“A pós-verdade é o último golpe de misericórdia dado à nossa razão ocidental”, diz José González Faus

“Há uma outra forma de acesso à realidade que tem a ver não com o Logos (razão ou palavra) grego, mas com o Debar hebraico, que traduzimos também como palavra, mas que tem o sentido de entrega e ação”, escreve José Ignacio González Faus, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 15-05-2017. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Essa pós-verdade que está na moda, é menos nova do que parece: Kant já ensinou que o nosso conhecimento não acede à realidade; mas o disse com palavrões tão difíceis (como noúmeno e “Anschauungsvermögen”) que quase ninguém tomou conhecimento. Também Nietzsche falou da não-verdade como condição de vida e de que a tarefa do filósofo é “criar valores”. Depois, o poeta nos disse que “nada é verdade nem mentira”, que “as coisas são da cor dos óculos com que se olha”.

E não apenas a cor: agora vem a física quântica e nos diz que as coisas deixam de ser o que são quando as observamos ou nos aproximamos delas. Ou seja, que filosofia, poesia e ciência estão muito próximas.

Significa isso que, ao acabar-se a verdade não há outro absoluto senão a “minha opinião” (nem mesmo “minha verdade”, como diria Machado)? Parece que sim, vista essa forma de comportamento que se transformou em pauta quase universal: em nome da liberdade de expressão tenho o direito de dizer que você é um filho da puta (sobretudo se você é cristão); e se, por isso, você me chama de mal educado ou recorrer ao juiz, pedirei que anulem a sua demanda porque “incita ao ódio”…

Pode a pós-verdade justificar este tipo de comportamento? Penso que não. A pós-verdade é, na verdade, o último golpe de misericórdia dado à nossa razão ocidental, e pode significar a morte do logos grego com o qual o homem acreditava aproximar-se e apreender a realidade.

Significa isso que ficamos cegos? João da Cruz diria que não: isso quer dizer apenas que ficamos “na noite”; mas ainda podemos caminhar com “outra luz e guia” que arde no coração. Ou seja: talvez haja outra aproximação ao real diferente do ser e mais importante que esta.

Há quase dois séculos, H. Lotze cunhou uma frase famosa: “os valores não são, valem”. Lembro o quanto essa frase irritava o meu professor de Metafísica: “como pode valer algo que não é nada?” Mas, talvez, Lotze queria dizer outra coisa: que temos mais acesso ao valer dos valores que ao ser das coisas, e nosso melhor acesso à realidade é mais valoral que ontológico.

Essa outra forma de acesso ao real não é grega, mas bíblica. O vocábulo grego que traduzimos como verdade (aletheia) significa etimologicamente desnudamento, desvelamento. Ao passo que a palavra hebraica (emeth) significa veracidade, autenticidade, lealdade. Essa diferença de perspectiva tem muito a ver com o acesso ao real: se alguém desnuda ou possui uma mulher à força, o normal é que ela não se entregue. Se, ao contrário, é ela que se desnuda livremente, então haverá entrega.

Isso tem muito a ver com a questão da pós-verdade: a forma ocidental de conhecimento tem algo de violação; ao contrário, em hebraico, um significado primário do verbo conhecer é a relação sexual: só um judeu (Marc Alain Ouaknin) pôde escrever um livro intitulado Elogio da carícia, que não é um tratado de relações amorosas, mas… uma teoria do conhecimento!

Tudo isso necessitará mais de dois matizes e distinções, porque é evidente que a razão grega deu origem à técnica, à qual tanto devemos, embora também seja inegável que a tecnocracia é hoje um dos nossos fatores mais desumanizadores e, além disso, se está sobrecarregando o Planeta a passos de gigante.

Mas, postos esses matizes, segue em pé uma conclusão decisiva: há uma outra forma de acesso à realidade que tem a ver não com o Logos (razão ou palavra) grego, mas com o Debar hebraico, que traduzimos também como palavra, mas que tem o sentido de entrega e ação. Quando o prólogo do quarto Evangelho quer definir o que nos foi dado por Jesus Cristo, chama-o de “a verdade como dom gratuito” (charis kai aletheia, de acordo com a tradução do meu colega O. Tuñi). E nesse Evangelho, que fala tanto da verdade (“a verdade vos libertará” etc.), verdade significa propriamente o amor de Deus revelado em Cristo.

Aqui encontra o seu lugar a famosa tese de Karl Marx: “Até agora os filósofos interpretaram o mundo; a questão é transformá-lo”. O que, novamente, precisará de alguma nuance, pois não é possível transformar sem uma mínima interpretação, sob pena de que, em vez de transformar, estraguemos mais ainda; mas, é válido como crítica da opressora razão ocidental. Por isso, me encanta, em castelhano e catalão, o uso da palavra “bem” como superlativo: dizer que algo é “bem grande” ou bem bonito tem um matiz qualitativo carinhoso, diferente do mero ser “muito grande”, que soa apenas quantitativo.

Também se compreende a partir daqui a tese de Simone Weil: não haverá um mundo respeitoso com os direitos humanos, enquanto não houver uma Declaração dos Deveres Humanos. Podemos intitulá-la melhor: Declaração dos Caminhos (ou dos Valores) Humanos. Mas, sem ela, os direitos humanos continuarão a ser o que são quase sempre hoje: uma arma para exigir dos outros como quero que me tratem, mas não uma orientação de como eu devo tratá-los. E desaparecerá aquela famosa frase, centro do espírito democrático: “abomino o que está dizendo; mas daria a minha vida para que continue a dizê-lo”…

Por isso, não seria ruim que, após criticar tanto uma particular “homofobia”, começássemos a denunciar toda heterofobia.

Obs.: Ao meu ver esta última frase deixa um campo de interpretação diverso, o que seria o denuncio de uma heterofobia? Se é que tal seja possível.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/567668-a-pos-verdade-e-o-ultimo-golpe-de-misericordia-dado-a-nossa-razao-ocidental-diz-jose-gonzalez-faus

“A esquerda está viciada em seu próprio conforto”

Professora do departamento de Estudos Políticos da UniRio, Clarisse Gurgel faz a chamada “crítica pela esquerda” dos partidos e dos movimentos organizados hoje no Brasil. Para Gurgel, formada em Artes Cênicas e doutora em Ciência Política pela UERJ, essas organizações centram suas forças em eventos performáticos, como passeatas, manifestações e atos, deixando em segundo plano o trabalho de formação política em sua base.

A entrevista é de Tory Oliveira, publicada por CartaCapital, 09-05-2017.

Ao tomar de empréstimo termos da psicanálise e do teatro, ela identifica também uma grande dificuldade desses setores em aceitar críticas. “A esquerda precisa ser mais humilde e acolher a diversidade de métodos e de formas de pensar. Hoje, ela está viciada no próprio conforto e qualquer sujeito que a critique é expurgado”.

Na entrevista a seguir, ela analisa o modus operandi da esquerda hoje, o legado de junho de 2013 e a greve geral de 28 de abril.

Eis a entrevista.

No artigo “Ação performática: sintoma de uma crise política”, você apresenta a ideia que a ação performática está sendo usada como tática preferencial da esquerda hoje no Brasil. O que é ação performática? Como ela se manifesta nos dias de hoje?

O termo vem do teatro e da ideia de performance teatral. A performance tem esse caráter de simular algo extraordinário, fora do cotidiano. É uma ação efêmera, pouco ensaiada, que ocupa o espaço público também de uma forma pouco usual ou regular.

A ideia de me apropriar do teatro para descrever como a esquerda atua era uma tentativa de me apropriar do tempo e do espaço dessa forma especial de teatralização, dessa forma específica de fazer política hoje.

Que forma de fazer política é essa?

Em resumo, é você simular que está sendo espontâneo e atuar de forma efêmera, ou seja, sem continuidade. É priorizar eventos, como atos, marchas, passeatas, abraços a monumentos etc. O centro no evento é tão grande que a esquerda cai na própria armadilha de, por exemplo, ocupar um espaço e depois não saber sair dele. E, ao sair, acabar derrotada ou desgastada.
A ação da esquerda hoje não tem muitos desdobramentos, é concentrada no tempo presente. O curioso disso é que essa tentativa de simular uma espontaneidade é, na verdade, uma tentativa de fugir de um estigma que associa a esquerda ao autoritarismo, ao stalinismo, ao burocratismo. Tentando fugir desse estigma, o diagnóstico que eu faço é que a esquerda acaba por reforçá-lo.

Como assim?

Essa tentativa de fugir do estigma do burocratismo faz com que a esquerda priorize a política como evento. Só que, assim, ela mesma se burocratiza mais, porque deixa de dedicar o seu tempo a um trabalho continuado de formação política, de propaganda e de agitação e passa a se concentrar única e exclusivamente a organizar o evento, descolando-se ainda mais de suas bases sociais.
Esse estigma vem, em especial, do stalinismo. O stalinismo é um fenômeno que merece mais atenção, porque, muitas vezes, ele é resumido a um processo de burocratização. Mas a leitura que se fazia do stalinismo como um fenômeno de excesso de burocracia e de uma rigidez muito grande por parte do partido bolchevique gerou uma reação que eu identificaria em dois fenômenos.

Quais?

Um é a rejeição à própria forma de organização em partido. A outra é uma preponderância das bandeiras identitárias. Acho que a gente vive esse reflexo até hoje: a rejeição ao partido e a preponderância das pautas identitárias como contraponto a categorias mais universalizantes, como a própria categoria de classe.

Então, em face disso, o que acontece é um movimento, em especial, que tem como vanguarda o movimento trotskista, que vai vir na contramão desse diagnóstico da burocratização. O trotskismo tem como bandeira o combate à burocracia do partido e em especial o burocracismo. A burocracia é um mecanismo de segurança de qualquer organização coletiva, mas o burocratismo, a exacerbação da burocracia passa a ser alvo do trotiskismo.

Em especial, nas décadas de 80 e 90 para cá, o trotskismo passa a ser a corrente hegemônica no campo da esquerda no mundo, em especial, naqueles partidos que tem referencial no bolchevismo. Esse trotskismo vem acompanhado de um receio, um certo constrangimento, e eu aponto até para um aspecto meio patológico da rejeição a sua própria forma, a forma partido. Num sujeito coletivo, a rejeição a sua própria forma gera consequências graves.

Quais são elas?

A rejeição a sua própria forma, que eu aponto nas legendas revolucionárias ou contra-hegemônicas, leva o partido a atuar de uma forma que parece lembrar esses fenômenos identificados pela psicanálise de infligir em si mesmo certos ferimentos. Isso marca uma presença, você se sente existindo e, ao mesmo tempo, produz o efeito de chamar atenção para si.

Mas há outra forma de repetição que se chama na teoria psicanalista de “acting out”. O acting out é uma forma de repetição em que o sujeito finge agir espontaneamente, mas está repetindo algo que ele já fez, na tentativa de que aquele que lhe negou a escuta, o ouça dessa vez.

E esse que lhe nega a escuta eu identifico como a grande mídia, que não deixa de ser um grande outro.

Pode dar um exemplo?

Há um exemplo muito interessante: um ato em apoio aos iraquianos na época da ocupação americana no país, em 2003. Na ocasião, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush foi até o Iraque e um jornalista arremessou um sapato em sua direção.

No Rio de Janeiro, foi organizado um ato em apoio aos iraquianos em frente à embaixada americana. E, para o ato, se organizou uma atividade em que os militantes jogariam sapatos na embaixada. É interessante porque era para mostrar que aquilo era espontâneo, fruto do acirramento dos ânimos dos manifestantes, mas os próprios manifestantes levaram um par extra de sapatos para jogar – e aqueles que estavam efetivamente com os ânimos acirrados e pegaram carona naquele preparativo, quiseram jogar seus próprios sapatos nas vidraças da embaixada.

Nesse momento, os organizadores disseram no microfone para os militantes não jogarem na fachada, mas do lado, porque tinha sido combinado com os policiais que não haveria danos ao patrimônio.

Esse é uma ilustração perfeita do que é a tentativa de entrar em uma pauta midiática sem criar danos reais, na perspectiva de ser bem narrado – e descolado completamente dos anseios efetivos daqueles que estavam dispostos a demonstrar apoio aos iraquianos.

É um caso exemplar de “acting out”, porque é um sujeito repetindo um ato, na tentativa de ser ouvido.

O problema é que, quando você procura se desimplicar do próprio ato, na expectativa que o outro lhe dê sentido, você fica muito refém do outro. E a grande mídia não é companheira na hora de narrar os atos da esquerda, em especial da esquerda contra-hegemônica.

É possível identificar isso em 2013, quando houve grandes atos com a presença da mídia

Sem dúvida. Acho que 2013 é o ovo da serpente de 2017. O que vivemos em 2013 foi uma experiência estritamente de agitação, que é você ir para a rua e denunciar. Quando você resume a prática política à mera agitação, sem um conteúdo que signifique propagar e enraizar esse discurso no imaginário, o que acontece é que aqueles que estão mais organizados e tem mais estrutura, pegam carona e imprimem à agitação o sentido que querem.

Como isso aconteceu em 2013?

O ato começou com um movimento que tinha uma bandeira clara, contra o aumento da tarifa de ônibus. Era um movimento de uma vanguarda de jovens, que, mesmo rejeitando os partidos, era satélite deles, e que se reivindicavam autônomos e horizontais.

Aquele ano começa com a expressão disso e com os partidos pegando carona ali, tentando levar para o movimento estudantil e a classe trabalhadora as repercussões da organização desses movimentos sem estrutura. Com a aproximação dos partidos, começam as tensões, que são herdeiras disso que ainda temos dívida, em relação a elaborar a respeito, que é essa herança do stalinismo. Então, os conflitos internos à esquerda começam a surgir, dos partidos sem estrutura e os partidos que começam a circundar a vanguarda da esquerda.

Paralelo a isso, os setores conservadores começam também a ocupar as ruas e pegar carona também no movimento, entendendo, e a direita cada vez mais entende, que ela precisa recuperar – curiosamente – o repertório da esquerda.

Ela começa a recuperar, não é nem fazer uso, é recuperar o repertório da esquerda. A palavra de ordem “vá para a rua” quem propaga é a direita e, sem dúvida, como fruto de uma ausência de quadros na direita. Setores conservadores vão para as ruas na perspectiva de deslocar o espaço da política para a rua, para fazer dali um terreno fértil em que surja um quadro (que até agora efetivamente não surgiu).

De lá para cá, o que temos é um processo de acirramento efetivo dos ânimos, quase como um clima de pânico generalizado e fantasioso por parte da direita e classe média que começa a perder espaço em face da crise econômica. Esse atores ocupam as ruas e vão dando volume para qualquer palavra de ordem ou “significante mestre”, para usar um termo em voga.

O que é isso?

Significante mestre é qualquer som que tenha o efeito de uma mãe dizer a uma criança: “é porque é”. Isso é significante mestre. A criança pergunta o porquê e você responde “porque sim”. O significante mestre tem esse poder. Em meio a uma multidão volumosa, aqueles que têm recursos, como a FIESP, por exemplo, têm plenas condições de colar ali o significante mestre que quiser. Por exemplo, bordões do antipetismo ou dizer que o Brasil vai virar Cuba.

E com isso a luta pela tarifa de ônibus fica para trás.

Sim. Hoje vivemos o reflexo de 2013: uma conjuntura em que tem uma massa de trabalhadores que não se espelham em nada e uma esquerda perdeu um aspecto que era uma marca dela, que é a disciplina e a organização. Nesse contexto, qual é o melhor quadro político hoje?

É essa figura que não espelha ninguém e se revela um indisciplinado por excelência. Ou seja, aquele que não está vinculado a um partido e que age por si só. Por isso, figuras como o prefeito de São Paulo, João Doria, colam muito bem hoje. Ele não tem lealdade alguma a qualquer estrutura e tem uma coisa que, no contexto de crise econômica, é aquilo que podemos dizer que é a esperança de um povo que anseia pelo nada: o sucesso.

Dentro desse contexto, como você analisa os movimentos de “greve geral” realizados em 28 de abril?

Não se usa o termo “greve geral” para anunciar algo que ainda vai acontecer, mas, sim, para olhar retroativamente e descrever aquele fenômeno de paralisação, caso cresça e ganhe aderência de diversas categorias, como uma greve geral.
Quando você anuncia uma greve geral, provavelmente estaremos diante de um uso performático de um termo, e de um termo importante para a classe trabalhadora, que não pode ser usado de forma irresponsável.

É interessante, no dia da greve, o Michel Temer lançou o “cartão reforma”, um cartão para ajudar em obras. E, sem dúvida, ele tentou disputar o significado de “reforma”. No dia do ato contra as reformas trabalhista e previdenciária, ele lança o cartão reforma. Esse uso pouco honesto de um significante que é de peso, lembra um pouco o uso, pouco honesto também, por parte da esquerda do termo greve e, em especial, greve geral.

Nós estamos vendo, sucessivas vezes, o uso do termo greve sendo feito pela esquerda de forma irresponsável. Quando, por exemplo, setores da educação aderem a uma greve já com prazo para terminar, que é a data de votação do orçamento do governo federal no Congresso. Imagine o que é começar uma greve já com prazo de validade: isso esvazia de sentido a palavra greve.

Por isso digo que não é só a ação performática, a própria narrativa é também performática. Então, fazer uma greve com prazo de validade chega a ser cômico, porque o patronato apenas espera.

Eu não posso dizer também que, na conjuntura de desorganização que estamos, que a paralisação do dia 28 de abril não foi um sucesso. Para a conjuntura foi. E também não vou fechar os olhos para um dado novo, que é a adesão de setores da sociedade civil não integrados à vanguarda ou habituados à militância e a atuação coletiva, como, por exemplo, os professores da rede privada.

Mas eu queria registrar um ponto sintomático de tudo isso. Seja a adesão de setores novos ou a paralisação de setores de vanguarda, nenhuma das ações conta com organicidade necessária para os governantes sentirem que a gente não só resiste.
Existe uma diferença entre resistir e se insurgir. E quando a esquerda rejeita a forma partido, você tende a duas ações: uma delas é a de resistência, ou seja, imprimir obstáculos em face de uma certa política; e o outro é produzir modos de vida paralelos ao que existe hegemonicamente.

Essas duas formas de ação – produzir modos de vida paralelos e resistir produzindo obstáculos – não incidem diretamente na estrutura de poder, que permanece existindo. Ela pode não avançar em face desses obstáculos mas, fora isso, ela fica intacta.
E perde-se de perspectiva a ação insurgente, que é colocar em ameaça a própria estrutura de poder. Isso é outro aspecto que se perdeu em face da crítica à forma partido.

Um movimento essencialmente performático é capaz de fazer oposição real a um governo como o de Michel Temer?

Eu não acredito. Eu não tenho dúvidas de que 2013 foi o ovo da serpente chamada Michel Temer, que nem se chama Temer, mas, sim, PSDB. Mas eu não digo que as manifestações da direita foram as responsáveis por derrubar a Dilma.
Na verdade, a estratégia de derrubar a Dilma impulsionou os conservadores a ficarem nas ruas. Essa é a diferença de você entender um movimento organizado cuja ação na rua é fruto do acirramento. Quando a esquerda parte da ação da rua, ela está invertendo o processo. Ir para a rua é o ápice.

A esquerda precisa recuperar a ação que fazia nos locais de trabalho, nas associações de moradores, nos núcleos partidários, nos movimentos sociais. Isso se perdeu e, atualmente, o sujeito que faz esse trabalho são as igrejas, que faz o papel de mediadora de conflitos, está presente cotidianamente na vida dos trabalhadores, esse é um trabalho primário, de dia a dia. Isso a esquerda precisa recuperar.

Esse diagnóstico de que a esquerda precisa voltar para a base não é novo e, na verdade, já virou um lugar comum. Por que é tão difícil colocar esse discurso em prática?

Em primeiro lugar, para fazer isso é preciso que os quadros da esquerda não façam só a autocrítica pública, mas imprimam um desdobramento prático a autocrítica.

E como fazer esse desdobramento? Os quadros precisam estar dispostos a acolher, em seus aparelhos, sindicatos, centros acadêmicos, diretórios, comissões de fábrica, etc, novos membros, com mais coragem para se apresentarem às bases em nome de um partido ou organização. Porque o que está acontecendo é que a esquerda está envergonhada.

Quando ela vai à base é nos processos eleitorais internos, como uma eleição do sindicato. Fora disso, ela se recolhe e, vamos ser justos também, porque os próprios militantes precisam correr atrás de um ritmo de produtividade imposto pelo capital. Veja, o militante tem que responder ao patrão e também ao partido que também funciona como uma empresa, que estabelece metas para o militante. Ele precisa dar retorno sobre numero de votos, de panfletos distribuídos etc.

Essa numerologia do trabalho do militante, seja o trabalho para o seu patrão do capital ou para o patrão do partido, esvazia de conteúdo efetivo a prática do militante.

A esquerda precisa ser mais humilde, mais disposta a acolher uma diversidade de métodos e de formas de pensar porque a esquerda viciou-se em seu próprio conforto. Qualquer sujeito que critique seus métodos é expurgado. Não basta a autocrítica pública, é preciso acolher a crítica do companheiro.

Como essas críticas são recebidas?

Qualquer um que faz críticas “pela esquerda” à esquerda é visto como alguém que alimenta e favorece a direita. Quando a esquerda perceber que a crítica pela esquerda é algo que faz com que ela avance, ela avançará.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/567451-a-esquerda-esta-viciada-em-seu-proprio-conforto

Histórias de mulheres católicas e protestantes que enfrentaram o nazismo. A resposta cristã ao mundo aterrorizado

As lágrimas são a expressão do sofrimento, mesmo do sofrimento pelos outros e em nome dos outros. É possível “oferecer em sacrifício” essas lágrimas para pedir perdão pelos assassinos e pela libertação das vítimas? Entre as mulheres – conhecidas e desconhecidas – que tomaram sobre seus próprios ombros a cruz de expiar os abusos e crimes do terror nazista, a mais famosa é Edith Stein. Mas não está sozinha. Houve outras mulheres, católicas e protestantes, chamas brilhando na escuridão. Elas deram sangue e fogo em nome do antigo conceito do corpo místico de Cristo. A expiação não é uma ideia antiquada; é uma resposta cristã (feminina) ao mundo aterrorizado.

A reportagem é de Hanna-Barbara Gerl-Falkovitz, publicada por L’Osservatore Romano, 07-05-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Durante os últimos anos da guerra, Berlim foi demonizada ao extremo. Mas, no meio de outras mulheres, houve a assistente social católica Marianne Hapig (1894-1973), que de forma silenciosa e eficiente organizou diferentes maneiras para dar assistência aos corpos e às almas nas prisões da Gestapo. Com uma ousadia quase inacreditável, sempre confortada pela oração, ela conseguiu levar notícias, comida, papel, mas também a hóstia eucarística, ou o pão e o vinho para serem consagrados em segredo pelos sacerdotes presos. As notas secretas da Hapig a respeito dos dias que vão de 31 de julho até o final da guerra, em Berlim, foram publicados em 1951 (reeditadas em 2007) com o título Licht über dem Abgrund (Luz sobre o abismo, em tradução livre). O editor escreve que Marianne, em determinada ocasião, havia oferecido sua vida a Deus porque “considerando os crimes terríveis cometidos por seres humanos contra outros seres humanos, especialmente pela SS, por altos funcionários, mas também por jovens que apenas conheciam o orgulho e nenhuma misericórdia, era necessário oferecer expiação e sofrimento vicário por aquelas pessoas”.

Em seu diário, também se descobre o nome de Maria Urban (1891-1944) (pseudônimo Antônia) de Munique. Maria tinha escrito uma “carta de sacrifício” para o jesuíta Alfred Delp (pseudônimo Max), em que oferecia novamente a sua vida a Deus “seguindo uma íntima e clara inspiração”, de modo que “Ele possa proteger a vida do padre Delp por seu trabalho no reino de Deus”. Maria morreu em 13 de junho de 1944 sob os escombros de sua casa em Munique, em decorrência de um bombardeio norte-americano. A notícia chegou ao Padre Delp por Marianne, que muitas vezes o visitava para retirar suas roupas incrustadas de sangue depois das torturas, que ficou emocionado e confortado. Marianne frequentemente transportava também as preciosas mensagens secretas do padre e escreveu sobre sua crescente exaustão (o Padre Delp foi enforcado em 02 de fevereiro de 1945).

Uma invenção de Marianne foi a de costurar vinte bolsinhas (Bursen) com as quais podia transportar a hóstia eucarística escondida (com a permissão do Bispo de Berlim, Dom Preysing); mais de um prisioneiro carregava uma dessas no peito ao ser interrogado por Freisler, o presidente do infame Volksgerichtshof (Tribunal Popular).
Quando a guerra terminou, em 13 de junho de 1945, Hapig escreveu: “Muitas vezes temos a sensação que jamais conseguiremos nos recuperar de tudo o que passamos, que jamais poderemos ser felizes e livres nesta vida”. Mas se consola com a reflexão do padre Delp sobre as palavras da sequência de Pentecostes: “’Ninguém pode passar pelo fogo sem ser transformado’. E quando teremos atrás de nós uma centena de portas e todas as pontes estiverem queimadas às nossas costas, então podemos ter uma ideia do grande reino a que pertencemos quando pronunciamos o nome de Deus. O Espírito que nos dá a vida vai nos ajudar a sair dos escombros, não como farrapos humanos, mas como pessoas com um novo e amplo olhar e uma coragem renovada”.

O segundo exemplo de expiação pode começar com uma citação. “Páscoa 1945: ocupação americana! Os serviços litúrgicos foram realizados em silêncio absoluto, sem nenhum alarme. A ocupação não foi sentida de forma alguma. Realmente precisamos suportá-la com humildade para nos libertar do regime do demônio e de seus comparsas, que estamos suportando há tanto tempo. Deus tomará tudo em suas mãos. Vai nos mostrar o que temos de suportar para expiar a nossa maior dívida! Mas o fato de que tenha iniciado em uma Sexta-feira Santa, o dia da plena redenção de toda a humanidade, é algo que queremos custodiar firmemente em nossos corações como um consolo, esperança e certeza. ‘Tudo se realizou! Fomos redimidos!’ Na arca de Noé havia apenas uma janela que se abria para o alto, não para o dilúvio”.

Quem soube descrever, já em 1931 e 1932, observações tão indiscutíveis sobre a iminente tragédia? Quem soube reconhecer, no meio da crise, a verdadeira causa da catástrofe alemã, especialmente focada no ódio contra a menina dos olhos de Deus, o povo judeu? E ler nos dias sombrios da incipiente ocupação, também o início da purificação e da expiação? Quem conseguiu ver, sem erro e com muito mais prudência que os especialistas, os eventos contemporâneos nas imagens e nas promessas da história bíblica?

Esta clareza no olhar pertence a uma mulher chamada Margarete Dach (1878-1946). A sua casa paterna era luterana e vivia com a Bíblia; desde criança tinha experimentado alguns contatos com Deus, a respeito dos quais era muito relutante em falar; em 1902 casou-se com o advogado Arthur Dach, teve dois filhos e se mudou da Alemanha Oriental, fazendo algumas paradas, em Offenbach e no sul de Frankfurt; ela também foi assistente social em prisões. A casa de Offenbach foi destruída por um incêndio causado por uma bomba, em outubro de 1943 (Margarete conseguiu fugir para o jardim e rezou o Magnificat). Por fim, a família mudou-se para Kronberg, onde fica o seu túmulo desde 1946. Suas cartas e seus diários (escrito a partir dos 15 anos) ainda não foram analisados. Mas ela deixou mais do que isso: a memória viva de um grupo que se reunia á sua volta nos anos de 1930 e que a chamava de Dachmutter (mãe de telhado). Orientada apenas pela profunda leitura das Sagradas Escrituras, imunizou cerca de oitenta pessoas contra a ideologia que se alastrava. Ela tinha “uma maneira certeira para enfrentar o mal” e a conservou ao longo de todas as estações da dor.

A Dachmutter viveu a “filialidade”, a redenção, a justificação. O mundo impiedoso tornou-se irreal. Educou-se apenas à “vontade de Deus”. Isso a tornou incorruptível e sóbria diante das fraquezas de outras pessoas; tornou-se uma grande conselheira. Ela abriu sua casa para muitas pessoas deprimidas, às vezes até trinta, com grande hospitalidade. É surpreendente como – mesmo em tempos de fome e carestia – conseguisse preparar comida para todos e, sempre sua casa tivesse um ar festivo e agradável. Todo dia realizava-se uma oração comunitária que, aos domingos, também incluía música, literatura, leitura e interpretação da Bíblia. Também houve momentos em que a Dachmutter percebeu um perigo político específico e convidou os inquilinos a rezarem juntos o Pai Nosso. Ela rezou quase incessantemente quando iniciaram os bombardeios e ajudou na fuga de seus amigos da Prússia oriental, onde alguns encontraram uma morte cruel. Suas cartas mostram o quanto amigos distantes confiassem em seu apoio e se sentissem confortados pela sua segurança.

Mesmo antes de 1933 começou a rezar pelas autoridades nazistas, mas não mais para Hitler: uma voz interior proibiu-a. Em seguida, ela simplesmente disse: Hitler é o demônio. Ela jamais exibiu a bandeira com a suástica. Seu diário de 1933 encerra-se com as palavras: “Outono e inverno. Calma, pleno poder, força. Não é mais possível ler o jornal, porque tudo é censurado, portanto é uma mentira. Natal. Experimentei novamente o nascimento de Jesus. Cristo vive e reina realmente. Sua soberania, o seu estar entre nós, é uma verdadeira realidade. Satanás é pisoteado pelos seus pés. Com Cristo ou contra ele, esta é a única opção”.

Durante o período nazista, teve uma grande troca de correspondência com pessoas em Berlim, mesmo no ministério dos assuntos internos, preparando o tempo depois do horrível fim. Teve contato com Martin Niemöller, um dos famosos líderes protestantes da época, com o qual, no entanto, mais tarde ficou desapontada, assim como aconteceu com Karl Barth, que tinha apreciado como co-fundador da Igreja Confessional. Desprezou profundamente os “cristãos alemães” e sua traição a Cristo. Não sabia nada sobre o círculo em torno de Moltke que estava planejando o assassinato de Hitler, mas viu uma luz brilhante sobre a sua propriedade na Silésia.

O foco de seus pensamentos e de suas orações era o “reino de Deus” frente ao perturbador Terceiro Reich. E, surpreendentemente, quanto mais a opressão endurecia e a guerra enfurecia, mais se reforçava sua convicção de que Cristo já tinha entrado em seu reino, justamente com a eleição de Hitler, e que logo viria a sua revelação. A seriedade profunda e excepcional de sua oração levou-a a declarar que o poder dos demônios tinha sido quebrado e anulado; e manter firme a sua certeza radiante sobre a redenção em Cristo. “Agora é nosso dever enviar fluxos de força, fé e firmeza ao mundo e reconhecer que tudo que não vem de Deus simplesmente é ‘nada’”.

Durante as vigílias noturnas, junto com um grupo de pessoas em oração, ampliou-se nela a certeza da promessa de Cristo de que a Alemanha não seria completamente destruída: ele mesmo iria salvá-la. E Margarete continuou a lembrar-lhe esta oração. “Para quem tem fé no país, Deus não destruirá Sodoma e Gomorra”, anotou.

Margarete guardou outra inspiração com sólida certeza: que as duas igrejas já estavam unidas, e que no devido tempo isso seria revelado de uma forma visível. Quando o grupo que a acompanhava começou a converter-se à Igreja Católica, ela não tomou nenhum posicionamento, até que de repente, em 9 de abril de 1943, perto do final das conversões, foi recebida na Igreja pelo Bispo de Mainz. Mesmo como protestante já sentia uma grande proximidade com a Igreja Católica: não só através do amor por Maria, a quem dedicou a sua própria casa, mas também através das intensas orações para o Papa (especialmente na hora da morte de Pio XI), que reconhecia como pastor comum da Igreja diante do poder das trevas.

A confirmação de seus pensamentos – em parte de natureza visionária – só veio através de suas ações. Nos anos de 1920 teve o carisma de cura, mas percebeu-o como uma distração de seu dever espiritual e intelectual e pediu a Deus que o tirasse (sendo ouvida). É preciso ressaltar que para ela os fenômenos sobrenaturais não importavam; era importante apenas resistir à escuridão e, mais especificamente, compreender que a escuridão já havia sido vencida. “O mundo não está mais escuro”, dizia agradecida e sabedora, com uma certeza: “Cristo é a única realidade”.

O terceiro exemplo é uma mulher católica de Vestfália, Nanda Herbermann (1903-1979). Trabalhou como secretária do famoso padre jesuíta Friedrich Muckermann e para sua revista “Der Gral”. O Padre Muckermann, hostil aos nazistas, já em 1934 teve de fugir para a Holanda, onde publicou outra revista antinazista “Der deutsche Weg”, enquanto Herbermann continuava a publicação do “Der Gral” em Münster (onde conheceu Edith Stein, a quem enviou um cartão postal, em 1933).

De fevereiro a agosto de 1941 Nanda passou por intensos interrogatórios e foi presa em isolamento em Münster; a Gestapo suspeitava que ela transportasse mensagens entre Muckermann e o bispo Von Galen, que mais tarde se tornaria famoso. “As semanas depois da Páscoa – escreve – tornaram-se para mim um verdadeiro calvário por causa dos longos e angustiantes interrogatórios da Gestapo (…). Muitas vezes acordava e rezava por horas, deitada no chão. O pensamento da expiação preenchia todo o meu ser”. Com o insucesso em quebrar seu silêncio, Nanda foi enviada para o campo de concentração de Ravensbrück, onde logo se tornou a “velha chefe” (Blockälteste), responsável por um barracão com quatrocentas prostitutas. Ficou no campo um ano e meio, até março de 1943, quando, graças à intervenção de sua família, foi solta. Suas incríveis e comoventes memórias foram publicadas logo depois da guerra.

Por que sobreviveu e por que quis relatar esses meses de horror? No final do livro indica duas razões para aquelas dolorosas memórias: “Eu quero descrever a vida que suportava um prisioneiro da Gestapo e da SS no Terceiro Reich; quero descrevê-la de forma tão objetiva e próxima à realidade que possa oferecer a cada leitor uma visão clara dessa vida no inferno. Mas existe uma segunda e mais importante razão para publicar estas notas: o povo alemão é agora acusado por todos de ser responsável pelas coisas abomináveis e terríveis que ocorreram nos campos de concentração. Não é justo. Eu não quero fazer aqui um processo e julgar, mas seria bom se todos os que lerem este livro olhassem cuidadosamente para si mesmos e examinassem suas consciências. Quem não tiver sangue nas mãos deveria usar suas forças junto com a gente (…) para que a nossa Alemanha possa renascer na honra (…). Queremos corrigir o que foi feito na Alemanha, pelos alemães aos alemães e a centenas de milhares de estrangeiros inocentes (…) com assassínios e injustiças que bradam aos céus. Nós sobreviventes temos este dever sagrado, bem como o dever da expiação, aos olhos de Deus e do mundo. É um fato real, e o mundo vai entendê-lo depois de nosso tempo de expiação: não é possível e não se deve simplesmente identificar os alemães, como povo, com esses criminosos nazistas”.

Certa vez Herbermann escreveu não ser mais capaz de derramar lágrimas; não tinha mais forças para chorar. Mas, mesmo nessa paralisia, em sua mente continuou a arder a pequena chama de levar toda aquela indescritível dor aos pés de Jesus, e depositá-la ali, para seu uso e de quem o precisasse.

Há algumas décadas está em curso um debate teológico sobre o termo expiação. É realmente eficaz assumir a carga das culpas alheias e tentar parar um raio? A expiação significa literalmente: oferecer penitência em nome de terceiros. De acordo com São Paulo esta é a razão mais profunda para a encarnação de Cristo. É um pensamento insondável e nós somos parte do seu mistério. Não só somos expiados como pecadores, mas podemos nos somar à expiação juntamente com Cristo. Sempre que há lágrimas, também podem se misturar lágrimas de alegria por essa possibilidade em nome de outras pessoas.

Presidente do Movimento de Direitos Humanos brasileiro é ameaçado de morte no Uruguai

Referência mundial em direitos humanos, o gaúcho Jair Krischke foi incluído em uma lista de 13 nomes ameaçados de morte por um grupo paramilitar de extrema-direita, integrado por remanescentes da ditadura uruguaia. Entre os alvos do autodenominado Comando Barneix estão, além de Krischke, o ministro de Defensa do Uruguai, Jorge Menéndez, o promotor Jorge Díaz, um jurista francês e vários advogados conhecidos pela atuação para levar à prisão oficiais que atuaram durante o regime militar no país vizinho, entre 1973 e 1985.

A reportagem é de Rodrigo Lopes, publicada por Zero Hora, 01-03-2017.

A ameaça ganhou repercussão no Uruguai depois que Díaz recebeu um e-mail assinado pelo Barneix com a mensagem: “para cada suicídio de agora em diante, mataremos três escolhidos aleatoriamente da seguinte lista”. Na sequência, vinha os nomes. O comando leva o nome do general uruguaio Pedro Barneix, que se suicidou no ano passado, enquanto era processado por violações aos direitos humanos na época da ditadura.

Presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos brasileiro, com sede em Porto Alegre, Krischke ficou surpreso com a ameaça. Como medida de segurança, avisou a embaixada brasileira no Uruguai. A expectativa é de que o governo brasileiro exerça pressão junto às autoridades uruguaias para que investigue o grupo, segundo ele, formado por militares e antigos integrantes do serviços de inteligência ligados à ditadura. O gaúcho também está organizando, junto aos demais nomes que aparecem na lista, uma audiência com a Comissão Interamericana de Direitos Humanas da Organização dos Estados Americanos (OEA), com sede em Washington, que estará em maio em Buenos Aires.

“As ameaças são muito graves. Vamos pedir à comissão que cobre do Estado uruguaio investigações e que apresente resultados”, diz Krischke.

Para ele, a mensagem é mais uma tentativa de intimidação por conta de seu trabalho para levar à Justiça envolvidos na Operação Condor, o acordo entre as ditaduras de Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile para caçar opositores políticos além das fronteiras nacionais nos anos 1970. Krischke é figura conhecida no Cone Sul por sua luta. Em 1978, teve atuação decisiva para libertar Lilian Celiberti e Universindo Diaz, sequestrados em Porto Alegre em uma operação orquestrada por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) gaúcho e integrantes da repressão uruguaia. Em 2010, também contribuiu para a extradição para a Argentina do ex-coronel uruguaio Manuel Cordero Piacentini, preso pela Polícia Federal (PF) em Santana do Livramento, onde morou por vários anos. O ex-militar está detido em Buenos Aires e foi condenado recentemente a 25 anos de reclusão por atuação na Operação Condor. Krischke ainda tem denunciado outro militar uruguaio, coronel Pedro Antonio Mato Narbondo, que segue foragido. Mato foi acusado em 1986 de integrar o esquadrão clandestino que sequestrou e matou em Buenos Aires, 10 anos antes, o senador Zelmar Michelini e o ex-presidente da Câmara de Deputados uruguaia Héctor Gutierrez Ruiz.

Apesar da ameaças, Krischke não se sente intimidado:

“Só louco não tem medo, e eu não sou louco. Essas intimidações não podem atrapalhar o meu trabalho. A gente tem de enfrentar e até aproveitar para pressionar. Temos muitos documentos em nossos arquivos (sobre a ditadura uruguaia), que, inclusive, mostram a atuação do serviço de inteligência militar para espionar jornais, rádios, TV, sindicatos e movimentos estudantis em plena democracia”.

Para Krischke, o grupo paramilitar resolveu partir para ofensiva depois que seus membros perderam a proteção do ex-ministro da Defesa Eleuterio Fernández Huidobro, que morreu em agosto. O sucessor, Jorge Menéndez, que aparece como potencial alvo de assassinato, anunciou em janeiro a reativação dos chamados Tribunais de Honra para militares envolvidos em crimes da ditadura. Entre as ações em que o comando é suspeito está um roubo de documentos da sede do Grupo de Investigação em Arqueologia Forense (Giaf), que busca restos de desaparecidos políticos.

No pedido de investigação a ser encaminhado por Krischke à OEA está o de esclarecimentos sobre essa ação. Na mensagem da ameaça, enviada por meio do Tor, software de computador que impede que o usuário seja rastreado, o grupo diz que o suicídio do general Pedro Barneix não ficará impune: “Não aceitaremos nenhum suicídio mais por conta de processos injustos”. O militar se matou em setembro de 2015. Ele era investigado pelo assassinato de Aldo Perrini, militante de esquerda da cidade de Colonia del Sacramento, torturado e morto pelas mãos do Batalhão de Infantaria número 4 do Uruguai, em 1974.

Dez teses sobre a ascensão da extrema direita europeia

O resultado das eleições para o Parlamento Europeu, no fim de maio, registrou na prática o fortalecimento dos partidos de extrema direita no continente. Para sociólogo, discurso com que esquerda explica o crescimento do fascismo pela via da crise econômica reduz fenômeno e deixa de lado suas raízes históricas.

*

1. As eleições europeias confirmaram uma tendência observada já há alguns anos na maior parte dos países do continente: o crescimento espetacular da extrema direita. Esse é um fenômeno sem precedente desde os anos 1930. Em muitos países, essa corrente obtinha entre 10 e 20%. Hoje, em três países (França, Inglaterra e Dinamarca), ela já atinge entre 25 e 30% dos votos. Na verdade, sua influência é mais vasta do que seu eleitorado: ela contamina com suas ideias a direita “clássica” e até mesmo uma parte da esquerda social-liberal. O caso francês é o mais grave; o avanço da Frente Nacional ultrapassa todas as previsões, mesmo as mais pessimistas. Como escreveu o site Mediapart em um editorial recente: “São cinco para meia-noite”.

2. Essa extrema direita é muito diversa, podendo-se observar uma vasta gama que vai desde os partidos abertamente neonazistas -como o Aurora Dourada grego- até as forças burguesas perfeitamente integradas no jogo político institucional, como a suíça UDC (União Democrática de Centro). O que eles têm em comum é o nacionalismo excessivo, a xenofobia, o racismo, o ódio contra imigrantes –principalmente “extraeuropeus”– e contra ciganos (o mais velho povo do continente), a islamofobia e o anticomunismo. A isso pode-se acrescentar, em muitos casos, o antissemitismo, a homofobia, a misoginia, o autoritarismo, o desprezo pela democracia e a eurofobia. Quanto a outras questões –por exemplo, ser a favor ou contra o neoliberalismo ou a laicidade– a corrente se mostra mais dividida.

3. Seria um erro acreditar que o fascismo e o antifascismo são fenômenos do passado. É evidente que hoje não se encontram mais partidos de massa fascistas comparáveis ao NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães) dos anos 1930, mas já nessa época o fascismo não se resumia a um único modelo: o franquismo espanhol e o salazarismo português eram bem diferentes do modelo italiano ou do alemão.

Parte importante da extrema direita europeia hoje tem matriz diretamente fascista e/ou neonazista: é o caso do grego Aurora Dourada, do húngaro Jobbik, dos ucranianos Svoboda e Pravy Sektor etc.; mas isso vale também, sob outro aspecto, para a Frente Nacional, o FPÖ (Partido da Liberdade Austríaca), o belga Vlaams Belang (Interesse Flamengo) e outros, cujos quadros fundadores tiveram ligações estreitas com o fascismo histórico e com as forças de colaboração com o Terceiro Reich.

Em outros países -Holanda, Suíça, Inglaterra, Dinamarca- os partidos de extrema direita não têm origem fascista, mas partilham com os primeiros o racismo, a xenofobia e a islamofobia.

Um dos argumentos que demonstrariam que a extrema direita mudou e não teria mais muito a ver com o fascismo é sua aceitação da democracia parlamentar e da via eleitoral para chegar ao poder. Lembremos que um certo Adolf Hitler chegou à Chancelaria por uma votação legal do Reichstag (Parlamento alemão) e que o marechal Pétain foi eleito chefe de Estado pelo Parlamento francês. Se a Frente Nacional chegasse ao poder por meio de eleições –uma hipótese que infelizmente não se pode descartar– o que restaria da democracia na França?

4. A crise econômica que castiga a Europa desde 2008 favoreceu, portanto, de maneira predominante (com exceção do caso da Grécia), mais a extrema direita do que a esquerda radical. A proporção entre as duas forças está totalmente desequilibrada, contrariamente à situação europeia dos anos 1930, que via, em diversos países, um crescimento paralelo do fascismo e da esquerda antifascista.

A extrema direita atual, sem dúvida, se aproveitou da crise, mas isso não explica tudo: na Espanha e em Portugal, dois dos países mais atingidos pela crise, a extrema direita continua marginal. E na Grécia, ainda que o Aurora Dourada tenha crescido exponencialmente, segue retumbantemente derrotado pelo Syriza, coalizão da esquerda radical. Na Suíça e na Áustria, países poupados pela crise, a extrema direita racista ultrapassa com frequência os 20%. É preciso, então, evitar as explicações economicistas que a esquerda vem propondo.

5. Fatores históricos têm sem dúvida o seu papel: uma grande e antiga tradição antissemita em certos países; a persistência de correntes colaboracionistas desde a Segunda Guerra Mundial; a cultura colonial, que impregna as atitudes e os comportamentos muito depois da descolonização -não somente nos antigos impérios, mas em quase todos os países da Europa. Todos esses fatores estão presentes na França e contribuem para explicar o sucesso do lepenismo.

6. O conceito de “populismo”, empregado por alguns cientistas políticos, pela mídia e mesmo por uma parte da esquerda, não é de modo algum capaz de dar conta do fenômeno em questão, servindo apenas a semear a confusão. Se na América Latina, desde os anos 1930 até os 1960, o termo correspondia a algo relativamente preciso –o varguismo, o peronismo etc.–, seu uso na Europa a partir dos anos 1990 é cada vez mais vago e impreciso.

O populismo é definido como “uma posição política que está do lado do povo contra as elites”, o que é válido para quase qualquer movimento ou partido político. Esse pseudoconceito, aplicado aos partidos de extrema direita, leva, voluntariamente ou não, a legitimá-los, a torná-los mais aceitáveis, e até mesmo simpáticos –quem não é a favor do povo contra as elites?–, evitando cuidadosamente os termos que contrariam: racismo, xenofobia, fascismo, extrema direita. “Populismo” também é utilizado de maneira deliberadamente mistificadora por ideólogos neoliberais para amalgamar a extrema direita e a esquerda radical, caracterizadas como “populismo de direita” e “populismo de esquerda”, opondo-as aos políticos liberais, à Europa etc.

7. A esquerda, todas as tendências reunidas –com poucas exceções–, tem subestimado cruelmente o perigo. Ela não viu chegar a “vague brune”1 e, por isso, não achou necessário tomar a iniciativa de uma mobilização antifascista. Para algumas correntes da esquerda, a extrema direita é apenas um subproduto da crise e do desemprego, e é contra essas causas que é preciso lutar, e não contra o fenômeno fascista em si. Esses argumentos tipicamente economicistas desarmaram a esquerda diante da ofensiva ideológica racista, xenófoba e nacionalista da extrema direita.

8. Nenhum grupo social está imune à “peste brune”. As ideias da extrema direita, em particular o racismo, contaminaram um bom contingente, não só de pequenos-burgueses e desempregados como também da classe trabalhadora e da juventude. No caso francês, isso é particularmente chocante. Essas ideias não têm nenhuma ligação com a realidade da imigração: o índice de votação na Frente Nacional, por exemplo, é especialmente alto em algumas regiões rurais em que nunca se viu um só imigrante. E os imigrantes ciganos, que foram recentemente objeto de uma onda de histeria racista bastante impressionante –com a indulgente participação do então ministro “socialista” do Interior, Manuel Valls–, são menos de 20 mil em todo o território francês.

9. Outra análise “clássica” da esquerda sobre o fascismo é a que o explica como um instrumento do grande capital para esmagar a revolução e o movimento trabalhador. Bom, como hoje o movimento trabalhador está muito enfraquecido e o perigo revolucionário inexiste, o grande capital não tem interesse em sustentar movimentos de extrema direita, então a ameaça de uma ofensiva “brune” não existe. Trata-se, mais uma vez, de uma visão economicista, que não abarca a autonomia própria aos fenômenos políticos -os eleitores podem escolher um partido que não tem a simpatia da grande burguesia- e que parece ignorar que o grande capital pode se acomodar em todos os tipos de regimes políticos, sem muitas preocupações.

10. Não há receita mágica para combater a extrema direita. É preciso se inspirar, mantendo certa distância crítica, nas tradições antifascistas do passado; mas é preciso também saber inovar para responder às formas atuais do fenômeno. Há que saber combinar iniciativas locais com movimentos sociopolíticos e culturais individuais solidamente organizados e estruturados, em escala nacional e continental. É possível chegar a uma unidade pontual de todo o espectro “republicano”, mas um movimento antifascista organizado só será eficaz e confiável se impelido por forças externas ao consenso neoliberal dominante. Trata-se de uma luta que não pode se limitar às fronteiras de um país, mas deve se organizar em escala europeia. O combate ao racismo, e a solidariedade a suas vítimas, é um dos componentes essenciais dessa resistência.

Nota:
1. “Vague brune”, onda marrom, é como vem sendo chamada, na França, a expansão fascista. A expressão deriva de “peste brune”, praga marrom, nome dado pelos franceses ao nazismo durante a Segunda Guerra, em referência à cor do uniforme dos soldados do Reich.

Fonte: http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/news/view/3531

A ex-esquerda caiu por sua derrota ideológica

“A ex-esquerda sucumbiu por ignorância ou subestimação do conceito de ideologia e a consequência direta da falsa ideia de hegemonia na sociedade brasileira”, afirma Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e relações internacionais.

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Segundo ele,  a ex-esquerda passou “pela doença de um certo “hobbesianismo distributivista”, e muito além não vai o pensamento de tradição stalinista e também neovarguista. Neste segundo, tendo como aliados os primeiros, localizo a posição ideológica do ex-presidente Lula e do fenômeno do lulismo. E, assim como em 1954, perde-se tudo por não entender o tipo de sociedade pós-colonial onde nos encontramos. Ou pior. Perde-se tudo por acreditar na institucionalidade burguesa mais do que a própria oligarquia nacional e os estamentos que agora se aventuram na tomada do poder de Estado (tal como magistrados e procuradores)”.

Eis o artigo.

Afirmo de maneira categórica: A ex-esquerda sucumbiu por ignorância ou subestimação do conceito de ideologia e a consequência direta da falsa ideia de hegemonia na sociedade brasileira. Como também afirmo há tempos, chegando ao ponto da exaustão por repetição do conceito, não trato da hegemonia de tipo superficial ou rasteira, quando se entende – de maneira equivocada – a “ter hegemonia” a simplesmente impor alguns nomes para certos cargos-chave em instituições importantes dentro de uma sociedade estruturalmente desigual. Isso não é hegemonia, talvez hegemonismo, velho vício das esquerdas encantadas com a tentação autoritária.

Ouso afirmar que passamos ainda pela doença de um certo “hobbesianismo distributivista”, e muito além não vai o pensamento de tradição stalinista e também neovarguista. Neste segundo, tendo como aliados os primeiros, localizo a posição ideológica do ex-presidente Lula e do fenômeno do lulismo. E, assim como em 1954, perde-se tudo por não entender o tipo de sociedade pós-colonial onde nos encontramos. Ou pior. Perde-se tudo por acreditar na institucionalidade burguesa mais do que a própria oligarquia nacional e os estamentos que agora se aventuram na tomada do poder de Estado (tal como magistrados e procuradores).

Enfim, perde-se o Poder Executivo por não acreditar em nenhum momento em criar ou reforçar agentes coletivos com poder de veto. Logo, perde-se o Poder Executivo Pós-colonial, criollo e burguês por não querer nada com o Poder Popular.

Muito se há especulado a respeito da perda absurda do poder por parte do segundo governo Dilma (2015-2016). Podemos realçar o papel das empresas de marketing digital e centro de fomento do neoliberalismo; também a função estratégica da mídia massiva para formar um novo consenso conservador; a ação do imperialismo através da Operação Pontes e com a instalação da Força Tarefa da Lava Jato (praticamente incontrolável e em cooperação direta com os EUA); e obviamente a ação traidora do ex-aliado político, encabeçado pelo vice-presidente eleito e reeleito com a ex-ministra da Casa Civil de Lula. Mas, insisto, a ação do inimigo estratégico era subestimada pelo lulismo, que a via apenas como adversário circunstancial. Logo, ao não assumir a impossibilidade de uma aliança de longo prazo e consequente “defesa da estabilidade institucional”, Lula, Rui Falcão, José Dirceu e outros dirigentes de peso, conseguiram impor seu consenso e autoconvencimento sobre uma legenda com milhares de filiados, mas com pouca democracia interna na tomada de decisões centrais.

A derrota ideológica passa por confiar em demasia e não ter um trunfo, uma carta na manga. Ninguém em sã consciência pode se “surpreender” com a conduta de Michel Temer – a começar pela carta onde este se apresenta como “candidato” em pleno exercício da Vice Presidência – sendo este operador filho político de Adhemar de Barros e projetado nacionalmente através de Orestes Quércia. Considerando que a Direção Nacional do PT e o próprio Lula têm carreira em São Paulo, não se pode alegar desconhecimento ou má interpretação. Vou além no raciocínio.

A derrota ideológica é uma posição de antemão, onde um dos agentes centrais em um conflito simplesmente o nega, por supor que o antigo inimigo já não o considera mais “inimigo” por este tentar se apresentar como “fiável e comportado”. Ocorre que basta um mínimo de compreensão das sociedades concretas da América LatinaBrasil incluído e não fora, como se estivéssemos de costas para o Continente – para verificar que a mesa pode ser virada a todo instante. Se não bastassem nossos mais que convincentes processos históricos, bastava observar os golpes brancos, institucionais e bem sucedidos de Honduras (com a deposição de Manuel Zelaya Rosales (eleito em janeiro de 2006 e derrubado com o aval da Suprema Corte em junho de 2009) e Paraguai (quando o então presidente Fernando Lugo, assumiu em agosto de 2008 e derrubado após um controvertido impeachment em junho de 2012). Como a arrogância e a prepotência são filhas diretas do exercício do poder político, imaginaram que “no Brasil não ocorrem mais destas coisas; não somos uma republiqueta”. Não, claro que não. O Bananão se afirmou por cima das instituições e o estamento togado trouxe para si o papel de Poder Moderador, legislando por jurisprudência e súmula vinculante.

Mídia, bestialização e a ausência das ideias de câmbio

“E o povo bestializado, assistiu à proclamação da tal da república”. Assim encerra a narrativa clássica dos que acompanharam o golpe militar de 15 de novembro de 1889, quando o gabinete da Guerra derruba a monarquia brasileira a quem o marechal Deodoro da Fonseca servia. A mudança de regime político sempre tende a ser um momento traumático para operadores, elites em disputa ou setores de classe dominante perdendo interesses diretos. Mas, para a maioria, ainda quando há alguma inclinação popular no governo de turno, se esta não for organizada na defesa de suas bandeiras e conquistas diretas, a tendência é se dedicar a sobrevivência diária. Na ausência de sujeitos sociais com organicidade e referências desde a base, o povo brasileiro, infelizmente, percebe os sintomas dramáticos apenas quando se sente atingido. É como alguém caminhando no escuro e recebendo murros, sentindo as dores, mas não reconhecendo quem golpeia.

Quando temos um país com sujeitos sociais desorganizados, mesmo sendo estes são beneficiados por programas de governo, não é a melhoria material que vai levar a uma significação ou câmbio de consciência. Assim, ainda que a vida melhore, a maioria vai perceber que o dinheiro em conta, o emprego direto e os benefícios materiais vão implicar em mais trabalho e compromisso, e não em mudança ideológica. Por um período, estes beneficiados terão alguma identidade com o líder carismático – no caso, o ex-presidente Lula. Mas, assim que o modelo começa a ruir, o voto cativo fica “liberto”, em geral caindo na abstenção, branco ou nulo, conforme se verificou no primeiro turno das eleições municipais de 2016.

Como a vida cotidiana de amplas camadas das classes C e D melhoraram, mas não ao ponto de transformar as relações cotidianas, e nem mesmo diminuindo significativamente os índices de violência urbana, a identidade política com o “ex-sindicalista que nunca foi de esquerda” (frase do próprio Lula) não chega ao ponto de ser totalmente transferida para a sucessora. A ruína do modelo macroeconômico caminhou lado a lado e foi impulsionada pela permanente exposição seletiva e julgamento midiáticos, com foco no “conjunto da obra” do lulismo. Diante da possibilidade de subordinar o governo que fez de tudo para agradá-los, os conglomerados de mídia, liderados pela Globo e secundados por Estadão, Folha e Abril, costuraram o consenso conservador, auxiliados pelos neoliberais no andar de cima e os neopentecostais na base da pirâmide social. Deu no que deu.

Apontando a conclusão óbvia

Na ausência de organização social, é impossível defender práticas indefensáveis sem sequer entender a perda de direitos que já está ocorrendo. Para organizar a maioria, é urgente construir, pouco a pouco, um novo consenso dos sujeitos sociais que conformam esta maioria, apontando para a defesa de interesses e identidade popular totalmente antagônica às representações simbólicas da classe dominante colonizada.

Anatomia da crise do socialismo

O socialismo francês está doente, assim como as outras propostas similares na Europa. As primárias do Partido Socialista (PS) nas quais se dirime não apenas o candidato para as eleições presidenciais de 2017, mas também o conteúdo político do socialismo, não são suficientes para preencher o vazio sideral em que se meteu o PS francês e, mais globalmente, a socialdemocracia europeia e a esquerda em geral. Ambas atravessam o pior momento da história contemporânea. A desistência do presidente francês, François Hollande, de concorrer à sua reeleição, representa um fracasso adicional: pela primeira vez na França sob a Quinta República, um chefe de Estado decidiu dar um passo atrás. Esse gesto representa o fracasso da chamada “esquerda reformista” e sua impossibilidade de manter o poder.

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O comentário é de Eduardo Febbro, jornalista, publicado por Página/12, 27-01-2017. A tradução é de André Langer.

A oferta política europeia está asfixiada pelos populismos de extrema direita, pelo também chamado voto “sentimental” no melhor estilo do dirigente italiano Beppe Grillo, pelo conceito de “democracia iliberal” inventado pelo primeiro ministro húngaro Viktor Orban e por alguns movimentos da extrema esquerda. “Não votem com o cérebro, votem com o coração”, disse Grillo há algumas semanas. Na França, uma das personalidades mais populares é Marine Le Pen, a presidenta do partido da extrema direita Frente Nacional. O eleitorado fez desta mulher de grande oratória xenófoba e populista uma das favoritas para derrotar a esquerda no primeiro turno das eleições presidenciais de 2017.

A esquerda reformista de François Hollande, que governa a França desde 2012, termina o mandato esgotada, dividida e com níveis de aceitação popular dignos de um partido marginal. A esquerda mais progressista, por sua vez, também dividida em várias correntes, conserva um crédito sólido, superior inclusive ao PS, mas insuficiente para chegar ao poder. O dirigente da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon tem uma imensa aura popular, mas que, no encontro com as urnas, não se traduz em votos.

Hoje, as expectativas políticas dos eleitores estão depositadas na direita retrógrada ou na extrema direita. A socialdemocracia está desaparecendo. Sua retórica tornou-se inaudível, mesmo se seu reformismo não destruiu a raiz do Estado social, como pretende fazer a direita. A França segue sendo, dentro dos países da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico), aquele país que mantém o gasto social mais alto: 31% frente a uma média de 21% na zona OCDE.

Para onde quer que se olhe, a Europa atravessa situações similares, cujo código comum é um eleitor que se diz vítima da globalização, do aumento das desigualdades, das elites modernas afastada da realidade, do retrocesso dos Estados e dos sistemas políticos viciados. Dessas ideias surgiu um tipo de personagem que assimila todos os males: o suposto operário branco, castigado pela globalização, com um trabalho instável, marginalizado pela desigualdade e superado, em direitos, pelos estrangeiros.

A esquerda no poder, como no caso da França, foi incapaz de se remodelar para responder a estes problemas. Ela se limitou a administrar as expectativas que ela mesma gerou com ações políticas contrárias às narrativas com que se fez eleger.

No Leste europeu e na Europa Oriental apareceu uma espécie de “muro da rejeição”, cujos melhores representantes são, na Hungria, Viktor Orban, e, na Polônia, Jaroslaw Kacynski. Estas posturas políticas são autoritárias, revisionistas, populistas ao extremo, mentirosas e propensas a limitar as liberdades e todos os mecanismos de contrapoder desenvolvidos pelas democracias. No dia 24 de julho de 2014, o dirigente húngaro Viktor Orban inventou a expressão com a qual se identificam hoje essas redefinições políticas: “a democracia iliberal”. O conceito invoca dois inimigos a serem derrotados: as elites globalizadas e os imigrantes. Para isso, os iliberais propõem o exercício de um poder absoluto em nome do povo, mas sem os necessários equilíbrios de poderes.

Como fizeram os partidários do Brexit na Grã-Bretanha, Donald Trump nos Estados Unidos e outras direitas europeias, trata-se de devolver a soberania ao povo, de proteger o povo e de governar em nome do povo excluindo os outros contrapoderes, ou isolando as minorias perigosas: poloneses na Grã-Bretanha, latinos nos Estados Unidos, muçulmanos na Europa, de maneira geral, as elites urbanas e conectadas. O hino desta “democracia iliberal” é o mesmo de Trump: “Let’s take back control” – retomemos o controle em nome do povo e para o povo.

Nos países escandinavos, na Holanda, na Áustria, na Bélgica, na Itália ou na França os partidos marcadamente populistas alteraram o jogo político. Nem mesmo a Alemanha se salva, onde o surgimento do partido de extrema direita AFD (Alternativa para a Alemanha) veio se juntar ao concerto geral de xenofobia, denúncia das elites privilegiadas e dos partidos políticos tradicionais.

Jean-Yves Camus, diretor do Observatório da Radicalização Política, observa que “embora a democracia seja suficientemente forte para resistir ao neofascismo, não é certo que esteja protegida contra uma evolução na qual a forma republicana e democrática de governo poderia sobreviver (eleições livres, bipartidarismo) ao mesmo tempo que muda de natureza”. Todas estas forças políticas apoiam-se nos mesmos impulsos: a rejeição ao estrangeiro, a proclamação de uma nova soberania frente à globalização ou a União Europeia e, última novidade, uma narrativa social muito forte copiada da esquerda.

E é justamente aqui que está o abismo: a Europa política está em plena recomposição com um ausente maior: a esquerda. Suas ideias não prosperam e toda a reformulação passa pela direita ou pela extrema direita. O trabalhismo britânico de Jeremy Corbyn não decola, o Pasok grego ficou arrasado, o SPD alemão busca sua glória passada, o velho partido socialdemocrata austríaco nem sequer passou pelo primeiro turno nas eleições presidenciais, o PSOE espanhol jogou-se pela janela assim como fez o PS francês.

A esquerda socialdemocrata ou reformista vive sua pior fase histórica: seu último reinado remonta ao período que vai de 1990 a 2000 com Tony Blair na Grã-Bretanha (1997-2007), Gerhard Schroeder na Alemanha (1998-2005), Felipe González na Espanha (1982-1996) e Lionel Jospin na França (1997-2002). Dali em diante, essa esquerda foi se esfumaçando nas brumas de uma gestão não inteiramente de acordo com seus postulados. Ela perdeu sua alma tentando adaptar-se à realidade das economias globalizadas, ao encolhimento dos Estados protetores, às enormes transformações tecnológicas e à pressão liberal.

A socialdemocracia transformou-se em uma espécie ameaçada pela direita ultraconservadora, extrema direita ou pela esquerda mais radical (Syriza na Grécia, Podemos na Espanha, o Movimento 5 Estrelas na Itália, a Frente de Esquerda na França ou Die Linke na Alemanha). O centro de gravidade deslocou-se para a direita.

Na França, a socialdemocracia e as esquerdas plurais disputam um espaço cada vez mais restrito: seus adversários são o conservadorismo social misturado com o liberalismo econômico assim como é postulado pelo candidato da direita que venceu as primárias, François Fillon, ou a ultradireita de Marine Le Pen em cuja retórica confluem o mais genuíno da extrema direita, o populismo e ingredientes sociais furtados da esquerda.

Mas, via de regra, a esquerda não está presente na reconstrução política do Velho Continente. Passou de ator que desenhava o futuro a se ver expulso dele. Uma esquerda reformista que não prospera para além de determinado nível, outra esquerda histórica estancada e uma esquerda radical que também não rompe a barreira dos 15%: as três competem quase no mesmo mercado sem capacidade de postular um modelo comum ou chegar a uma convergência. Aquele que foi durante muitas décadas o motor do progresso social europeu tornou-se um ator de segunda categoria, obscurecido por suas incoerências, traições e egos.