinco para meia-noite”.

2. Essa extrema direita é muito diversa, podendo-se observar uma vasta gama que vai desde os partidos abertamente neonazistas -como o Aurora Dourada grego- até as forças burguesas perfeitamente integradas no jogo político institucional, como a suíça UDC (União Democrática de Centro). O que eles têm em comum é o nacionalismo excessivo, a xenofobia, o racismo, o ódio contra imigrantes –principalmente “extraeuropeus”– e contra ciganos (o mais velho povo do continente), a islamofobia e o anticomunismo. A isso pode-se acrescentar, em muitos casos, o antissemitismo, a homofobia, a misoginia, o autoritarismo, o desprezo pela democracia e a eurofobia. Quanto a outras questões –por exemplo, ser a favor ou contra o neoliberalismo ou a laicidade– a corrente se mostra mais dividida.

3. Seria um erro acreditar que o fascismo e o antifascismo são fenômenos do passado. É evidente que hoje não se encontram mais partidos de massa fascistas comparáveis ao NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães) dos anos 1930, mas já nessa época o fascismo não se resumia a um único modelo: o franquismo espanhol e o salazarismo português eram bem diferentes do modelo italiano ou do alemão.

Parte importante da extrema direita europeia hoje tem matriz diretamente fascista e/ou neonazista: é o caso do grego Aurora Dourada, do húngaro Jobbik, dos ucranianos Svoboda e Pravy Sektor etc.; mas isso vale também, sob outro aspecto, para a Frente Nacional, o FPÖ (Partido da Liberdade Austríaca), o belga Vlaams Belang (Interesse Flamengo) e outros, cujos quadros fundadores tiveram ligações estreitas com o fascismo histórico e com as forças de colaboração com o Terceiro Reich.

Em outros países -Holanda, Suíça, Inglaterra, Dinamarca- os partidos de extrema direita não têm origem fascista, mas partilham com os primeiros o racismo, a xenofobia e a islamofobia.

Um dos argumentos que demonstrariam que a extrema direita mudou e não teria mais muito a ver com o fascismo é sua aceitação da democracia parlamentar e da via eleitoral para chegar ao poder. Lembremos que um certo Adolf Hitler chegou à Chancelaria por uma votação legal do Reichstag (Parlamento alemão) e que o marechal Pétain foi eleito chefe de Estado pelo Parlamento francês. Se a Frente Nacional chegasse ao poder por meio de eleições –uma hipótese que infelizmente não se pode descartar– o que restaria da democracia na França?

4. A crise econômica que castiga a Europa desde 2008 favoreceu, portanto, de maneira predominante (com exceção do caso da Grécia), mais a extrema direita do que a esquerda radical. A proporção entre as duas forças está totalmente desequilibrada, contrariamente à situação europeia dos anos 1930, que via, em diversos países, um crescimento paralelo do fascismo e da esquerda antifascista.

A extrema direita atual, sem dúvida, se aproveitou da crise, mas isso não explica tudo: na Espanha e em Portugal, dois dos países mais atingidos pela crise, a extrema direita continua marginal. E na Grécia, ainda que o Aurora Dourada tenha crescido exponencialmente, segue retumbantemente derrotado pelo Syriza, coalizão da esquerda radical. Na Suíça e na Áustria, países poupados pela crise, a extrema direita racista ultrapassa com frequência os 20%. É preciso, então, evitar as explicações economicistas que a esquerda vem propondo.

5. Fatores históricos têm sem dúvida o seu papel: uma grande e antiga tradição antissemita em certos países; a persistência de correntes colaboracionistas desde a Segunda Guerra Mundial; a cultura colonial, que impregna as atitudes e os comportamentos muito depois da descolonização -não somente nos antigos impérios, mas em quase todos os países da Europa. Todos esses fatores estão presentes na França e contribuem para explicar o sucesso do lepenismo.

6. O conceito de “populismo”, empregado por alguns cientistas políticos, pela mídia e mesmo por uma parte da esquerda, não é de modo algum capaz de dar conta do fenômeno em questão, servindo apenas a semear a confusão. Se na América Latina, desde os anos 1930 até os 1960, o termo correspondia a algo relativamente preciso –o varguismo, o peronismo etc.–, seu uso na Europa a partir dos anos 1990 é cada vez mais vago e impreciso.

O populismo é definido como “uma posição política que está do lado do povo contra as elites”, o que é válido para quase qualquer movimento ou partido político. Esse pseudoconceito, aplicado aos partidos de extrema direita, leva, voluntariamente ou não, a legitimá-los, a torná-los mais aceitáveis, e até mesmo simpáticos –quem não é a favor do povo contra as elites?–, evitando cuidadosamente os termos que contrariam: racismo, xenofobia, fascismo, extrema direita. “Populismo” também é utilizado de maneira deliberadamente mistificadora por ideólogos neoliberais para amalgamar a extrema direita e a esquerda radical, caracterizadas como “populismo de direita” e “populismo de esquerda”, opondo-as aos políticos liberais, à Europa etc.

7. A esquerda, todas as tendências reunidas –com poucas exceções–, tem subestimado cruelmente o perigo. Ela não viu chegar a “vague brune”1 e, por isso, não achou necessário tomar a iniciativa de uma mobilização antifascista. Para algumas correntes da esquerda, a extrema direita é apenas um subproduto da crise e do desemprego, e é contra essas causas que é preciso lutar, e não contra o fenômeno fascista em si. Esses argumentos tipicamente economicistas desarmaram a esquerda diante da ofensiva ideológica racista, xenófoba e nacionalista da extrema direita.

8. Nenhum grupo social está imune à “peste brune”. As ideias da extrema direita, em particular o racismo, contaminaram um bom contingente, não só de pequenos-burgueses e desempregados como também da classe trabalhadora e da juventude. No caso francês, isso é particularmente chocante. Essas ideias não têm nenhuma ligação com a realidade da imigração: o índice de votação na Frente Nacional, por exemplo, é especialmente alto em algumas regiões rurais em que nunca se viu um só imigrante. E os imigrantes ciganos, que foram recentemente objeto de uma onda de histeria racista bastante impressionante –com a indulgente participação do então ministro “socialista” do Interior, Manuel Valls–, são menos de 20 mil em todo o território francês.

9. Outra análise “clássica” da esquerda sobre o fascismo é a que o explica como um instrumento do grande capital para esmagar a revolução e o movimento trabalhador. Bom, como hoje o movimento trabalhador está muito enfraquecido e o perigo revolucionário inexiste, o grande capital não tem interesse em sustentar movimentos de extrema direita, então a ameaça de uma ofensiva “brune” não existe. Trata-se, mais uma vez, de uma visão economicista, que não abarca a autonomia própria aos fenômenos políticos -os eleitores podem escolher um partido que não tem a simpatia da grande burguesia- e que parece ignorar que o grande capital pode se acomodar em todos os tipos de regimes políticos, sem muitas preocupações.

10. Não há receita mágica para combater a extrema direita. É preciso se inspirar, mantendo certa distância crítica, nas tradições antifascistas do passado; mas é preciso também saber inovar para responder às formas atuais do fenômeno. Há que saber combinar iniciativas locais com movimentos sociopolíticos e culturais individuais solidamente organizados e estruturados, em escala nacional e continental. É possível chegar a uma unidade pontual de todo o espectro “republicano”, mas um movimento antifascista organizado só será eficaz e confiável se impelido por forças externas ao consenso neoliberal dominante. Trata-se de uma luta que não pode se limitar às fronteiras de um país, mas deve se organizar em escala europeia. O combate ao racismo, e a solidariedade a suas vítimas, é um dos componentes essenciais dessa resistência.

Nota:
1. “Vague brune”, onda marrom, é como vem sendo chamada, na França, a expansão fascista. A expressão deriva de “peste brune”, praga marrom, nome dado pelos franceses ao nazismo durante a Segunda Guerra, em referência à cor do uniforme dos soldados do Reich.

Fonte: http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/news/view/3531

A ex-esquerda caiu por sua derrota ideológica

“A ex-esquerda sucumbiu por ignorância ou subestimação do conceito de ideologia e a consequência direta da falsa ideia de hegemonia na sociedade brasileira”, afirma Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e relações internacionais.

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Segundo ele,  a ex-esquerda passou “pela doença de um certo “hobbesianismo distributivista”, e muito além não vai o pensamento de tradição stalinista e também neovarguista. Neste segundo, tendo como aliados os primeiros, localizo a posição ideológica do ex-presidente Lula e do fenômeno do lulismo. E, assim como em 1954, perde-se tudo por não entender o tipo de sociedade pós-colonial onde nos encontramos. Ou pior. Perde-se tudo por acreditar na institucionalidade burguesa mais do que a própria oligarquia nacional e os estamentos que agora se aventuram na tomada do poder de Estado (tal como magistrados e procuradores)”.

Eis o artigo.

Afirmo de maneira categórica: A ex-esquerda sucumbiu por ignorância ou subestimação do conceito de ideologia e a consequência direta da falsa ideia de hegemonia na sociedade brasileira. Como também afirmo há tempos, chegando ao ponto da exaustão por repetição do conceito, não trato da hegemonia de tipo superficial ou rasteira, quando se entende – de maneira equivocada – a “ter hegemonia” a simplesmente impor alguns nomes para certos cargos-chave em instituições importantes dentro de uma sociedade estruturalmente desigual. Isso não é hegemonia, talvez hegemonismo, velho vício das esquerdas encantadas com a tentação autoritária.

Ouso afirmar que passamos ainda pela doença de um certo “hobbesianismo distributivista”, e muito além não vai o pensamento de tradição stalinista e também neovarguista. Neste segundo, tendo como aliados os primeiros, localizo a posição ideológica do ex-presidente Lula e do fenômeno do lulismo. E, assim como em 1954, perde-se tudo por não entender o tipo de sociedade pós-colonial onde nos encontramos. Ou pior. Perde-se tudo por acreditar na institucionalidade burguesa mais do que a própria oligarquia nacional e os estamentos que agora se aventuram na tomada do poder de Estado (tal como magistrados e procuradores).

Enfim, perde-se o Poder Executivo por não acreditar em nenhum momento em criar ou reforçar agentes coletivos com poder de veto. Logo, perde-se o Poder Executivo Pós-colonial, criollo e burguês por não querer nada com o Poder Popular.

Muito se há especulado a respeito da perda absurda do poder por parte do segundo governo Dilma (2015-2016). Podemos realçar o papel das empresas de marketing digital e centro de fomento do neoliberalismo; também a função estratégica da mídia massiva para formar um novo consenso conservador; a ação do imperialismo através da Operação Pontes e com a instalação da Força Tarefa da Lava Jato (praticamente incontrolável e em cooperação direta com os EUA); e obviamente a ação traidora do ex-aliado político, encabeçado pelo vice-presidente eleito e reeleito com a ex-ministra da Casa Civil de Lula. Mas, insisto, a ação do inimigo estratégico era subestimada pelo lulismo, que a via apenas como adversário circunstancial. Logo, ao não assumir a impossibilidade de uma aliança de longo prazo e consequente “defesa da estabilidade institucional”, Lula, Rui Falcão, José Dirceu e outros dirigentes de peso, conseguiram impor seu consenso e autoconvencimento sobre uma legenda com milhares de filiados, mas com pouca democracia interna na tomada de decisões centrais.

A derrota ideológica passa por confiar em demasia e não ter um trunfo, uma carta na manga. Ninguém em sã consciência pode se “surpreender” com a conduta de Michel Temer – a começar pela carta onde este se apresenta como “candidato” em pleno exercício da Vice Presidência – sendo este operador filho político de Adhemar de Barros e projetado nacionalmente através de Orestes Quércia. Considerando que a Direção Nacional do PT e o próprio Lula têm carreira em São Paulo, não se pode alegar desconhecimento ou má interpretação. Vou além no raciocínio.

A derrota ideológica é uma posição de antemão, onde um dos agentes centrais em um conflito simplesmente o nega, por supor que o antigo inimigo já não o considera mais “inimigo” por este tentar se apresentar como “fiável e comportado”. Ocorre que basta um mínimo de compreensão das sociedades concretas da América LatinaBrasil incluído e não fora, como se estivéssemos de costas para o Continente – para verificar que a mesa pode ser virada a todo instante. Se não bastassem nossos mais que convincentes processos históricos, bastava observar os golpes brancos, institucionais e bem sucedidos de Honduras (com a deposição de Manuel Zelaya Rosales (eleito em janeiro de 2006 e derrubado com o aval da Suprema Corte em junho de 2009) e Paraguai (quando o então presidente Fernando Lugo, assumiu em agosto de 2008 e derrubado após um controvertido impeachment em junho de 2012). Como a arrogância e a prepotência são filhas diretas do exercício do poder político, imaginaram que “no Brasil não ocorrem mais destas coisas; não somos uma republiqueta”. Não, claro que não. O Bananão se afirmou por cima das instituições e o estamento togado trouxe para si o papel de Poder Moderador, legislando por jurisprudência e súmula vinculante.

Mídia, bestialização e a ausência das ideias de câmbio

“E o povo bestializado, assistiu à proclamação da tal da república”. Assim encerra a narrativa clássica dos que acompanharam o golpe militar de 15 de novembro de 1889, quando o gabinete da Guerra derruba a monarquia brasileira a quem o marechal Deodoro da Fonseca servia. A mudança de regime político sempre tende a ser um momento traumático para operadores, elites em disputa ou setores de classe dominante perdendo interesses diretos. Mas, para a maioria, ainda quando há alguma inclinação popular no governo de turno, se esta não for organizada na defesa de suas bandeiras e conquistas diretas, a tendência é se dedicar a sobrevivência diária. Na ausência de sujeitos sociais com organicidade e referências desde a base, o povo brasileiro, infelizmente, percebe os sintomas dramáticos apenas quando se sente atingido. É como alguém caminhando no escuro e recebendo murros, sentindo as dores, mas não reconhecendo quem golpeia.

Quando temos um país com sujeitos sociais desorganizados, mesmo sendo estes são beneficiados por programas de governo, não é a melhoria material que vai levar a uma significação ou câmbio de consciência. Assim, ainda que a vida melhore, a maioria vai perceber que o dinheiro em conta, o emprego direto e os benefícios materiais vão implicar em mais trabalho e compromisso, e não em mudança ideológica. Por um período, estes beneficiados terão alguma identidade com o líder carismático – no caso, o ex-presidente Lula. Mas, assim que o modelo começa a ruir, o voto cativo fica “liberto”, em geral caindo na abstenção, branco ou nulo, conforme se verificou no primeiro turno das eleições municipais de 2016.

Como a vida cotidiana de amplas camadas das classes C e D melhoraram, mas não ao ponto de transformar as relações cotidianas, e nem mesmo diminuindo significativamente os índices de violência urbana, a identidade política com o “ex-sindicalista que nunca foi de esquerda” (frase do próprio Lula) não chega ao ponto de ser totalmente transferida para a sucessora. A ruína do modelo macroeconômico caminhou lado a lado e foi impulsionada pela permanente exposição seletiva e julgamento midiáticos, com foco no “conjunto da obra” do lulismo. Diante da possibilidade de subordinar o governo que fez de tudo para agradá-los, os conglomerados de mídia, liderados pela Globo e secundados por Estadão, Folha e Abril, costuraram o consenso conservador, auxiliados pelos neoliberais no andar de cima e os neopentecostais na base da pirâmide social. Deu no que deu.

Apontando a conclusão óbvia

Na ausência de organização social, é impossível defender práticas indefensáveis sem sequer entender a perda de direitos que já está ocorrendo. Para organizar a maioria, é urgente construir, pouco a pouco, um novo consenso dos sujeitos sociais que conformam esta maioria, apontando para a defesa de interesses e identidade popular totalmente antagônica às representações simbólicas da classe dominante colonizada.

Anatomia da crise do socialismo

O socialismo francês está doente, assim como as outras propostas similares na Europa. As primárias do Partido Socialista (PS) nas quais se dirime não apenas o candidato para as eleições presidenciais de 2017, mas também o conteúdo político do socialismo, não são suficientes para preencher o vazio sideral em que se meteu o PS francês e, mais globalmente, a socialdemocracia europeia e a esquerda em geral. Ambas atravessam o pior momento da história contemporânea. A desistência do presidente francês, François Hollande, de concorrer à sua reeleição, representa um fracasso adicional: pela primeira vez na França sob a Quinta República, um chefe de Estado decidiu dar um passo atrás. Esse gesto representa o fracasso da chamada “esquerda reformista” e sua impossibilidade de manter o poder.

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O comentário é de Eduardo Febbro, jornalista, publicado por Página/12, 27-01-2017. A tradução é de André Langer.

A oferta política europeia está asfixiada pelos populismos de extrema direita, pelo também chamado voto “sentimental” no melhor estilo do dirigente italiano Beppe Grillo, pelo conceito de “democracia iliberal” inventado pelo primeiro ministro húngaro Viktor Orban e por alguns movimentos da extrema esquerda. “Não votem com o cérebro, votem com o coração”, disse Grillo há algumas semanas. Na França, uma das personalidades mais populares é Marine Le Pen, a presidenta do partido da extrema direita Frente Nacional. O eleitorado fez desta mulher de grande oratória xenófoba e populista uma das favoritas para derrotar a esquerda no primeiro turno das eleições presidenciais de 2017.

A esquerda reformista de François Hollande, que governa a França desde 2012, termina o mandato esgotada, dividida e com níveis de aceitação popular dignos de um partido marginal. A esquerda mais progressista, por sua vez, também dividida em várias correntes, conserva um crédito sólido, superior inclusive ao PS, mas insuficiente para chegar ao poder. O dirigente da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon tem uma imensa aura popular, mas que, no encontro com as urnas, não se traduz em votos.

Hoje, as expectativas políticas dos eleitores estão depositadas na direita retrógrada ou na extrema direita. A socialdemocracia está desaparecendo. Sua retórica tornou-se inaudível, mesmo se seu reformismo não destruiu a raiz do Estado social, como pretende fazer a direita. A França segue sendo, dentro dos países da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico), aquele país que mantém o gasto social mais alto: 31% frente a uma média de 21% na zona OCDE.

Para onde quer que se olhe, a Europa atravessa situações similares, cujo código comum é um eleitor que se diz vítima da globalização, do aumento das desigualdades, das elites modernas afastada da realidade, do retrocesso dos Estados e dos sistemas políticos viciados. Dessas ideias surgiu um tipo de personagem que assimila todos os males: o suposto operário branco, castigado pela globalização, com um trabalho instável, marginalizado pela desigualdade e superado, em direitos, pelos estrangeiros.

A esquerda no poder, como no caso da França, foi incapaz de se remodelar para responder a estes problemas. Ela se limitou a administrar as expectativas que ela mesma gerou com ações políticas contrárias às narrativas com que se fez eleger.

No Leste europeu e na Europa Oriental apareceu uma espécie de “muro da rejeição”, cujos melhores representantes são, na Hungria, Viktor Orban, e, na Polônia, Jaroslaw Kacynski. Estas posturas políticas são autoritárias, revisionistas, populistas ao extremo, mentirosas e propensas a limitar as liberdades e todos os mecanismos de contrapoder desenvolvidos pelas democracias. No dia 24 de julho de 2014, o dirigente húngaro Viktor Orban inventou a expressão com a qual se identificam hoje essas redefinições políticas: “a democracia iliberal”. O conceito invoca dois inimigos a serem derrotados: as elites globalizadas e os imigrantes. Para isso, os iliberais propõem o exercício de um poder absoluto em nome do povo, mas sem os necessários equilíbrios de poderes.

Como fizeram os partidários do Brexit na Grã-Bretanha, Donald Trump nos Estados Unidos e outras direitas europeias, trata-se de devolver a soberania ao povo, de proteger o povo e de governar em nome do povo excluindo os outros contrapoderes, ou isolando as minorias perigosas: poloneses na Grã-Bretanha, latinos nos Estados Unidos, muçulmanos na Europa, de maneira geral, as elites urbanas e conectadas. O hino desta “democracia iliberal” é o mesmo de Trump: “Let’s take back control” – retomemos o controle em nome do povo e para o povo.

Nos países escandinavos, na Holanda, na Áustria, na Bélgica, na Itália ou na França os partidos marcadamente populistas alteraram o jogo político. Nem mesmo a Alemanha se salva, onde o surgimento do partido de extrema direita AFD (Alternativa para a Alemanha) veio se juntar ao concerto geral de xenofobia, denúncia das elites privilegiadas e dos partidos políticos tradicionais.

Jean-Yves Camus, diretor do Observatório da Radicalização Política, observa que “embora a democracia seja suficientemente forte para resistir ao neofascismo, não é certo que esteja protegida contra uma evolução na qual a forma republicana e democrática de governo poderia sobreviver (eleições livres, bipartidarismo) ao mesmo tempo que muda de natureza”. Todas estas forças políticas apoiam-se nos mesmos impulsos: a rejeição ao estrangeiro, a proclamação de uma nova soberania frente à globalização ou a União Europeia e, última novidade, uma narrativa social muito forte copiada da esquerda.

E é justamente aqui que está o abismo: a Europa política está em plena recomposição com um ausente maior: a esquerda. Suas ideias não prosperam e toda a reformulação passa pela direita ou pela extrema direita. O trabalhismo britânico de Jeremy Corbyn não decola, o Pasok grego ficou arrasado, o SPD alemão busca sua glória passada, o velho partido socialdemocrata austríaco nem sequer passou pelo primeiro turno nas eleições presidenciais, o PSOE espanhol jogou-se pela janela assim como fez o PS francês.

A esquerda socialdemocrata ou reformista vive sua pior fase histórica: seu último reinado remonta ao período que vai de 1990 a 2000 com Tony Blair na Grã-Bretanha (1997-2007), Gerhard Schroeder na Alemanha (1998-2005), Felipe González na Espanha (1982-1996) e Lionel Jospin na França (1997-2002). Dali em diante, essa esquerda foi se esfumaçando nas brumas de uma gestão não inteiramente de acordo com seus postulados. Ela perdeu sua alma tentando adaptar-se à realidade das economias globalizadas, ao encolhimento dos Estados protetores, às enormes transformações tecnológicas e à pressão liberal.

A socialdemocracia transformou-se em uma espécie ameaçada pela direita ultraconservadora, extrema direita ou pela esquerda mais radical (Syriza na Grécia, Podemos na Espanha, o Movimento 5 Estrelas na Itália, a Frente de Esquerda na França ou Die Linke na Alemanha). O centro de gravidade deslocou-se para a direita.

Na França, a socialdemocracia e as esquerdas plurais disputam um espaço cada vez mais restrito: seus adversários são o conservadorismo social misturado com o liberalismo econômico assim como é postulado pelo candidato da direita que venceu as primárias, François Fillon, ou a ultradireita de Marine Le Pen em cuja retórica confluem o mais genuíno da extrema direita, o populismo e ingredientes sociais furtados da esquerda.

Mas, via de regra, a esquerda não está presente na reconstrução política do Velho Continente. Passou de ator que desenhava o futuro a se ver expulso dele. Uma esquerda reformista que não prospera para além de determinado nível, outra esquerda histórica estancada e uma esquerda radical que também não rompe a barreira dos 15%: as três competem quase no mesmo mercado sem capacidade de postular um modelo comum ou chegar a uma convergência. Aquele que foi durante muitas décadas o motor do progresso social europeu tornou-se um ator de segunda categoria, obscurecido por suas incoerências, traições e egos.

Movimentos, Mosaicos e Ideologias

As potencialidades das ideologias se tornaram extremamente úteis para teologias que pela “violência” discursiva arvoram para si a unificação da ortodoxia, deixando de lado a ortopraxia

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A ideologia discursiva é de caráter científico-exegético, sustentando no seu imaginário teórico uma atitude de cientificidade-pbjetividade, porém como resultado filosófico e prático a teologia-ideológica tem a pretensão de ser uma teologia científica de discurso uniforme, tentando procurar um ponto do qual largar, no fundo se acham como o Ulsain Bolt da teologia.

A práxis ideológica-teológica significa, literalmente, a lógica de uma ideia. A unidade entre a história e o texto bíblico é o seu objeto de estudo ‘analítico’, no qual se aplica uma “ideia” ou a uma corrente teológica, o resultado de um processo em constante mudança para se ter uma base lógica do acontecimento – A possibilidade de mapear e revelar os mistérios de todo processo histórico, como os seus segredos passados, as suas complexidades e incertezas do futuro, num conjunto harmonioso de ideia lógica o discurso ideológico busca preencher este vácuo, história e texto.

A teologia tem que aprender a dialogar com a presente era, o processo de secularização traz em seu campo teórico conceitos que partem do desenvolvimento do cânon bíblico. Giorgio Agamben, Charles Taylor trabalham de forma magistral estes conceitos, ao se usar de ferramentas ditas seculares não o fazemos em um vácuo histórico, a secularização é o esvaziamento do sentido teológico da história, dialogar com estas ferramentas é fazer de uso destas a partir de locus teológico, trazendo para a história o seu sentido teológico, tais movimento não blinda ninguém de críticas.

A crítica ideológica em si não alcançou um lugar sagrado isento das perturbações do fluxo ou fluxos históricos, há sujeitos agentes neste fluxo social. Devemos então abandonar o processo de demarcação de ideologia discursivas? Como a critica ideológica pode apontar qualquer coisa em relação a realidade social e neste caso o fazer teologia e missão; a partir do momento em que o ato discursivo tenta abandonar de forma idealista este contato com a realidade e acaba caindo conceitualmente na práxis que querem de forma ansiosa denunciar, assim como quaisquer práxis fora deste curso com a vida concreta pode se ver presa dentro do processos ideológicos, ela surge exatamente no momento em que queremos evita-la, o sociólogo e teórico critico Slavoj Žižek já aponta acertadamente “quando um processo é denunciado como ‘ideológico por excelência’ pode-se ter certeza de que seu inverso não é menos ideológico” – somente aos pés do Rabi de Nazaré onde qualquer encontro reconciliador é possível podemos encontrar a redenção para o nosso relacionar na perenidade da história, discurso intramuros não é dialogo.

Um ‘Mosaico’ de ideias pode ser um quebra-cabeça ideológico, e como qualquer processo ideológico a pretensão é uma relação de poder discursiva e única, o verdadeiro mosaico é saber que cada peça do quebra-cabeça é uma perspectiva, e como perspectiva sua visão é limitada, a via é reconhecer que a limitação se dá por outros olhares.

Olimpíada faz moradores de rua sentirem falta de quando eram “invisíveis”

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Beto conta que se vê como um rato. A sociedade finge que ele não existe. Torce para não encontrá-lo e, quando encontra, faz cara de nojo. Beto não se sente o último da fila. Morador de rua, ele nem sequer se enxerga na fila.

Tratado como praga urbana, Beto resignou-se em ser ignorado. O surreal é, hoje, ele pensar que era feliz e não sabia. A chegada do período de Olimpíada deu início à operação “Caça-Tralha” no Rio de Janeiro. Um caminhão de lixo acompanha funcionários da prefeitura, e os moradores de rua contam que são acordados com os cutucões do bico de uma bota. O pronome de tratamento para ocasião é “vagabundo”.

A reportagem é de Felipe Pereira e publicado por portal Uol, 08-08-2016.

A “Caça-Tralha” fez aqueles que dormem nas praças e calçadas da cidade sentirem saudade do tempo em que eram invisíveis. Agora são sumariamente enxotados se esticarem o papelão em bairros como Copacabana, Ipanema, Arpoador ou outros cartões postais da cidade olímpica. Por essa lógica, a de vender uma imagem, a zona de exclusão é imensa – o que não falta no Rio são lugares bonitos.

Os moradores de rua se consideram sujeira varrida para baixo do tapete. Em tempos olímpicos, o derradeiro lugar que eles consideram seguro para dormir no centro do Rio é sob a marquise do prédio da Defensoria Pública do Estado, único órgão que o grupo vê como comprometido em protegê-los de operações higienistas.

Toda noite são cerca de 40 pessoas que buscam refúgio no local. Como uma ironia divina, os chefes de Estado presentes na cerimônia de abertura do Rio-2016 foram recebidos como VIPs no Maracanã. Enquanto isso, debaixo da marquise, o grupo se enrolava em, digamos, cobertores.

Olimpíada é só para eles. Não é para pobre. A gente é sarqueado (verificação de antecedentes criminais) todos os dias, humilhado e tratado como um rato”, resume Beto.

Descaso estatal

A coleção de humilhações cresce mensalmente. Juselia do Nascimento, 30, diz que é seguida por seguranças toda vez que entra num supermercado. Franklin Alves, 33, afirma ter visto um cadeirante com dificuldades de atravessar uma avenida recusar ajuda porque a oferta partiu de um morador de rua.

O poder público repete esse tratamento. A ação social que mais deu oportunidades a essas pessoas não é estatal, mas de uma ONG. O projeto Uma Só Voz montou um coral e permitiu aos moradores de rua cantarem em espaços nobres do Rio de Janeiro, como o Museu de Arte Moderna e o Museu do Amanhã.

Então a iniciativa privada se mobilizou pelo projeto? Não exatamente. Talvez o empresariado tenha até ajudado, mas com certeza não foi o brasileiro. A ideia e o financiamento vêm de fora. A grana tem origem na Inglaterra. O Uma Só Voz é uma continuação do trabalho feito com os moradores de rua de Londres antes de a cidade receber a Olimpíada em 2012.

No poder público fluminense, só houve alguma ação no ano olímpico. As defensorias do Estado e da União fizeram uma audiência pública em 13 de maio. Para a maioria, tais ocasiões são uma formalidade inútil. Mas, para quem nunca havia sido ouvido, foi uma catarse. Finalmente alguém para escutar os nossos problemas, pensaram os moradores de rua do centro do Rio.

A segunda audiência pública ocorreu na última quarta-feira. O número de instituições que faltaram reflete o tratamento que os governos insistem em dar a essas pessoas. Na lista dos que não enviaram representantes, estão a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Ministério Público, prefeitura do Rio e governo do Estado do Rio.

Nem a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, pastas da área social, compareceram. O próprio envolvimento das defensorias públicas é recente. Começou neste ano, o ano da Olimpíada.

“Antes tarde do que nunca. Tomaram vergonha na cara e estão indo para rua, saindo do ar-condicionado”, afirma a moradora de rua Erica Augusto, 36.

Violações disparam

Ao ignorarem a audiência pública, os faltosos não viram sacos de lixo de 200 litros e mochilas ao lado das cadeiras dos presentes. Neles estão todos os pertences que um morador de rua tem na vida. Um pulo na lanchonete do prédio é reveladora. A atendente conta que não vendeu uma bala sequer aos moradores de rua – ninguém podia pagar.

No banheiro, os moradores de rua comemoravam ter água corrente e sabão para lavar o rosto e as mãos. Eles são expulsos dos postos de gasolina se forem flagrados junto a uma torneira. O ato final da audiência pública foi um banquete de cachorro quente com tubaína. O grupo comeu com pressa, quase com desespero. Reflexo de uma existência com fome.

Eles desceram o elevador cheios de alegria. Na última sexta-feira, noite da abertura da Olimpíada, estavam de volta ao local. Mas do lado de fora. Embaixo dos cobertores não havia mais felicidade. Essas pessoas dizem que a hora de dormir é a pior porque é quando os fantasmas aparecem. O mais aterrorizante deles é a solidão.

Cidinha é um exemplo. A mulher de 57 anos e cabelos brancos bem finos parece uma youtuber. Conta histórias interpretando trejeitos e tom de voz. Faz uma brincadeira atrás da outra. Quando o pedido de uma moeda é acompanhado de um ‘não tenho’, emenda que “nota de cem também serve” e dá risada. Pura carapaça.

Ela clama por atenção. Tem saudades das filhas, mas a vergonha é maior. O ímpeto com o qual vira a cachaça de outro morador de rua indica qual tem sido a principal companhia dela nos três anos que está longe de casa.

Trovão, 55, se nega a dizer o nome. Conta apenas que na rua tem muita gente com problemas mentais e/ou envolvidas com drogas. Mas pensa que isso não é motivo para serem esculachados. No alto de seus 68 anos, Gilberto Botti lamenta conviver com este ambiente. “Sempre pedi a Deus quando era mais novo que não chegasse ao ponto que tô. Um ponto caído”, afirma.

Gilberto confessa que a bebida e a cocaína destruíram sua vida. Assume que é dependente químico. Viciado, como ele diz. Conta que sua aposentadoria escorre para mão de traficantes e donos de botecos sujos. Mas estar na rua desde os 16 anos não eliminou o senso de realidade. A autoimagem é desoladora.

“[A gente] Se sente desprezível e desprezado”, fala Gilberto.

Sentir-se um rato não é um sentimento exclusivo de Beto. Ignorados pela sociedade e pelo poder público, muitos moradores de rua pensam em adotar uma solução extrema, que significa terminar embaixo de um ônibus ou pulando de uma ponte. Beto explica de onde vem esta angústia.

“Tem hora que te dá tristeza. Sente falta da família, sente falta de trabalho. Tudo de ruim a gente sente. No nível que me encontro, vou pensar o que da vida? Tem hora que penso em me suicidar. Penso em fazer uma besteira”, confessa.

Beto completa dizendo que ninguém sentiria falta dele. A honestidade estarrecedora prova que, mesmo maltratado, ele não perdeu sua humanidade. O ideal olímpico não deixa legado às pessoas que vivem nas sarjetas do Rio de Janeiro.

Os faltosos

O UOL Esporte procurou todas as instituições que não compareceram à audiência pública. A assessoria de imprensa do governo do Estado informou que moradores de rua são responsabilidade da prefeitura. Ministério Público, OAB, e a prefeitura não se manifestaram.

Que comunhão!

Após certa comoção “nacional” e reações as mais diversas acerca de uma carta escrita por Karl Barth a Francis Schaeffer. Reações esta que extrapolaram o contexto da carta e toda a complexa história por detrás da publicação desta no contexto nacional, o aparecimento dela se deram na verdade devido às ácidas criticas a TMI e a blindagem ao dialogo por parte destes mesmos críticos, como se por um passe de mágica retórica toda a TMI tivesse sido desconstruída.

Carta: https://www.facebook.com/jorge.h.barro.5/posts/10208312898253010

Houveram artigos publicados em Blog’s retirando do contexto a discussão extrapolando para as criticas de alguns outros acercada validade e expressividade da “Filosofia reformada” no meio acadêmico, deixando de lado esta discussão.

Tão logo apareceu uma postagem de um importante líder neocalvinbista com o seguinte texto; “e qualquer um que leia as cartas de Karl Barth vão constatar que ele nunca era gracioso nem costumava elogiar outros teólogos, de forma que qualquer tipo de reação positiva nas cartas de Barth durante esse período” (texto retirado de um blog americano de um estudioso de Barth) – como o contexto da publicação da carta de Barth-Schaeffer era o de mostrar o caráter de uma apologia extremada de Schaeffer e seu lado “fundamentalista” made in USA, esta frase solta no ar foi com o intuito de mostrar (pelo menos é o aparente), que a falta de dialogo se devia a uma predisposição barthiana de não dialogar, ou até mesmo de uma arrogância teológica deste, como se ele vivesse no Monte Olimpo da teologia. Analisando o contexto das correspondências de Barth a Moltmann nos revela o verdadeiro lado da história – dialoga-se com quem está disposto a ter o seu trabalho, o seu labor teológico a comunidade de fé (universal) e não de guetos eclesiásticos.

Carta de Karl Barth a Jürgen Moltmann e correspondências relacionadas

Karl Barth

Karl Barth e Jürgen Moltmann trocaram várias correspondências nos anos 60. Infelizmente, muitos leram apenas a resposta de Barth para Moltmann sem o devido contexto e acabaram concluindo que Barth enviou a Moltmann apenas uma carta ácida de rejeição, só que isso está bem longe da realidade. As cartas abaixo são de Karl Barth: Cartas 1961-1968, e qualquer um que leia as cartas de Karl Barth vão constatar que ele nunca era gracioso nem costumava elogiar outros teólogos, de forma que qualquer tipo de reação positiva nas cartas de Barth durante esse período (1961-1968) era, na verdade, um forte elogio!
Compartilhei a carta completa de Barth para Moltmann, bem como a resposta deste para Barth. E depois incluí a descrição de Moltmann da correspondência em uma citação da autobiografia de Moltmann: “Weiter Raum: Eine Lebensgeschichte” (em inglês, ‘A Broad Place’, sem tradução publicada em português) e, finalmente, incluí vários fragmentos das cartas de Barth onde ele se refere ao livro de Moltmann, a Teologia da Esperança, que são bem elucidativos ao demonstrar que Barth admitia elogiar Moltmann de forma que nunca o vi fazer com respeito a nenhum outro.

Carta de Karl Barth a Jürgen Moltmann
Para: Prof. Jürgen Moltmann
Bonn
De: Karl Barth
Basileia, Hospital Bethesda,
17 de novembro de 1964

Prezado Colega,

Foi muita gentileza sua enviar para mim uma cópia do seu livro Theologie der Hoffnung (Teologia da Esperança). Durante minha estadia no hospital, que deverá ir até depois de amanhã, dei uma lida em tudo e assimilei o conteúdo básico. Esta é uma boa oportunidade para expressar meus agradecimentos, não só pela atenção a mim dispensada, mas também pela instrução e estímulo que recebi da leitura da sua obra. Se me permite dizer uma ou outra palavra sobre a impressão que me causou… Tenho procurado por décadas – e já nos anos 20 eu já procurava – pelo filho da paz e da promessa, ou seja, aquele homem da nova geração que não apenas aceitaria ou rejeitaria aquilo que pretendi e fiz na teologia, mas que pudesse ir além, positivamente e com uma concepção independente, aperfeiçoando em cada ponto de forma renovada. Eu peguei e estudei seu livro com essa expectativa e, no começo da minha leitura, perguntei-me de forma séria se esse Jürgen Moltmann, que, até onde me lembro, era até então um desconhecido para mim, poderia ser esse homem. Eu realmente fiquei impressionado, não só pela sua erudição eclética, mas também pela força espiritual e poder sistemático que caracterizam seu livro. Essa tentativa, como eu previa, tinha que ser feita um dia, e as ideias críticas que você trouxe à baila por todos os lados devem e vão levar adiante o debate. Espera-se que você seja notado em todos os círculos. Fico contente em ver a forma como você trata alguns antigos esforços de me caracterizar e em notar o que você diz acerca do atual estado do conhecimento acerca de mim.

Mas, prezado Dr. Moltmann, não consigo ver, na sua Teologia da Esperança, o que é realmente necessário hoje para refinar a obra Dogmática Eclesiástica e minha própria essência teológica. Não vou usar isso contra você, como fez Gollwitzer, (1) que seu livro não traz qualquer orientação concreta sobre a ética nesta esfera, determinada e delimitada pelo eschaton. Tampouco me parece de qualquer importância mais significativa que não adianta procurar uma escatologia concreta, ou seja, que elucide conceitos como a volta, ressurreição dos mortos, vida eterna etc. Obviamente não foi sua intenção escrever uma obra escatológica, mas apenas o prelúdio de uma e de sua ética correspondente. Minha própria preocupação está relacionada à forma unilateral pela qual você inclui toda a teologia na escatologia, indo além de Blumhardt, Overbeck e Schweitzer neste ponto. Sendo direto, será que sua teologia da esperança é realmente diferente do chamado princípio da esperança, de Bloch? (2) O que me incomoda é que, para você, a teologia acaba sendo uma simples questão de princípio (princípio escatológico). Você deve saber que eu também já quase caminhei nessa direção, mas acabei desistindo e sendo alvo da sua crítica no meu desenvolvimento posterior. Não seria mais sábio aceitar a doutrina da Trindade Imanente de Deus? Você poderá, dessa forma, alcançar a liberdade do pensamento tridimensional dos eschata e reter todo o seu peso e não apenas uma honra provisória que pode ainda ser mostrada aos reinos da natureza e da graça. Será que meus conceitos de tempo triplo [Dogmática Eclesiástica III, 2, §47.1) e parousia tripla de Jesus Cristo [Dogmática Eclesiástica IV, 3, §69.4) tiveram tão pouco impacto em você que você sequer os considerou criticamente? Mas a salvação não vem da Dogmática Eclesiástica (comecei aqui quando estava lendo seu livro), mas do conhecimento do “Deus das riquezas eternas”(3), com o qual eu pensava que deveria tratar (problematicamente o suficiente). Se me perdoa dizer assim, seu Deus parece mais um pobretão. Definitivamente, então, eu não consigo ver em você aquele filho da paz e da promessa. Mas por que você não deveria se tornar esse filho? Por que não tentar superar a unilateralidade inspirada dessa primeira tentativa em obras posteriores? Você tem o material (e te parabenizo por isto) para a construção de um grande dogmático que pode ajudar bastante a igreja e o mundo.

Diga à sua esposa que eu li, com grande interesse, o artigo escrito por ela sobre Fontane. (4) Apesar da minha bem conhecida desconfiança quanto à planície do Norte da Alemanha, sou grande admirador desse nobre prussiano e, vez por outra, leio suas obras novamente.

Saudações cordiais, e meus renovados agradecimentos, e com votos do melhor para o seu futuro,

KARL BARTH(5)
1. Na capa da primeira edição
2. E. Bloch, Das Prinzip Hoffnung, 3 vols. (Frankfurt/Main, 1954-1959).”
3. Cf. o Segundo verso de M. Rinckart’s (1586-1649) “Now Thank We All Our God” (em inglês: “this bounteous God”).
4. E. Moltmann-Wendel, “Hoffnung–jenseits von Glaube und Skepsis. Theodor Fortane und die bürgerliche Welt,” ThExh, N.F. 112 (1964).
5. Para a resposta de Moltmann (04 de abril de 1965), veja apêndice, 8.
~ Karl Barth, “Karl Barth: Cartas 1961-1968”, Carta #172

Carta de Jürgen Moltmann em resposta a Karl Barth
Para: Dear Dr. Barth, Bonn,
De: Jurgen Moltmann:
04 de abril de 1965

A carta longa, pessoal e cordial que o sr. escreveu do hospital acerca da minha obra Teologia da Esperança já chegou faz um tempinho e continua aqui, olhando para mim com cara de questionamento enquanto continuo no trabalho. Eu já teria agradecido e respondido há mais tempo, se tivesse conseguido encontrar a tranquilidade necessária para tanto. Mas só agora cheguei ao ponto de dizer o tanto que a carta mexeu comigo e ainda o faz. Só do meu esforço teológico fragmentado ter sido lido pelo sr. já me faz corar, bem como tudo aquilo que me foi escrito pelo sr., considerando que foi com tremor que eu me atrevi a enviá-lo para sua apreciação. Não posso negar uma certa preocupação inspirada com essa ideia escatológica ou messiânica. O sr. está coberto de razão em pensar que temos aqui apenas um prelúdio à escatologia. Aceito com gratidão sua menção a uma falta de escatologia concreta. Pretendo me dedicar, no futuro próximo, a meditar intensamente nos textos apocalípticos do Novo Testamento. No capítulo sobre as consequências éticas da esperança cristã, eu me detive deliberadamente em certo ponto para evitar a suspeita de que tudo que é dito sistematicamente até aquele ponto serve simplesmente para fazer uma certa crítica da igreja e da sociedade. Nas aulas sobre ética social que eu ministrei em Bonn, tentei avançar neste ponto em direção a um conceito teológico de trabalho, etc. Talvez isso seja publicado algum dia num livro sobre a prática da esperança. A essência da sua crítica me fez cogitar bastante, a saber, que, no lugar da escatologia, – para fugir um pouco da sua unilateralidade dominante – a doutrina da Trindade Imanente deveria funcionar como um cânon expositivo para a proclamação do senhorio de Jesus Cristo. Tenho que admitir que, ao estudar a Dogmática Eclesiástica, quase perdi o fôlego em alguns pontos. Desconfio que o sr. tenha razão mas não posso, por enquanto, ou dentro de pouco tempo, entrar nesse mérito. Amigos exegetas, a saber, Ernst Kaseman, têm me obrigado, primeiramente, a pensar escatologicamente na origem, decurso e futuro do senhorio de Cristo. Ao assim proceder, pensei que pudesse expor a Trindade Econômica que, em primeiro plano, e depois novamente em segundo plano, ela estaria aberta a uma Trindade Imanente. Ou seja, para mim, o Espírito Santo é primeiro o espírito da ressurreição dos mortos e então, como tal, a terceira pessoa da Trindade. Em épocas recentes, a doutrina do Espírito Santo veio a ter uma cara totalmente entusiástica e quiliástica. Joaquim [de Fiore] está mais vivo hoje do que Agostinho. Assim, alguns caracterizam o conhecimento direto como uma transcendência da fé e outros caracterizam a fé como uma transcendência do evento de Cristo. Embora uma escatologia cristologicamente alicerçada na cruz e na ressurreição de Jesus, creio eu, poderia ser inserida novamente na história em cujo eschaton Deus será tudo em todos, e assim poderiam ser todos mudados.

Desde que estudei em Gottingen com O. Weber e E. Wolf, a Dogmática Eclesiástica tem sido minha companheira de todas as horas. Longe de mim querer substituí-la por qualquer outra coisa. A partir deste castelo, eu simplesmente quis criar uma saída para as planícies onde há menos conflitos. Se ao fazê-lo eu desrespeitei um pouco a hierarquia e, em muitos pontos, acrescentei às críticas do autor às suas declarações mais antigas críticas às suas declarações posteriores, não foi querendo seguir caminhos diversos. A polêmica sempre faz da pessoa um pouco unilateral. Mas, conforme a minha impressão, a situação teológica e intelectual atual é tal que eu devo defender a verdade com polêmica e unilateralidade na esperança de que ela própria vai acabar vindo
à tona.

Ao sentar-me à minha mesa, a Dogmática Eclesiástica sempre olha para mim com uma pergunta. Muitas vezes eu, também, olho para ela com questionamentos. E poderia ser de outra forma? Isto para mim é um testemunho não só de paz, mas também de promessa, e por esta razão sou realmente grato.

Com saudações cordiais e meus melhores votos,
JURGEN MOLTMANN
~ Karl Barth, “Karl Barth: Cartas 1961-1968”, Apêndice #8

Comentário na autobiografia de Jürgen Moltmann sobre a carta de Karl Barth

Karl Barth leu a Teologia da Esperança juntamente com Eduard Thurneysen imediatamente após sua publicação. Em 08 de novembro de 1964, escreveu para um amigo de longa data que tinha achado o livro ‘estimulante e empolgante, porque o jovem autor se esforçou bastante na tentativa de interagir com o aspecto escatológico do evangelho melhor que o velho homem da Basileia fez no seu comentário de Romanos e na Dogmática Eclesiástica. Eu o li com a mente totalmente aberta, mas tenho reservas em segui-lo porque sua nova sistematização, embora muito possa ser dito em seu favor, é quase boa demais para ser verdadeira’. (Cartas 1961-64, 273). A mim, pessoalmente, ele escreveu mais criticamente, para que o jovem teólogo não ficasse “se achando”: ‘Expressando de forma mais bruta: acaso a sua Teologia da Esperança não seria uma versão cristianizada do Princípio da Esperança, de Bloch?’ Desconfio que ele, na verdade, nunca tinha lido uma linha de Bloch, de forma que a confissão que se segue é ainda mais importante: ‘Eu também já tive a intenção de caminhar nessa direção, mas preferi não mexer com isso’ (Cartas, 276). Só depois que eu fui puxar esse fio que Barth deixou solto sobre sua decisão tomada quando ainda jovem, e descobri sua predileção por Christoph Blumhardt, a quem ele visitou em Bad Boll, em 1915. Na sua obra Teologia Protestante no Século Dezenove (1947; ET 1972), ele se referiu a Blumhardt como um ‘teólogo da esperança’ (pág. 590 da edição alemã), e seu primeiro comentário de Romanos, de 1919, está repleto do espírito de esperança de Blumhardt. Em 1919, em um artigo sobre Friedrich Naumannn e Christoph Blurnhardt em The Beginnings of Dialectic Theology (1962; ET 1968; edição alemã vol. 1,37-49), ele colocou Naumann no ‘passado’ e Blumhardt no ‘futuro’ e exaltou a esperança de Blumhardt: ‘Esperança para a intervenção visível da soberania de Deus sobre o mundo, esperança de libertação da condição passada do mundo, esperança para toda a humanidade, esperança em Deus para o lado físico da vida… Blumhardt permanecerá vivo porque sua preocupação foi à vitória do futuro sobre o passado’ (edição alemã, 49). Uma teologia pode ser feita a partir disso? Em 1920, Barth ainda tinha em mente uma teologia radicalmente escatológica: ‘Uma teologia que queria se atrever a ser escatologia simplesmente não seria uma nova teologia; seria também um novo cristianismo, com certeza algo essencialmente novo, por si só já uma parte das “Últimas Coisas”, sobrepondo-se à Reforma e todos os outros movimentos “religiosos”.’ (Die Theologie und die Kirche, 1928, 25; cf. ET Theology and Church, 1962).
Barth provavelmente ‘decidiu não mexer com isso’ porque, no fim das contas, assim como Franz Overbeck, viu que essa teologia escatológica era radical demais, e porque, por outro lado, Blumhardt ainda estava muito preso à fé no progresso típica do século XIX. Em 1922 foi publicado o segundo comentário de Barth sobre Romanos, e eis que: Blumhardt foi agora substituído por Kierkegaard, e o paradoxo tempo-eternidade superou a dialética dinâmica do passado-futuro. A esperança dinâmica e futura de Blumhardt foi vítima do manto envolvente da eternidade no momento do tempo, e a incômoda expectativa de Blumhardt quanto ao futuro de Cristo foi substituída pelo contentamento da fé em um Deus eternamente generoso. A eternidade agora deve cercar o tempo de todos os lados — pré-temporalmente, contemporaneamente e pós-temporalmente — mas não deve ter quaisquer vínculos específicos com o futuro do Deus ‘que virá’. Minha obra Teologia da Esperança fez com que Barth se lembrasse do seu ponto fundamental de mudança no seu desenvolvimento teológico em 1920-21. Daí essa reação contraditória.
~ Jurgen Moltmann, “A Broad Place”, pgs. 109-111

Opinião de Karl Barth sobre Moltmann, revelada em carta a Richard Karwehl
Para: Pastor Richard Karwehl Osnabruck
De: Karl Barth
Basileia
08 de novembro de 1964

[..] Jurgen Moltmann, Teologia da Esperança, um livro ao mesmo tempo estimulante e empolgante, porque o jovem autor se esforçou bastante na tentativa de interagir com o aspecto escatológico do evangelho melhor que o velho homem da Basileia fez no seu comentário de Romanos e na Dogmática Eclesiástica. Eu o li com a mente totalmente aberta, mas tenho reservas em segui-lo porque sua nova sistematização, embora muito possa ser dito em seu favor, é quase boa demais para ser verdadeira. Mas vale a leitura. [..]
~ Karl Barth, “Karl Barth: Cartas 1961-1968”, Carta 171

Karl Barth elogia Moltmann em carta a Wolfhart Pannenberg
Para: Prof. Wolfhart Pannenberg
Mainz
De: Karl Barth
Basileia
07 de dezembro de 1964

[..] E queira notar, Dr. Pannenberg, eu li a obra – assim como, algumas semanas atrás, li a Teologia da Esperança, de Jürgen Moltmann – com a sincera curiosidade de talvez estar finalmente lidando com o filho da paz e da promessa cuja obra representaria uma alternativa genuinamente superior ao que eu mesmo venho tentando fazer na teologia nos últimos 45 anos. Já por bastante tempo tenho esperado por essa opção melhor, e só posso esperar que eu tenha a atenção e humildade suficiente para entendê-la e reconhecê-la como tal caso venha ela a cruzar o meu caminho. Mas em seu projeto, também, ainda não consegui vê-la, crendo, ao invés disso, que, por toda a originalidade com a qual você se empenhou e a executou, temos uma séria regressão a um modo de pensar que eu não posso considerar apropriado à questão e que estou, portanto, impossibilitado de adotar. [..]
~ Karl Barth, “Karl Barth: Cartas 1961-1968”, Carta 174

Karl Barth elogia o Capítulo 5 da obra Teologia da Esperança, de Moltmann, para Ernst Wolf
Para: Prof. Ernst Wolf Gottingen
De: Karl Barth
Basileia
23 de março de 1965

[..] vamos tratar do capítulo 5 da obra Teologia da Esperança, de Moltmann. Até aqui tenho achado esse livro um fruto interessante, mas ainda não maduro, ainda que bem melhor que a Cristologia, de Pannenberg. No momento, estou concentrado no segundo volume de Kasemann.[..]
~ Karl Barth, “Karl Barth: Cartas 1961-1968”, Carta 184

Karl Barth elogia as primeiras 100 páginas da obra Teologia da Esperança, de Moltmann, para Martin Vomel

Para: Pastor Martin Vomel
Frankfurt am Main
De: Karl Barth
Basileia
10 de agosto de 1966

Prezado Pastor,
As primeiras 50 a 100 páginas da obra Teologia da Esperança, de Moltmann, pareciam ser um ramo de oliveira, mas não depois desse ponto, porque sua esperança acaba virando apenas um princípio e, portanto, um vaso sem conteúdo. Mas a verdadeira pomba, talvez muitas pombas com os verdadeiros ramos de oliveira, hão de chegar um dia. Noé está esperando com paciência e, no momento, está bem antenado com o que está acontecendo com o Catolicismo Romano (Vaticano II). Não fique perturbado ou com medo.[..]

Agradeço também a um grande amigo que se dispos da traduzir.

Publicado originalmente em: http://postbarthian.com/…/karl-barths-letter-jurgen-moltma…/