Histórias de mulheres católicas e protestantes que enfrentaram o nazismo. A resposta cristã ao mundo aterrorizado

As lágrimas são a expressão do sofrimento, mesmo do sofrimento pelos outros e em nome dos outros. É possível “oferecer em sacrifício” essas lágrimas para pedir perdão pelos assassinos e pela libertação das vítimas? Entre as mulheres – conhecidas e desconhecidas – que tomaram sobre seus próprios ombros a cruz de expiar os abusos e crimes do terror nazista, a mais famosa é Edith Stein. Mas não está sozinha. Houve outras mulheres, católicas e protestantes, chamas brilhando na escuridão. Elas deram sangue e fogo em nome do antigo conceito do corpo místico de Cristo. A expiação não é uma ideia antiquada; é uma resposta cristã (feminina) ao mundo aterrorizado.

A reportagem é de Hanna-Barbara Gerl-Falkovitz, publicada por L’Osservatore Romano, 07-05-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Durante os últimos anos da guerra, Berlim foi demonizada ao extremo. Mas, no meio de outras mulheres, houve a assistente social católica Marianne Hapig (1894-1973), que de forma silenciosa e eficiente organizou diferentes maneiras para dar assistência aos corpos e às almas nas prisões da Gestapo. Com uma ousadia quase inacreditável, sempre confortada pela oração, ela conseguiu levar notícias, comida, papel, mas também a hóstia eucarística, ou o pão e o vinho para serem consagrados em segredo pelos sacerdotes presos. As notas secretas da Hapig a respeito dos dias que vão de 31 de julho até o final da guerra, em Berlim, foram publicados em 1951 (reeditadas em 2007) com o título Licht über dem Abgrund (Luz sobre o abismo, em tradução livre). O editor escreve que Marianne, em determinada ocasião, havia oferecido sua vida a Deus porque “considerando os crimes terríveis cometidos por seres humanos contra outros seres humanos, especialmente pela SS, por altos funcionários, mas também por jovens que apenas conheciam o orgulho e nenhuma misericórdia, era necessário oferecer expiação e sofrimento vicário por aquelas pessoas”.

Em seu diário, também se descobre o nome de Maria Urban (1891-1944) (pseudônimo Antônia) de Munique. Maria tinha escrito uma “carta de sacrifício” para o jesuíta Alfred Delp (pseudônimo Max), em que oferecia novamente a sua vida a Deus “seguindo uma íntima e clara inspiração”, de modo que “Ele possa proteger a vida do padre Delp por seu trabalho no reino de Deus”. Maria morreu em 13 de junho de 1944 sob os escombros de sua casa em Munique, em decorrência de um bombardeio norte-americano. A notícia chegou ao Padre Delp por Marianne, que muitas vezes o visitava para retirar suas roupas incrustadas de sangue depois das torturas, que ficou emocionado e confortado. Marianne frequentemente transportava também as preciosas mensagens secretas do padre e escreveu sobre sua crescente exaustão (o Padre Delp foi enforcado em 02 de fevereiro de 1945).

Uma invenção de Marianne foi a de costurar vinte bolsinhas (Bursen) com as quais podia transportar a hóstia eucarística escondida (com a permissão do Bispo de Berlim, Dom Preysing); mais de um prisioneiro carregava uma dessas no peito ao ser interrogado por Freisler, o presidente do infame Volksgerichtshof (Tribunal Popular).
Quando a guerra terminou, em 13 de junho de 1945, Hapig escreveu: “Muitas vezes temos a sensação que jamais conseguiremos nos recuperar de tudo o que passamos, que jamais poderemos ser felizes e livres nesta vida”. Mas se consola com a reflexão do padre Delp sobre as palavras da sequência de Pentecostes: “’Ninguém pode passar pelo fogo sem ser transformado’. E quando teremos atrás de nós uma centena de portas e todas as pontes estiverem queimadas às nossas costas, então podemos ter uma ideia do grande reino a que pertencemos quando pronunciamos o nome de Deus. O Espírito que nos dá a vida vai nos ajudar a sair dos escombros, não como farrapos humanos, mas como pessoas com um novo e amplo olhar e uma coragem renovada”.

O segundo exemplo de expiação pode começar com uma citação. “Páscoa 1945: ocupação americana! Os serviços litúrgicos foram realizados em silêncio absoluto, sem nenhum alarme. A ocupação não foi sentida de forma alguma. Realmente precisamos suportá-la com humildade para nos libertar do regime do demônio e de seus comparsas, que estamos suportando há tanto tempo. Deus tomará tudo em suas mãos. Vai nos mostrar o que temos de suportar para expiar a nossa maior dívida! Mas o fato de que tenha iniciado em uma Sexta-feira Santa, o dia da plena redenção de toda a humanidade, é algo que queremos custodiar firmemente em nossos corações como um consolo, esperança e certeza. ‘Tudo se realizou! Fomos redimidos!’ Na arca de Noé havia apenas uma janela que se abria para o alto, não para o dilúvio”.

Quem soube descrever, já em 1931 e 1932, observações tão indiscutíveis sobre a iminente tragédia? Quem soube reconhecer, no meio da crise, a verdadeira causa da catástrofe alemã, especialmente focada no ódio contra a menina dos olhos de Deus, o povo judeu? E ler nos dias sombrios da incipiente ocupação, também o início da purificação e da expiação? Quem conseguiu ver, sem erro e com muito mais prudência que os especialistas, os eventos contemporâneos nas imagens e nas promessas da história bíblica?

Esta clareza no olhar pertence a uma mulher chamada Margarete Dach (1878-1946). A sua casa paterna era luterana e vivia com a Bíblia; desde criança tinha experimentado alguns contatos com Deus, a respeito dos quais era muito relutante em falar; em 1902 casou-se com o advogado Arthur Dach, teve dois filhos e se mudou da Alemanha Oriental, fazendo algumas paradas, em Offenbach e no sul de Frankfurt; ela também foi assistente social em prisões. A casa de Offenbach foi destruída por um incêndio causado por uma bomba, em outubro de 1943 (Margarete conseguiu fugir para o jardim e rezou o Magnificat). Por fim, a família mudou-se para Kronberg, onde fica o seu túmulo desde 1946. Suas cartas e seus diários (escrito a partir dos 15 anos) ainda não foram analisados. Mas ela deixou mais do que isso: a memória viva de um grupo que se reunia á sua volta nos anos de 1930 e que a chamava de Dachmutter (mãe de telhado). Orientada apenas pela profunda leitura das Sagradas Escrituras, imunizou cerca de oitenta pessoas contra a ideologia que se alastrava. Ela tinha “uma maneira certeira para enfrentar o mal” e a conservou ao longo de todas as estações da dor.

A Dachmutter viveu a “filialidade”, a redenção, a justificação. O mundo impiedoso tornou-se irreal. Educou-se apenas à “vontade de Deus”. Isso a tornou incorruptível e sóbria diante das fraquezas de outras pessoas; tornou-se uma grande conselheira. Ela abriu sua casa para muitas pessoas deprimidas, às vezes até trinta, com grande hospitalidade. É surpreendente como – mesmo em tempos de fome e carestia – conseguisse preparar comida para todos e, sempre sua casa tivesse um ar festivo e agradável. Todo dia realizava-se uma oração comunitária que, aos domingos, também incluía música, literatura, leitura e interpretação da Bíblia. Também houve momentos em que a Dachmutter percebeu um perigo político específico e convidou os inquilinos a rezarem juntos o Pai Nosso. Ela rezou quase incessantemente quando iniciaram os bombardeios e ajudou na fuga de seus amigos da Prússia oriental, onde alguns encontraram uma morte cruel. Suas cartas mostram o quanto amigos distantes confiassem em seu apoio e se sentissem confortados pela sua segurança.

Mesmo antes de 1933 começou a rezar pelas autoridades nazistas, mas não mais para Hitler: uma voz interior proibiu-a. Em seguida, ela simplesmente disse: Hitler é o demônio. Ela jamais exibiu a bandeira com a suástica. Seu diário de 1933 encerra-se com as palavras: “Outono e inverno. Calma, pleno poder, força. Não é mais possível ler o jornal, porque tudo é censurado, portanto é uma mentira. Natal. Experimentei novamente o nascimento de Jesus. Cristo vive e reina realmente. Sua soberania, o seu estar entre nós, é uma verdadeira realidade. Satanás é pisoteado pelos seus pés. Com Cristo ou contra ele, esta é a única opção”.

Durante o período nazista, teve uma grande troca de correspondência com pessoas em Berlim, mesmo no ministério dos assuntos internos, preparando o tempo depois do horrível fim. Teve contato com Martin Niemöller, um dos famosos líderes protestantes da época, com o qual, no entanto, mais tarde ficou desapontada, assim como aconteceu com Karl Barth, que tinha apreciado como co-fundador da Igreja Confessional. Desprezou profundamente os “cristãos alemães” e sua traição a Cristo. Não sabia nada sobre o círculo em torno de Moltke que estava planejando o assassinato de Hitler, mas viu uma luz brilhante sobre a sua propriedade na Silésia.

O foco de seus pensamentos e de suas orações era o “reino de Deus” frente ao perturbador Terceiro Reich. E, surpreendentemente, quanto mais a opressão endurecia e a guerra enfurecia, mais se reforçava sua convicção de que Cristo já tinha entrado em seu reino, justamente com a eleição de Hitler, e que logo viria a sua revelação. A seriedade profunda e excepcional de sua oração levou-a a declarar que o poder dos demônios tinha sido quebrado e anulado; e manter firme a sua certeza radiante sobre a redenção em Cristo. “Agora é nosso dever enviar fluxos de força, fé e firmeza ao mundo e reconhecer que tudo que não vem de Deus simplesmente é ‘nada’”.

Durante as vigílias noturnas, junto com um grupo de pessoas em oração, ampliou-se nela a certeza da promessa de Cristo de que a Alemanha não seria completamente destruída: ele mesmo iria salvá-la. E Margarete continuou a lembrar-lhe esta oração. “Para quem tem fé no país, Deus não destruirá Sodoma e Gomorra”, anotou.

Margarete guardou outra inspiração com sólida certeza: que as duas igrejas já estavam unidas, e que no devido tempo isso seria revelado de uma forma visível. Quando o grupo que a acompanhava começou a converter-se à Igreja Católica, ela não tomou nenhum posicionamento, até que de repente, em 9 de abril de 1943, perto do final das conversões, foi recebida na Igreja pelo Bispo de Mainz. Mesmo como protestante já sentia uma grande proximidade com a Igreja Católica: não só através do amor por Maria, a quem dedicou a sua própria casa, mas também através das intensas orações para o Papa (especialmente na hora da morte de Pio XI), que reconhecia como pastor comum da Igreja diante do poder das trevas.

A confirmação de seus pensamentos – em parte de natureza visionária – só veio através de suas ações. Nos anos de 1920 teve o carisma de cura, mas percebeu-o como uma distração de seu dever espiritual e intelectual e pediu a Deus que o tirasse (sendo ouvida). É preciso ressaltar que para ela os fenômenos sobrenaturais não importavam; era importante apenas resistir à escuridão e, mais especificamente, compreender que a escuridão já havia sido vencida. “O mundo não está mais escuro”, dizia agradecida e sabedora, com uma certeza: “Cristo é a única realidade”.

O terceiro exemplo é uma mulher católica de Vestfália, Nanda Herbermann (1903-1979). Trabalhou como secretária do famoso padre jesuíta Friedrich Muckermann e para sua revista “Der Gral”. O Padre Muckermann, hostil aos nazistas, já em 1934 teve de fugir para a Holanda, onde publicou outra revista antinazista “Der deutsche Weg”, enquanto Herbermann continuava a publicação do “Der Gral” em Münster (onde conheceu Edith Stein, a quem enviou um cartão postal, em 1933).

De fevereiro a agosto de 1941 Nanda passou por intensos interrogatórios e foi presa em isolamento em Münster; a Gestapo suspeitava que ela transportasse mensagens entre Muckermann e o bispo Von Galen, que mais tarde se tornaria famoso. “As semanas depois da Páscoa – escreve – tornaram-se para mim um verdadeiro calvário por causa dos longos e angustiantes interrogatórios da Gestapo (…). Muitas vezes acordava e rezava por horas, deitada no chão. O pensamento da expiação preenchia todo o meu ser”. Com o insucesso em quebrar seu silêncio, Nanda foi enviada para o campo de concentração de Ravensbrück, onde logo se tornou a “velha chefe” (Blockälteste), responsável por um barracão com quatrocentas prostitutas. Ficou no campo um ano e meio, até março de 1943, quando, graças à intervenção de sua família, foi solta. Suas incríveis e comoventes memórias foram publicadas logo depois da guerra.

Por que sobreviveu e por que quis relatar esses meses de horror? No final do livro indica duas razões para aquelas dolorosas memórias: “Eu quero descrever a vida que suportava um prisioneiro da Gestapo e da SS no Terceiro Reich; quero descrevê-la de forma tão objetiva e próxima à realidade que possa oferecer a cada leitor uma visão clara dessa vida no inferno. Mas existe uma segunda e mais importante razão para publicar estas notas: o povo alemão é agora acusado por todos de ser responsável pelas coisas abomináveis e terríveis que ocorreram nos campos de concentração. Não é justo. Eu não quero fazer aqui um processo e julgar, mas seria bom se todos os que lerem este livro olhassem cuidadosamente para si mesmos e examinassem suas consciências. Quem não tiver sangue nas mãos deveria usar suas forças junto com a gente (…) para que a nossa Alemanha possa renascer na honra (…). Queremos corrigir o que foi feito na Alemanha, pelos alemães aos alemães e a centenas de milhares de estrangeiros inocentes (…) com assassínios e injustiças que bradam aos céus. Nós sobreviventes temos este dever sagrado, bem como o dever da expiação, aos olhos de Deus e do mundo. É um fato real, e o mundo vai entendê-lo depois de nosso tempo de expiação: não é possível e não se deve simplesmente identificar os alemães, como povo, com esses criminosos nazistas”.

Certa vez Herbermann escreveu não ser mais capaz de derramar lágrimas; não tinha mais forças para chorar. Mas, mesmo nessa paralisia, em sua mente continuou a arder a pequena chama de levar toda aquela indescritível dor aos pés de Jesus, e depositá-la ali, para seu uso e de quem o precisasse.

Há algumas décadas está em curso um debate teológico sobre o termo expiação. É realmente eficaz assumir a carga das culpas alheias e tentar parar um raio? A expiação significa literalmente: oferecer penitência em nome de terceiros. De acordo com São Paulo esta é a razão mais profunda para a encarnação de Cristo. É um pensamento insondável e nós somos parte do seu mistério. Não só somos expiados como pecadores, mas podemos nos somar à expiação juntamente com Cristo. Sempre que há lágrimas, também podem se misturar lágrimas de alegria por essa possibilidade em nome de outras pessoas.

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