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Profissionais da violência. Artigo de Eliane Brum

A reação de Mourão, o vice “faca na caveira” de Bolsonaro, aponta como o Brasil será governado em caso de vitória da chapa de extrema direita, escreve Eliane Brum, escritora, repórter e documentarista, em artigo publicado por El País, 10-09-2018.

Eis o artigo.

“Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”. A frase é do general Hamilton Mourão, candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL). Foi dita à revista Crusoé, após o ataque à faca contra o candidato na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, em 6 de setembro. É uma frase para se prestar toda atenção.

Abalado pela brutalidade do episódio, Mourão poderia ter escolhido pelo menos duas variações que mudariam a intenção: “os profissionais da segurança” ou “os profissionais da proteção”. Palavras como segurança e proteção levariam à ideia de amparo e de defesa — e não à ideia de ataque, de retaliação e de confronto. Mas não. Mourão usou um “nós”— e usou “profissionais da violência”. Ao ser perguntado quem era o “nós”, o general disse que se referia “aos militares e ao uso da força pelo Estado”.

Mourão declarou ainda: “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”. No mesmo dia, o presidente do PSL, Gustavo Bebianno, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo: “A guerra está declarada”.

É bastante revelador que um general da reserva, hoje político e candidato, se considere no direito de falar em nome do Estado, em plena campanha eleitoral para se tornar governo. A declaração de Mourão mostra que ele acredita falar pelos militares, como se os representasse e os comandasse. E como se os militares fossem uma força autônoma, uma espécie de milícia de Bolsonaro e de Mourão. E não o que a Constituição determina: uma instituição do Estado, paga com recursos públicos, subordinada ao presidente da República.

Ao fazer essa declaração, Mourão trata as Forças Armadas como se fossem a sua gangue e o país como se fosse a sua caserna. Alguém machucou o meu amigo? Vou ali chamar a minha turma para descer o cacete. E faz isso na condição de político e de candidato, como se o processo democrático fosse apenas uma burocracia pela qual é preciso passar, mas que pode ser atropelada caso se torne inconveniente demais.

Mais tarde, Mourão baixaria o tom, segundo ele a pedido do próprio Jair Bolsonaro. Uma orientação curiosa para um candidato que divulgou uma foto sua na cama do hospital fazendo com as mãos o sinal de atirar. No dia seguinte à agressão, durante entrevista à Globo News, o vice de Bolsonaro afirmou que, em caso hipotético de “anarquia”, pode haver um “autogolpe” do presidente, com o apoio das Forças Armadas.

Ao comentar a convocação à violência por ele e outras pessoas da campanha, Mourãoafirmou: “Realmente subiu um pouco o tom (no início), mas temos que baixar, porque não é caso de guerra”. Disse ainda que, se forem eleitos, vão “governar para todos, e não apenas para pequenos grupos”.

As declarações do vice de Bolsonaro no primeiro momento dão pelo menos duas informações sobre ele que vale a pena registrar. Mourão decide baixar o tom depois de elevar (muito) o tom. Poderia se pensar se é esse tipo de reação passional que se espera de um general, uma pessoa numa posição de comando ocupando o posto máximo da hierarquia do Exército, cujas ordens podem afetar milhares de vidas humanas. Pela trajetória de Mourão, a dificuldade de agir com racionalidade em momentos de tensão não parece ter afetado a sua carreira.

Neste momento, porém, Mourão é um político e candidato a vice-presidente. Diante da crise, representada pela agressão a Bolsonaro, aquele que quer ser vice-presidente do Brasil explode, confunde o seu lugar e o lugar das Forças Armadas, e bota gasolina na fogueira que deveria conter. E deveria conter não apenas por ser candidato, mas por responsabilidade de cidadão.

É importante que Mourão tenha finalmente entendido que não se trata de uma guerra e tenha parado de encontrar inimigos entre as faces da população. Mas as declarações irresponsáveis já produziram um efeito cujas consequências são difíceis de prever. Como ele mesmo lembrou, “há um velho ditado que diz: as palavras, quando saem da boca, não voltam mais”.

O que Mourão faria com poder real diante das tantas crises que esperam um governante? Como governará essa dupla, caso eleita, um que invoca mais violência em palavras e outro que, recém operado após sofrer uma agressão, faz sinal de atirar? Como governarão, com sua lógica de guerra, na qual o inimigo não é outro exército, mas a parte da população que discorda deles?

A segunda informação que emerge das declarações é a rapidez e a leviandade com que Mourão julga e condena. De imediato ele responsabilizou o PT pela agressão à faca. Não havia — e não há — um único indício de que o autor da facada tenha qualquer ligação com o PT ou faça parte de um plano do partido. Adelio Bispo de Oliveira afirma ter agido sozinho e “a mando de Deus”. Declarar publicamente uma “fake news” ou mentira, num momento de tanta gravidade para o país, também pode ter consequências imprevisíveis. Não adianta voltar atrás depois de ter afirmado uma mentira como “certeza” justamente na hora em que os ânimos estavam mais acirrados.

É importante observar como esse protagonista se comporta diante da crise, já que governar um país é lidar com várias crises todos os dias. Se sem poder de governo ele encontra culpados, para além do culpado que já está preso, e invoca publicamente a violência como reação imediata, o que fará caso tenha poder de governo e a possibilidade de convocar o que Mourão chama de “profissionais da violência” e a Constituição chama de “Forças Armadas”? Se, quando precisam convencer eleitores de que são a melhor escolha, os homens de Bolsonaro invocam a guerra dentro do próprio país, o que farão quando já não precisarem convencer ninguém?

É importante observar que não conseguem refrear seus instintos nas horas mais duras, mas também é importante acreditar no que dizem quando não são capazes de se conter. Tanto Bolsonaro quanto Mourão têm se esforçado para mostrar que são “profissionais da violência”. Ao pregarem que a população deve se armar, como se esta fosse a melhor estratégia para enfrentar a questão da segurança, é assim que se apresentam.

As declarações contra as mulherescontra os negros, contra os indígenas e contra os LGBTs também são um exercício da violência que revela uma visão de mundo e a fortalece entre aqueles que dela comungam. Semanas atrás, Mourão chamou os negrosde malandros e os indígenas de indolentes. Desta afirmação que saiu da sua boca ele não se arrepende. Como disse Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do candidato: “Tem que botar um cara faca na caveira para ser vice”. Botaram.

No dia seguinte ao atentado, quando segundo ele mesmo o tom deveria baixar, o vice de Bolsonaro enalteceu o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar (1964-85). “Os heróis matam”, justificou ele na TV.

Sempre vale lembrar ao menos um episódio entre as tantas mortes e torturas ordenadas ou executadas pelo “herói” de Bolsonaro e de Mourão. O torturador Ustra levou os filhos de Amélia Teles, presa nos porões do regime, para que vissem a mãe torturada. Amelinha, como é mais conhecida, estava nua, vomitada e urinada. Seus filhos tinham quatro e cinco anos. A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. A mãe estava azul por causa dos choques elétricos infligidos em várias partes do seu corpo e também nos seios e na vagina. Este é o farol de Bolsonaro e Mourão, em primeiro lugar nas pesquisas para a presidência do Brasil, o que diz bastante também sobre os eleitores.

Armar-se é uma das principais plataformas da campanha de Bolsonaro-Mourão, o capitão da reserva e o general da reserva. E é preciso levá-los a sério. Não só porque Bolsonaro e Mourão lideram as intenções de voto, mas porque é legítimo que os eleitores queiram votar em “profissionais da violência” para governar o Brasil. É possível discordar de quem aposta em “profissionais da violência”, mas o direito de escolher uma pessoa que invoca a violência é legítimo numa democracia.

Há muita gente clamando por “civilização” contra o que nomeiam de “barbárie” que atravessa o Brasil, às vésperas de uma eleição em que o candidato em primeiro lugarnas pesquisas está na prisão e é proibido pelo judiciário de se candidatar e o candidato em segundo lugar leva um facada durante um evento de campanha e precisa passar por uma cirurgia.

Mas o que chamamos de civilização tem sido sustentado pela barbárie cotidiana contra os negros e os indígenas. A civilização sempre foi para poucos. A novidade que uma chapa Bolsonaro-Mourão apresenta é a suspensão de qualquer ilusão. Não é por acaso que alicerçam sua prática antiga, tão velha quanto o Brasil, nas redes sociais, o espaço onde toda a possibilidade de mediação foi rompida e os bandos se fecham em si mesmos, rosnando para todos os outros.

A barbárie dos “profissionais da violência” sempre sustentou a civilização de uns poucos. O que Bolsonaro e Mourão dizem, como “profissionais da violência” que são, é que já não é preciso fazer de conta. Neste sentido, rompem o mesmo limite que a internet rompeu, ao tornar possível que tudo fosse dito. E também ao dar um valor ao dizer tudo, mesmo que este tudo seja o que nunca deveria poder ser dito, já que é necessário um pacto mínimo para a convivência coletiva e o compartilhamento do espaço público.

Ao representar a velha boçalidade do mal expressada na novidade das redes, Bolsonaro-Mourão são os representantes mais atuais deste momento. Eles sabem que a guerra não existe no Brasil. O que sempre existiu foi o massacre. São os mesmos de sempre que continuam morrendo, como os camponeses de Anapu nas mãos dos pistoleiros da grilagem e as crianças das comunidades do Rio em cujas cabeças as balas explodem.

Ao inventarem uma guerra para encobrir o massacre, Bolsonaro e Mourão inventam também a ideia de que as armas serão iguais e acessíveis para todos, bastando para isso o “mérito” de passar em eventuais testes e o “mérito” de ser capaz de pagar pelas melhores. Conheceremos então o discurso da meritocracia aplicado às armas.

Bolsonaro e Mourão sabem muito bem que não haverá igualdade ao armar a população. Se Bolsonaro, o “profissional da violência”, teve alguma sorte na tragédia, é a de que Adélio Bispo de Oliveira era um amador e era pobre. Ele tinha apenas uma faca e nenhum plano para depois. Se ele fosse um “profissional da violência” como Mourão, Bolsonaro não teria tido a chance de fazer o gesto de atirar na cama do hospital, depois de ser salvo pelo SUS, sistema público de saúde que ele não se esforça para defender.

Marielle Franco, a vereadora do Rio pelo PSOL, não teve esta sorte. Seus assassinosarrebentaram sua cabeça com arma de alto calibre e uso restrito e até hoje, seis meses depois, não se conhece nem a identidade do executor nem a do mandante. Negra, lésbica e favelada, Marielle está no lado dos que morrem e cujas mortes permanecem impunesMarielle está no lado dos massacrados, não dos que massacram.

Mas não é sorte o que Bolsonaro teve ao ser atacado por um amador. Tanto ele quanto Mourão sabem o que dizem quando reivindicam serem “os profissionais da violência”. Eles são. Resta saber se a verdade da maioria dos brasileiros é também esta: a de desejar profissionais da violência comandando o país onde vivem.

Se a maioria dos brasileiros mostrar nas urnas que quer esse tipo de político no poder, então é isso que escolheram. Faz parte do processo democrático que as pessoas se responsabilizem por suas escolhas e as consequências que delas resultam. Se você chama “profissionais da violência” para comandar o país onde você e sua família vivem, você deve saber o que terá.

Suécia. Extrema direita avança e deve fazer parte de novo governo

Os Democratas Suecos, um partido xenófobo, anti-imigração e contrário à União Europeia, obteve 17,6% dos votos e se tornou a terceira maior força política do país.

A informação é publicada por O Estado de S. Paulo, 10-09-2018.

A primeira eleição na Suécia após a entrada em massa de imigrantes no país nos últimos anos terminou com o partido de extrema direita e xenófobo, Democratas Suecos (DS), como a terceira principal força política do país. O partido conseguiu votações expressivas também em regiões com alta concentração de imigrantes. O resultado histórico obriga os outros partidos a negociar com o DS para formar um governo.

Na prática, a política na Suécia estará à beira de um impasse. Neste domingo, 9, ao menos 7,5 milhões de eleitores, do total de 10,1 milhões de habitantes, compareceram às urnas para escolher os novos integrantes do Parlamento, o Riksdag, com 349 assentos.

Os partidos de centro-esquerda, a maior força política da Suécia nos últimos 100 anos, obtiveram 40,6% dos votos, o que representa 144 assentos. Os de centro-direita ficaram com 40,2%, também 143 assentos. O DS teve 17,6% dos votos, o que garantirá 62 assentos. Com isso, ninguém conseguirá os 175 assentos para conseguir maioria, e precisará formar alianças.

Em vários distritos suecos o DS ficou em segundo lugar, em alguns obteve até maioria. Em regiões do país com alta concentração de imigrantes, principalmente no sul, o partido chegou a obter 30% dos votos, como em Malmo e Uppsala.

Ascensão da extrema direita

O partido se beneficiou da crescente aversão dos suecos à presença de estrangeiros. A Suécia tem 1,7 milhão de imigrantes. Desde 20158, foi o país europeu que mais recebeu imigrantes em relação ao total da população.

Apesar de sucessivas negativas da maioria dos partidos de negociar com o DS, os resultados inviabilizam a composição de um governo sem a participação dos Democratas Suecos. “É possível que os Verdes, ou um pequeno bloco de conservadores, aceite formar o governo, mas o impasse é o cenário mais provável”, afirmou neste domingo, 9, ao jornal britânico The Guardian o cientista político Stigbjörn Ljunggren. Segundo analistas, o mais provável é que a centro-direita aceite fazer uma aliança com os Democratas Suecos para formar um governo.

Neste domingo, 9, o líder do partido Moderados, a tradicional centro-direita da Suécia, disse que está preparado para formar um novo governo, e que o atual primeiro-ministro, Stefan Lofven, dos social-democratas, deveria renunciar. “Haverá uma aliança de oposição de quatro partidos no parlamento, e o bloco da direita é claramente o maior”, afirmou Ulf Kristersson, líder dos moderados.

A rápida ascensão do partido nos últimos dez anos, saindo de 4% das cadeiras em 2010 para os quase 18% atuais está diretamente associada ao carisma de seu jovem líder, Jimmie Akesson. Aos 39 anos, na política desde os 19. Em 1994 ele entrou para o Democratas Suecos e assumiu as rédeas do partido em 1999. “Os que não são democratas não podem ser do Democratas da Suécia”, disse.

Ele deu uma roupagem mais moderada ao DS, abrandando a xenofobia explícita e o racismo e expulsando seus membros mais extremistas. O partido trocou de logo, de uma tocha acesa para uma anêmona azul, uma das flores favoritas da Suécia, que prenuncia a primavera. O Democratas Suecos não abandonou seu slogan tradicional, “Mantenha a Suécia Sueca”, mas o minimizou em prol de “Segurança e Tradição”.

“Aumentamos nossos assentos no parlamento e vamos ganhar uma enorme influência sobre o que acontecerá na Suécia pelos próximos anos”, disse Akesson no domingo, 9, aos partidários. Ele afirmou em uma reunião do partido que estava preparado para conversar e cooperar com os outros partidos para garantir “ganhos reais” para seus nacionalistas anti-imigração. “Ninguém poderá tirar esta vitória de nós.”

Para lembrar

Uma onda de partidos de extrema direita tem conseguido votações expressivas na Europa. Os nacionalistas e xenófobos ganharam eleições na Polônia, Áustria, Hungria e na Itália, e conseguiram espaço na Holanda, Dinamarca e Noruega. Na Alemanha, o recém-criado “Alemanha para os Alemães” conseguiu a terceira maior bancada do Parlamento.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/582597-extrema-direita-avanca-na-suecia-e-deve-fazer-parte-de-novo-governo

“O livre comércio somente pode ser chamado justo quando está em conformidade com as exigências da justiça social”. Trabalho, dinheiro, migrantes. Entrevista com o Papa Francisco

“A ética amiga das pessoas tende para a superação da rígida distinção entre entidades dedicadas ao lucro e aquelas orientadas não apenas para o mecanismo exclusivo do lucro, deixando um amplo espaço para empreendimentos que constituem e expandem o chamado terceiro setor. Estes, sem diminuir a importância e a utilidade econômica e social das formas históricas e consolidadas de negócios, fazem com que o sistema evolua para uma assunção mais clara e completa de responsabilidade por parte dos sujeitos econômicos. De fato, é a própria diversidade de formas institucionais de empresa que gera um mercado que é mais civil e ao mesmo tempo mais competitivo”, afirma o Papa Francisco em entrevista de Guido Gentili, publicada por Il Sole 24 Ore, 07-09-2018, publicada em italiano e em inglês. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Segundo Francisco, “a esperança é como as brasas sob as cinzas, ajudemo-nos uns aos outros com solidariedade, soprando as cinzas. Esperança, que não é mero otimismo, nos leva adiante. Todos nós temos que apoiar a esperança, ela é nossa, é algo que pertence a todos, por isso digo muitas vezes também aos jovens, não deixem ninguém roubar a sua esperança. Temos que ser astutos, porque o Senhor nos faz entender que os ídolos são mais astutos do que nós e nos convida a ter a astúcia da serpente com a inocência da pomba”.

“A esperança não é uma virtude para as pessoas de estômagos cheios – constata o Papa –  e, por essa razão, os pobres são os primeiros portadores de esperança e são os protagonistas da história”.

Eis a entrevista.

Sua Santidade, um velho provérbio africano diz: “Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se você quiser ir longe, vá junto”. Todos sabemos quão rápido podemos correr, graças às novas ferramentas de inovação tecnológica, na comunicação – também entre pessoas – e na economia. Mas as profundas crises que ocorreram, juntamente com uma incerteza duradoura e generalizada, parecem ter diminuído e obscurecido nossos horizontes. O governo britânico até criou um ministério para lidar com a “solidão”. Você, pessoalmente, adotaria o provérbio?

Este provérbio expressa uma verdade: o indivíduo pode ser bom, mas o crescimento é sempre o resultado do compromisso de todos para o bem da comunidade. De fato, habilidades individuais não podem se materializar fora de um ambiente comunitário favorável, uma vez que você não pode pensar que o resultado final seja simplesmente a soma de habilidades individuais. Digo isto não para rebaixar os indivíduos ou deixar de reconhecer os talentos de cada pessoa, mas para nos ajudar a não esquecer que ninguém pode viver isolado ou independente dos outros. A vida social não é composta pela soma da individualidade, mas pelo crescimento de um povo.

Como pode-se ser “inclusivo”?

Ver a humanidade como uma família única é a primeira maneira de ser inclusivo. Somos chamados a viver juntos e dar espaço para receber a colaboração de todos. Se olharmos à nossa volta com o coração aberto, não podemos deixar de perceber as muitas e preciosas histórias de apoio, proximidade, atenção, atos voluntários, que nos permitem entender em primeira mão que a solidariedade se estende cada vez mais. Se a comunidade em que vivemos é nossa família, evitar a competição para abraçar a ajuda recíproca se torna mais simples. Como o que ocorre nas famílias a que pertencemos, onde o crescimento real, o tipo que não cria pessoas excluídas e descartáveis, é o resultado das relações sustentadas pela ternura e pela misericórdia, não pelo anseio de sucesso e a exclusão estratégica de quem mora ao nosso lado. A ciência, a tecnologia e o progresso tecnológico podem realizar ações mais rapidamente, mas o coração é exclusivo da pessoa para acrescentar um suplemento de amor nos relacionamentos e nas instituições.

Não ter um projeto compartilhado sobre a redução das desigualdades em um sistema que é cada vez mais globalizado pode levar ao que você chama de “economia do descarte”, onde as próprias pessoas se tornam “descartáveis”. No documento mais recente (“Oeconomicae et pecuniariae quaestiones – Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico”), a Santa Sé afirmou que “a economia precisa de uma ética amiga das pessoas para funcionar corretamente”. Você pode explicar este ponto para nós?

Primeiro de tudo, um esclarecimento sobre a ideia de descartáveis. Como escrevi na Evangelii Gaudium: isso não é simplesmente o fenômeno conhecido como um ato de exploração e opressão, mas um fenômeno verdadeiramente novo. Com a ação da exclusão, atacamos a própria raiz dos laços de pertencimento à sociedade à qual pertencemos, pois com isto não somos apenas relegados aos porões da existência, nas periferias, não somos apenas privados de qualquer poder, em vez disso, somos jogados fora. A pessoa excluída não é explorada, mas é completamente rejeitada, isto é, considerada lixo, sobras e, assim, expulsa da sociedade. Não podemos ignorar o fato de que uma economia estruturada dessa maneira mata, porque coloca o dinheiro no centro e obedece apenas ao dinheiro: quando a pessoa não está mais no centro, quando ganhar dinheiro se torna o objetivo primário e único, estamos fora da ética e estruturas de pobreza, escravidão e descarte são criados.

Isso significa que estamos em um contexto de valores que é inimigo das pessoas?

Temos uma ética que não é amiga das pessoas quando, quase com indiferença, não somos capazes de dar ouvidos e sentir compaixão diante do grito de dor dos outros, não derramamos lágrimas diante das tragédias que consomem a vida de nossos irmãos, nem cuidamos deles, como se eles não fossem também nossa responsabilidade, fora de nossas competências. A ética amiga das pessoas se torna um forte incentivo para a conversão. Nós precisamos de conversão. Falta consciência de uma origem comum, de pertencer a uma raiz comum da humanidade e de um futuro para construir juntos. Esta consciência básica permitiria o desenvolvimento de novas convicções, novas atitudes e estilos de vida. A ética amiga das pessoas tende para a superação da rígida distinção entre entidades dedicadas ao lucro e aquelas orientadas não apenas para o mecanismo exclusivo do lucro, deixando um amplo espaço para empreendimentos que constituem e expandem o chamado terceiro setor. Estes, sem diminuir a importância e a utilidade econômica e social das formas históricas e consolidadas de negócios, fazem com que o sistema evolua para uma assunção mais clara e completa de responsabilidade por parte dos sujeitos econômicos. De fato, é a própria diversidade de formas institucionais de empresa que gera um mercado que é mais civil e ao mesmo tempo mais competitivo.

No mesmo documento em que a mensagem é clara sobre por que a atividade financeira deve servir à economia real, e não vice-versa, o que se destaca é o chamado às escolas, onde os gestores e chefes de indústria do futuro são educados, para torná-los conscientes de que os modelos econômicos que só perseguem resultados quantitativos não serão capazes de manter o desenvolvimento e a paz ao longo do tempo. Isso significa que os gerentes devem ser treinados, e em seguida julgados, também com base em parâmetros diferentes dos atuais? Quais?

Parece-me importante observar que nenhuma atividade acontece por acaso ou de forma autônoma. Por trás de toda atividade existe um ser humano. Essa pessoa pode permanecer anônima, mas não existe atividade que não se origine no homem. A atual centralidade da atividade financeira em relação à economia real não é casual: por trás disso há a escolha de alguém que pensa, erroneamente, que o dinheiro é feito com dinheiro. O dinheiro, o tipo real, é feito com trabalho. É o trabalho que confere dignidade ao homem, não o dinheiro. O desemprego que está afetando vários países europeus é a consequência de um sistema econômico que não é mais capaz de criar trabalho, porque colocou um ídolo em seu centro, que é chamado de dinheiro. E acrescento, pensando nos trabalhadores que conheci na Sardenha: a esperança é como as brasas sob as cinzas, ajudemo-nos uns aos outros com solidariedade, soprando as cinzas. Esperança, que não é mero otimismo, nos leva adiante. Todos nós temos que apoiar a esperança, ela é nossa, é algo que pertence a todos, por isso digo muitas vezes também aos jovens, não deixem ninguém roubar a sua esperança. Temos que ser astutos, porque o Senhor nos faz entender que os ídolos são mais astutos do que nós e nos convida a ter a astúcia da serpente com a inocência da pomba.

Astúcia e inocência para lutar contra o ídolo do dinheiro? Como fazer isso?

No momento existe um ídolo no centro do nosso sistema econômico, e isso não é bom: vamos todos lutar juntos para que a família e as pessoas estejam no centro, e possamos seguir adiante sem perder a esperança. Distribuição e participação na riqueza produzida, inserção da empresa na região, responsabilidade social, bem-estar da empresa, igualdade salarial entre homens e mulheres, harmonia entre tempo de trabalho e tempo para a vida, respeito ao meio ambiente, reconhecimento da importância do homem comparado às máquinas, o reconhecimento de um salário justo e a capacidade de inovação são elementos importantes que mantêm viva a dimensão comunitária de uma empresa. A busca pelo desenvolvimento integral requer atenção aos temas que acabei de listar.

O que é bom para uma empresa?

A forma como uma empresa é considerada tem uma forte influência nas escolhas organizacionais, produtivas e distributivas. Você pode dizer que agir bem, respeitando a dignidade das pessoas e perseguindo o bem comum, é bom para uma empresa. Há sempre uma correlação entre a ação do homem e os negócios, a ação do homem e o futuro de um negócio. O que me vem à mente é o Beato Paulo VI, que terei a alegria de proclamar santo em 14 de outubro, que na encíclica Populorum progressio escreveu que o desenvolvimento “não pode se restringir apenas ao crescimento econômico. Para ser autêntico, deve ser integral; deve fomentar o desenvolvimento de cada homem e de todo o homem. Como um eminente especialista nesta questão disse corretamente: “Não podemos permitir que a economia seja separada das realidades humanas, nem o desenvolvimento da civilização em que ela ocorre. O que conta para nós é o homem – cada homem individual, cada grupo humano e a humanidade como um todo”.”

O recente documento de análise do Vaticano sobre o sistema econômico ao qual já me referi observou, acima de tudo, como “os mercados, como poderosos propulsores da economia, não são capazes de se governar. De fato, os mercados não sabem como fazer suposições que permitam o bom funcionamento (coexistência social, honestidade, confiança, segurança, leis, etc.) nem como corrigir os efeitos e forças prejudiciais à sociedade humana (desigualdade, assimetrias, danos ambientais, insegurança social e fraude)”. Isso significa que a economia não é suficiente e, de alguma forma, precisa ser “salva”? Quais são, na sua opinião, os limites “justos” do lucro?

A atividade econômica não se refere apenas ao lucro, mas também inclui relacionamentos e significados. O mundo econômico, se não for reduzido a uma questão puramente técnica, não contém apenas o conhecimento do como (representado pelas habilidades), mas também do porquê (representado por significados). Uma economia saudável, portanto, nunca é desvinculada do significado do que produz e a ação econômica é sempre também um fato ético. Ao manter juntos ações e responsabilidade, justiça e lucro, produção de riqueza e sua redistribuição, funcionamento e respeito ao meio ambiente, tornam-se elementos que ao longo do tempo garantem a vida da empresa. Deste ponto de vista, o significado da empresa se amplia e deixa claro que a busca somente de lucro não garante mais a vida da empresa.

Além dessas questões ligadas mais diretamente à empresa, temos que nos deixar questionar pelo que nos cerca. Não é mais possível que os operadores econômicos não escutem os gritos dos pobres. Mais uma vez Paulo VI – e quero citá-lo plenamente aqui por sua importância – afirmou no Populorum progressio que “o princípio do livre comércio, por si só, não é mais adequado para regular os acordos internacionais. Suas vantagens são certamente evidentes quando as partes contratantes se encontram em condições de poder econômico que não são muito díspares: então, é um incentivo para o progresso e a compensação pelo esforço alcançado. Isso explica, portanto, como os países industrialmente desenvolvidos tendem a ver uma lei de justiça nisso. Isso muda, no entanto, quando as condições se tornaram muito desiguais de país para país: preços que se formam ‘livremente’ no mercado podem, então, levar a resultados injustos. É útil reconhecer isso: é o princípio fundamental do liberalismo como uma regra da troca comercial que é questionada aqui. O ensinamento de Leão XIII na ‘Rerum novarum’ se mantém válido: o consenso das duas partes, se estiverem em desigualdade excessiva, não é suficiente para garantir a justiça do contrato, e a lei de livre consentimento permanece subordinada às demandas da lei natural. O que era verdade em relação ao salário individual justo”, escreveu meu venerado predecessor Paulo VI, “também é verdadeiro em relação aos contratos internacionais: as relações comerciais não podem mais se basear apenas no princípio da livre concorrência descontrolada, pois muitas vezes isso cria uma ditadura econômica. O livre comércio pode ser chamado justo apenas quando está em conformidade com as exigências da justiça social”.

Il Sole 24 Ore – como a Radio 24 e a agência de notícias Radiocorplus – é o jornal da Confindustria, a organização dos empregadores italianos que representa 160.000 empresas, a grande maioria das quais pequenas e médias empresas. Os industriais italianos estão lutando por uma sociedade aberta e inclusiva. O que é necessário, na sua opinião, para garantir que um líder de negócios seja um “criador” de valor para sua empresa e para outras, a partir da comunidade em que vivem e trabalham? Ao ler os Evangelhos, nota-se que Jesus demonstra grande simpatia por empreendedores que assumem um risco (se você pensar na Parábola dos Talentos).

Lembro-me da reunião que tive com a Confindustria em fevereiro de 2016. Lembro-me de muitos rostos, atrás dos quais estavam a paixão e os projetos, o esforço e o talento. Eu disse que considero a atenção para a pessoa real muito importante, o que significa dar a cada pessoa o devido, afastando mães e pais da angústia de não serem capazes de dar um futuro e nem mesmo um presente para seus próprios filhos. Significa saber administrar, mas também saber escutar, compartilhar projetos e ideias com humildade e confiança. Significa garantir que o trabalho crie mais trabalho, a responsabilidade crie outras responsabilidades, a esperança crie outras esperanças, sobretudo para as gerações jovens, que hoje precisam mais do que nunca. Acredito que é importante trabalhar em conjunto para construir o bem comum e um novo humanismo no trabalho, promover um trabalho que respeite a dignidade da pessoa, que não procure apenas as necessidades lucrativas ou produtivas, mas promova uma vida digna, sabendo que o bem das pessoas e o bem da companhia andam de mãos dadas. Vamos nos ajudar mutuamente a desenvolver a solidariedade e criar uma nova ordem econômica que não gere mais descarte, enriquecendo a ação econômica com atenção voltada aos pobres e a redução das desigualdades. Nós estamos precisando de coragem e gênio criativo.

Quando falta, o trabalho torna-se uma emergência intolerável, tanto pessoal quanto social. Não obstante, o trabalho é frequentemente percebido como uma espécie de sentença diária, uma rotina insuportável. Você pode apontar, por exemplo, duas razões pelas quais não é, ou pelo menos não deva ser, e as maneiras pelas quais as empresas podem se esforçar para garantir que não seja assim, com isso contribuindo também para o sucesso das próprias empresas e a prosperidade da sociedade?

A ideia de que o trabalho é apenas tensão é bastante difundida, mas todo mundo sabe que não ter um emprego é muito pior do que trabalhar. Quantas vezes enxuguei lágrimas de desespero de pais e mães que não têm mais trabalho! O trabalho faz o bem, porque está ligado à dignidade da pessoa, à sua capacidade de assumir responsabilidade por si e pelos outros. É melhor trabalhar do que viver ocioso. O trabalho traz satisfação, cria as condições para a visão pessoal. Ganhar o pão é uma razão saudável para o orgulho; com certeza também traz esforço, mas nos ajuda a manter um saudável senso de realidade e nos ensina a encarar a vida. As pessoas que se sustentam e à sua família através do seu próprio trabalho desenvolvem a sua dignidade: o trabalho cria dignidade. Os benefícios, quando não ligados ao objetivo claro de retomar o trabalho e o emprego, criam dependência e privam as pessoas da responsabilidade. Além disso, o trabalho tem um alto significado espiritual, pois é a maneira pela qual damos continuidade à criação, respeitando-a e cuidando dela.

Qual contribuição você pede às empresas?

As empresas podem oferecer uma forte contribuição para garantir que o trabalho mantenha sua dignidade, reconhecendo que o homem é o recurso mais importante de toda empresa, trabalhando para a construção do bem comum, prestando atenção aos pobres. Eu sei que, em muitas empresas, o espaço justo é dado ao treinamento. Estou convencido de que seria uma grande vantagem para uma empresa complementar o ensino técnico com treinamento em valores – solidariedade, ética, justiça, dignidade, sustentabilidade – significados são conteúdos que enriquecem o pensamento e a capacidade operacional.

De alguma forma, o mundo globalizado tornou-se pequeno. Neste momento, chegamos aos limites do que você chama de nosso lar comum, que é o planeta Terra, a tal ponto que estão sendo feitos planos para colonizar outros planetas. A ecologia e um mundo sustentável são uma grande preocupação sua e os grandes atores internacionais do setor de energia, começando pela italiana Eni, anunciaram revoluções “verdes”. Você acredita que está sendo feito o suficiente nesta frente?

Ainda há muito a fazer para reduzir comportamentos e escolhas que não respeitem o meio ambiente e a Terra. Estamos pagando o preço de uma exploração da Terra que durou muitos anos. Hoje em dia também, infelizmente, em muitas situações, o homem não é o protetor da Terra, mas um explorador tirânico. Há sinais, no entanto, de uma nova atenção para o meio ambiente; é uma mentalidade que gradualmente está sendo compartilhada por um número crescente de países. Este é um processo que requer atenção particular, porque é necessário passar de uma descrição de sintomas para o reconhecimento da raiz humana da crise ecológica, da atenção ao meio ambiente para uma ecologia integral, de uma ideia de onipotência para uma consciência da escassez de recursos. O ponto-chave é que falar do ambiente sempre significa também falar de homem: a degradação ambiental e a degradação humana andam de mãos dadas. Na verdade, muitas vezes apenas os pobres que são obrigados a pagar pelas consequências da violação da criação. O desenvolvimento da dimensão ecológica requer a convergência de várias ações: políticas, culturais, sociais e produtivas. Em particular, a formação de uma nova consciência ecológica precisa de novos estilos de vida para construir um futuro harmonioso, promover o desenvolvimento integral, reduzir as desigualdades, descobrir o elo entre as criaturas e abandonar o consumismo.

Isso significa que há necessidade de mudar o modelo de produção?

Como escrevi na encíclica Laudato si’, esses problemas estão intimamente ligados à cultura do descarte, que atinge os seres humanos que são excluídos tanto quanto as coisas que rapidamente se transformam em lixo. Pensemos, por exemplo, no nosso sistema industrial, que no final do ciclo de produção e consumo não desenvolveu a capacidade de absorver e reaproveitar resíduos e restos. Ainda não conseguimos adotar um modelo de produção que garanta recursos para todos e para as gerações futuras, e isso requer limitar o máximo possível o uso de recursos não-renováveis, moderar o consumo, maximizar a eficiência energética, reutilizar e reciclar. Enfrentar essa questão seria uma maneira de enfrentar a cultura do descarte, que acaba prejudicando todo o planeta. Temos que admitir que ainda há muito trabalho a ser feito nessa direção.

Entre os “descartáveis” da Terra estão os migrantes que se deslocam de um continente para o outro, fugindo de guerras ou em busca de condições para viver e sobreviver. Em um período da história que vê fronteiras (também fronteiras comerciais) fechando e o nacionalismo prevalecendo em uma Europa cansada e dividida, você não se sente um pouco como um Moisés contemporâneo que abre o caminho, abre as portas para todos os povos e pessoas, começando pelos mais pobres? Há quem pense que esta não é a missão do Sucessor de Pedro. Por que, por outro lado, você acredita que é? E o que esta Europa precisa para redescobrir uma rota comum em conjunto para responder aos receios dos seus cidadãos?

Hoje em dia, os migrantes representam um grande desafio para todos. As pessoas pobres que se deslocam assustam especialmente as comunidades prósperas. No entanto, um futuro pacífico para a humanidade não existe senão no acolhimento da diversidade, da solidariedade, no pensamento da humanidade como uma única família. É natural que um cristão reconheça Jesus em todas as pessoas. O próprio Cristo convida-nos a acolher nossos irmãos e irmãs migrantes e refugiados de braços abertos, talvez participando da iniciativa que lancei em setembro do ano passado: Share the Journey [Compartilhe a Jornada, em tradução livre]. A jornada, de fato, é feita por dois: os que vêm à nossa terra e nós, que vamos em direção ao coração deles, para entendê-los, entender sua cultura, sua língua, sem ignorar o contexto atual. Este seria um sinal claro de um mundo e de uma Igreja que tenta ser aberta, inclusiva e acolhedora; a Igreja se torna uma mãe que abraça a todos na partilha de uma jornada comum. Não esqueçamos, como eu já disse anteriormente, que a esperança é a motivação no coração de quem deixa o seu lar, terra, por vezes família e parentes, para procurar uma vida melhor, mais digna para si e para aqueles que amam… a esperança é a motivação para “compartilhar a jornada” da vida, não tenhamos medo de compartilhar a jornada! Não tenhamos medo de compartilhar a esperança. A esperança não é uma virtude para as pessoas de estômagos cheios e, por essa razão, os pobres são os primeiros portadores de esperança e são os protagonistas da história.

Mas como a Europa deve agir na prática?

Europa precisa de esperança e de futuro. A abertura, impulsionada pelo vento da esperança, para os novos desafios colocados pela migração pode ajudar na construção de um mundo em que não falemos apenas de números ou instituições, mas também de pessoas. Entre os migrantes, como você disse, há pessoas procurando “condições de viver ou sobreviver”. Para essas pessoas que estão fugindo da miséria e da fome, muitos líderes empresariais e muitas instituições europeias, as quais não faltam talento e coragem, poderiam realizar redes de investimento, em seus países, na educação, da escola ao desenvolvimento de verdadeiros sistemas culturais, e acima de tudo no trabalho. Investimento no trabalho que significa acompanhar a aquisição de competências e o início de um desenvolvimento que pode se tornar um trunfo para os países que ainda hoje são pobres, dando a dignidade do trabalho a essas pessoas e ao país a capacidade de tecer vínculos sociais positivos capazes de construir sociedades justas e democráticas.

O Vaticano está na Itália e você é o bispo de Roma. Mas o povo italiano mostrou ampla aprovação para as forças políticas definidas como “populistas” que não concordam com a abertura das portas do país aos migrantes. Como você está vivendo essa divergência entre ovelhas e pastores?

As respostas aos pedidos de ajuda, mesmo que generosas, talvez não fossem suficientes, e hoje nos vemos chorando pelos milhares de mortos. Houve muitos silêncios. O silêncio do senso comum, o silêncio do “sempre fizemos assim”; o silêncio dos “nós sempre contrapostos a eles”. O Senhor promete alívio e libertação a todos os oprimidos do mundo, mas ele precisa que façamos sua promessa efetiva. Ele precisa de nossos olhos para ver as necessidades de nossos irmãos e irmãs. Ele precisa de nossas mãos para fornecer ajuda. Ele precisa da nossa voz para condenar as injustiças cometidas no silêncio, às vezes cúmplice, de muitos.

Acima de tudo, o Senhor precisa do nosso coração para mostrar o amor misericordioso de Deus para o último, o rejeitado, o abandonado, o marginalizado.

De que maneira podemos criar uma rede de integração capaz de superar medos e preocupações, que são reais?

Não devemos deixar de ser testemunhas da esperança. Vamos ampliar nossos horizontes sem sermos consumidos pela presente preocupação. Assim como é necessário que os migrantes sejam respeitosos com a cultura e as leis do país que os acolhe, de modo a implementar conjuntamente uma rede de integração e superar todos os medos e preocupações. Confio estas responsabilidades também à prudência dos governos, para que encontrem maneiras compartilhadas de dar uma recepção digna a muitos irmãos e irmãs que imploram por ajuda. Um certo número de pessoas pode ser recebido, sem excluir a possibilidade de integrá-las e estabelecê-las de maneira digna. É necessário prestar atenção ao tráfico ilegal, ciente de que o acolhimento não é fácil. Aqui lembro-me do que escrevi este ano na mensagem do Dia Global da Paz: quatro marcos para a ação, que adoro expressar através dos verbos “acolher, proteger, promover e integrar”, e sublinho que 2018 levará à definição e aprovação, por parte das Nações Unidas, de dois pactos globais: um para a migração segura, ordenada e legal, o outro para os refugiados. Estes são pactos que servirão de referência para propostas políticas e medidas práticas. Por esta razão, é importante que os nossos projetos e propostas sejam inspirados pela compaixão, visão e coragem, a fim de aproveitar todas as oportunidades para avançar na construção da paz: este é o único caminho para o necessário realismo da política internacional evitar render-se ao desinteresse e à globalização da indiferença.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/582571-trabalho-dinheiro-europa-migrantes-uma-entrevista-com-o-papa-francisco

“Esfaqueou, querem que eu faça o quê?” Atentado a Bolsonaro é o ápice insano da polarização. Artigo de Rosana Pinheiro-Machado

Atiçar a polarização me parece a atitude mais irresponsável nesta nova era do salve-se quem puder, escreve Rosana Pinheiro-Machado, professora Titular Visitante da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM no PPG de Ciências Sociais e e coordenadora e co-fundadora da Escola de Governo Comum, em artigo publicado por The Intercept, 07-09-2018.

Eis o artigo.

A imagem é simbólica: deitado com o peito descoberto, Bolsonaro é operado às pressas depois de levar uma facada na região do abdômen enquanto era carregado nos ombros por uma multidão apaixonada. Tudo transmitido nas redes sociais em tempo real.

O evento é dramático por não ser um caso da violência isolada, mas representar o caos em que estamos nesse momento pré-eleições. São tempos de messianismo. Na figuração do mito, Bolsonaro encarna a figura de um herói carregado pelo povo que é covardemente atingido. O agressor alega que agiu em nome de Deus. Vivemos o ápice insano da polarização.

Para analisar os eventos em perspectiva histórica, vale lembrar o momento mais crítico da China moderna, no final do século 19, quando o país estava dividido em guardas ‘brancas’ e ‘vermelhas’. Rebeliões diárias e fanáticos de todos os lados se diziam enviados de Jesus Cristo. E o resultado nós sabemos bem: o país só conseguiu cessar essa violência organizada com outra violência organizada e institucionalizada, um autoritarismo que durou décadas e visava curar as feridas do chamado “período das humilhações”.

Os tiros contra a caravana de Lula e posteriormente contra militantes durante a vigília em frente à sede da Polícia Federal de Curitiba já mostravam que adentramos em uma era perigosa de violência messiânica, individualizada, cada um salvando o mundo com pode. Ativistas da campanha de Guilherme Boulos, do PSOL, também foram atacados recentemente. É uma eleição no meio de um faroeste.

Fazendo trabalho de campo sobre o eleitores de Bolsonaro há quase dois anos, posso afirmar que muitos deles, que vestem camisa do candidato ou usam adesivo em carros, têm sido agredidos verbalmente e fisicamente, todos os dias. Há mais tempo, o mesmo ocorre, ou pior, com aqueles que vestem vermelho. Os meios progressistas apenas relatam violência como uma força unilateral concentrada em demônios que eles conseguem culpar. Em tempos de caos, o autoritarismo messiânico, pulverizado e desordenado está espalhado por todo o tecido social.

Brasil que mata em massa mulheres, jovens negros, pobres e LGBTs nunca foi um país democrático por excelência, e o Estado sempre funcionou para poucos. Seria ingênuo falar que estamos numa crise da democracia. Esse nível messiânico e insano é o estopim de uma ordem autoritária, que se deixa levar pelas paixões calorosas de candidatos salvadores e do fanatismo religioso que por séculos esteve camuflada sob o ideal da harmonia. A história está repleta de exemplos que nos mostram os tristes desfechos políticos desse tipo de conjuntura.

Qual é o apelo de Bolsonaro nisso? Ele é o agressor e o agredido. Recebe a mesma violência que propaga. Mas é preciso ter prudência em como pontuar esse debate – em nada adianta usar esse argumento em tom revanchista, em guerras de narrativas inócuas. Pouco serve adentrar em brigas vazias que apontam o dedo. Esse revanchismo punitivista apenas gera mais raiva e alimenta o ciclo de violência que, há muito, já saiu das redes. Os doidos que rosnam no Facebook agora estão às soltas.

É parte de meu ofício, há 19 meses, acompanhar grupos de WhatsApp de eleitores de Bolsonaro e de eleitores mistos (Bolsonaro, anti-Bolsonaro e indecisos). Até antes do atentado, grupos de jovens conseguiram manter as regras de diálogo. No momento do evento, eleitores contrários ao candidato começaram a debochar: “pena que não acertou o desgraçado”. Depois disso – o debate aconteceu por horas –, os “bolsominions” reagiram com muitas ofensas, dizendo que quem desejava a morte de outra pessoa tinha que levar porrada. Os indecisos ficaram comovidos e chocados com as brincadeiras de que o agressor era incompetente. Um falou “se querem matar o cara, é porque ele incomoda”.

A piada “que pena que não acertou” circula por todos os lados, com a frase “ah, mas to só brincando…”. Mas quando os haters de direita fizeram essa brincadeira com Lula, a esquerda, com razão, não gostou.

Sem Lula, Bolsonaro está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Se ele é um candidato autoritário, violento e que faz apologia à tortura – e se é a esquerda que denuncia um golpe de estado neste país, nossa arma só pode ser a luta por democracia, e não por revanchismo ingênuo. Se Bolsonaro disse sobre o Museu Nacional “queimou querem que eu faça o quê?”, a resposta “esfaqueou, querem que eu faça o quê?” vai na mesma fragilidade narrativa.

Não se trata aqui de relativizar – e colocar em falsa simetria – a extrema-direita e a esquerda. Pelo contrário. Mas é preciso encarar os fatos para combater o candidato fascista. Eu queria que Bolsonaro não existisse. Mas eu não queria que ele fosse assassinado. A diferença entre uma coisa e outra é imensa. Ele existe. E nós precisamos lidar com a realidade e não fugir dela.

Os presidenciáveis manifestaram repúdio. Essa é a única postura aceitável neste momento trágico. De histeria de rede social já basta a culpabilização do PT por tudo o que ocorre neste país. Não foi suficiente tirar Dilma Rousseff do poder, parece que é preciso culpar o partido por toda a desgraça que ocorre: do Museu Nacional ao ataque a Bolsonaro.

Bolsonaro e suas seitas são o nosso mais bem acabado protótipo fascista, do fracasso democrático e da violência estrutural do Brasil. Esse atentado traz o imenso risco de torná-lo herói, reforçar a narrativa mítica daquele que sobrevive e que volta para salvar o Brasil contra tudo e contra todos. Um messiânico que renasceu da apunhalada de outro messiânico. “Agora é guerra”, disse o presidente do PSL. Um prato cheio para aqueles que vivem da expectativa do simbolismo do sangue, da tortura e da violência. Atiçar a polarização me parece a atitude mais irresponsável nesta nova era do salve-se quem puder.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/582575-esfaqueou-querem-que-eu-faca-o-que-atentado-a-bolsonaro-e-o-apice-insano-da-polarizacao-artigo-de-rosana-pinheiro-machado

‘A falta de prestígio da História é histórica no Brasil’. Entrevista com a historiadora Mary del Priore

A falta de interesse pela preservação da memória no Brasil, explícita no incêndio que atingiu o Museu Nacional na noite do domingo 2, é uma característica histórica e cultural da sociedade brasileira.

A analise é da historiadora, pesquisadora e professora Mary del Priore, que lista, entre tanto motivos, a falta de investimentos das autoridades públicas na manutenção e valorização do patrimônio, os maus professores de histórias que não transmitem a paixão sobre o passado para seus alunos, os pais que preferem levar seus filhos ao shopping e não a um museu.

A responsabilidade, diz a professora, é de toda a sociedade, que agora se sensibiliza ao ver um patrimônio depredado. “Todos nós temos que jogar as cinzas do Museu na nossa cabeça. Foi culpa nossa”, disse à CartaCapital nesta segunda-feira.

“Nunca foi valorizado no Brasil o nosso passado, a nossa memória, a disciplina histórica. As faculdades de história, por exemplo, só começam no País no século XX. A falta de prestígio da história é histórica”, afirma.

O edifício que abriga o Museu Nacional e mais de 20 milhões de itens, agora carbonizados, foi palco de momentos cruciais na história do País. Para citar apenas dois, nele foi assinada a declaração da Independência do Brasil e, mais tarde, abrigou a reunião dos republicanos que definiram a primeira Constituição, de 1891. O lugar também guardam as histórias do dia-a-dia de dom João VI, Pedro I e Pedro II.

A entrevista é de Marina Gama Cubas, publicada por CartaCapital, 03-09-2018.

Eis a entrevista.

Qual a dimensão do incêndio do Museu Nacional na sociedade?

Venho batendo muito tempo nessa falta de total interesse pela preservação da memória, que não é uma característica do Rio, é do Brasil todo. A gente está cansado de saber que em Minas Gerais, por exemplo, destroem casarões do século XVIII para fazer estacionamento, fazer supermercado. Mas no Rio de Janeiro eu diria que isso é mais grave, porque obviamente temos uma política feita por canalhas, por ladrões. Se você imaginar que foi gasto fortunas para fazer o Museu do Amanhã quando havia necessidade de restaurar uma série de salas do Museu Nacional, aí você tem uma dimensão de que a preservação dos bens privados é sempre melhor do que dos públicos.

Nós tivemos antecedentes: o incêndio do MAM [em 1978], que ficou na história; o incêndio da Capela Imperial, que não faz tanto tempo assim. Além disso, temos outros edifícios de patrimônio, como a Santa Casa de Misericórdia, que é um dos edifícios mais antigos da cidade e está totalmente abandonado. A primeira igreja positivista do Brasil, que está sem telhado…

Enfim, é a história do descaso não só das autoridades que preferem meter a mão do bolso para roubar, mas sobretudo do cidadão que passa em frente a um monumento, vê o monumento pichado e não se sensibiliza; de roubarem o busto de bronze da praça e não se sensibilizar; de pais que levam os filhos para o shopping no final de semana em vez de fazer uma visita ao Museu. De professores de História – e falo como professora que eu sou – que não transmitem na sala de aula a paixão pela História, pelo passado, pela memória. Tudo isso faz um combustível bastante ruim. Não temos como alimentar a nossa paixão pelo passado.

Qual era a importância histórica do edifício que abrigava o Museu Nacional? 

O caso do Museu Nacional é dramático porque ele é um lugar de memória da história do Império brasileiro. Ele é dado como presente do dia 1º de janeiro de 1819 pelo comerciante Elias Antonio Lopes a dom João, que na época é regente. Mas ele não faz isso gratuitamente. Antonio Lopes, depois, vai receber uma série de títulos: se torna moço-fidalgo da Casa Real, alcaide-mor, também recebe dinheiro.

A partir daí esse espaço vai ter uma função importantíssima. É ali que dom João VI vai receber seus súditos, vai se aproximar de seus súditos brasileiros. Eles vão lá no beija-mão, pedir favores, conhecer aquele que depois será o futuro monarca quando ele ainda é regente. As primeiras transformações arquitetônicas vão sendo feitas também para o casamento do dom Pedro com a Leopoldina, que vai ter nove filhos. É o local onde ela morreu. Na janela desse palácio que dom Pedro vai olhar a casa da marquesa de Santos e vigiar sua amante. É nessa casa que ele vai mandar construir um chafariz enorme, que fosse visto da sala de jantar e também de seus aposentos.

As maiores reformas são feitas em 1866 pelo dom Pedro II. Ele vai reformar os jardins e fazer uma alameda de sapucaia. Também vai repartir o lago em dois para dar um acesso mais imperial, fazendo uma estrada para os políticos que agora se reúnem com o imperador, na casa dele. É nesses jardins que brincaram a princesa Isabel e a princesa Leopoldina, no mesmo lugar que brincaram suas tias, a princesa Francisca, as princesas Paula e Januária, catando conchas e fazendo, com cacos de louça, a ornamentação do chamado Jardins das Princesas.

Por tudo isso, é um espaço que não só tem muito da grande história – porque ali que vai ser assinada a declaração da Independência e depois, mais tarde, a reunião dos republicanos para definirem nossa primeira Constituição de 1891 -, mas também é o lugar da pequena história. Isso que é bacana.

Com o incêndio, também perdemos uma loucura de patrimônio. Inclusive o patrimônio que a Dona Tereza Cristina, quando casou com o imperador Dom Pedro II, trouxe que foram os famosos afrescos do Templo de Ísis, que são comentados até por Lord Byron em sua poesia.

É possível identificar os responsáveis neste momento?

Acho fácil a gente achar culpados. Espero realmente um laudo para poder dizer o que aconteceu. Dizer que a culpa é do governo federal e que a Cultura sangra no Brasil é fácil, porque não há dinheiro nem para a Saúde, nem para a Segurança. Para trazer dinheiro para a Cultura é preciso fazer reformas, e ninguém quer fazer reformas.

Atribuir [a culpa] só as autoridades é muito fácil. Eu conheço muito diretores de museus, todos eles se matam de trabalhar para conseguir verbas. Há um desinteresse profundo da sociedade civil, mesmo das pessoas que podem, e estou falando aqui nos empresários… Tirando a Fundação Roberto Marinho e o Carlos Lessa, quando presidiu o BNDES, a gente nunca viu dinheiro ser dado para patrimônio.

Nos países civilizados você pode contribuir para o museu com um centavo se você quiser para restauração de um quadro, para a restauração de uma sala. Aqui no Brasil falta a participação da comunidade, da vizinhança, das organizações não-governamentais e digo: dos professores, dos historiadores de todos nós, do cidadão comum.

A culpa é de todos?

Eu acho. Todos nós temos que jogar as cinzas do Museu na nossa cabeça. Foi culpa nossa.

O Museu está sob os cuidados da esfera federal.

Ministério da Cultura não tem dinheiro e só terá dinheiro se forem feitas as reformas neste País. E antes da Cultura, vem a saúde dos brasileiros que é muito mais importante, obviamente também a questão da segurança. Para nós termos recursos do governo federal é preciso gastar…

Ainda que não se saiba as causas que provocaram o incêndio, era um caso de fazer como o que foi feito no Museu do Ipiranga, em São Paulo? Fechar as portas para reforma?

Sim. E até de chamar a comunidade para participar da restauração com doações, com movimentos. Sem dúvida, teria sido uma solução. A questão toda é que o Museu Nacional recebe uma infinidade. Ele tem toda parte de ciências naturais dentro do museu e ele tem milhares de pesquisadores que fazem tese em suas dependências.

Você fez críticas ao ensino de História na escolas. O que poderia ser feito para melhorar?

O professor tem que transmitir compaixão à matéria que ele está lecionando. A Históriaé uma matéria que necessita uma forma narrativa, um entusiasmo, passeios e visitas a museus e locais históricos. É preciso transmitir esse amor pela História aos alunos.

Eu digo sempre: o mau professor de história vai fazer um cidadão descomprometido, um cidadão inconsciente. É preciso que o professor de história tenha a consciência também do papel que ele tem na transmissão do conhecimento. Cabe a cada um ser criativo. Vamos inventar maneiras de transmitir o conhecimento histórico de forma séria, porém apaixonado.

Acredita que o incêndio pode ser um divisor de águas nessas questões?

Não acho que seja um divisor de águas. O brasileiro precisa ter mais consideração pelo seu passado, mais respeito pelo seu passado. Infelizmente a televisão transformam os personagens históricos em caricatura, isso também não ajuda. Mas eu acho que isso tem que vir realmente de baixo, não de cima. Porque só de cima e com dinheiro não vai resolver o problema, os museus vão continuar vazios. É preciso que as pessoas entendam que é indo ao museu que elas vão adquirir a cidadania, a memória, a história, o passado, valorizar o seu país. É muito importante que isso venha de baixo.

A que se deve essa desvalorização da memória no País?

Sempre houve [essa desvalorização]. Nos anos 40, Gilberto Freyre e José Marianofizeram uma campanha enorme para que houvesse a preservação da memória no momento em estava ocorrendo uma grande renovação em muitos bairros das grandes capitais brasileiras. Naquela ocasião começava-se a substituir bairros inteiros de casas e moradias antigas. Muitos bairros coloniais no Rio de Janeiro, Salvador e Recife foram sendo transformados em bairros de cimento, em um edifício colado ao outro.

Eu, particularmente, acho que o brasileiro gosta do novo pelo novo. Eles querem sempre o novo. Então o velho tem que ser banido, tem que ser jogado fora, tem que ser destruído. Nunca foi valorizado no Brasil o nosso passado, a nossa memória, a disciplina histórica. As faculdades de história, por exemplo, só começam no País no século XX. A falta de prestígio da história é histórica.

É um aspecto cultura?

Sim, e econômico. O Brasil sempre foi um país paupérrimo e a essas de classe subalterna, entre ter uma casa antiga e que tivesse que ser preservada e dava muito trabalho, e uma casa nova, preferiam a última opção. A gente pode pensar nisso, no conforto, na chegada da água, da eletricidade e nessas transformações tecnológicas todas que fizeram com que essas pessoas que não tinham educação privilegiar o novo pelo novo.

É possível mudar essa característica cultural do brasileiro?

Todos nós somos criaturas de cultura, homens e mulheres, e a cultura é uma coisa transformável, não é fixa. Então eu acredito que é possível transformar com muita educação.