A ex-esquerda caiu por sua derrota ideológica

“A ex-esquerda sucumbiu por ignorância ou subestimação do conceito de ideologia e a consequência direta da falsa ideia de hegemonia na sociedade brasileira”, afirma Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e relações internacionais.

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Segundo ele,  a ex-esquerda passou “pela doença de um certo “hobbesianismo distributivista”, e muito além não vai o pensamento de tradição stalinista e também neovarguista. Neste segundo, tendo como aliados os primeiros, localizo a posição ideológica do ex-presidente Lula e do fenômeno do lulismo. E, assim como em 1954, perde-se tudo por não entender o tipo de sociedade pós-colonial onde nos encontramos. Ou pior. Perde-se tudo por acreditar na institucionalidade burguesa mais do que a própria oligarquia nacional e os estamentos que agora se aventuram na tomada do poder de Estado (tal como magistrados e procuradores)”.

Eis o artigo.

Afirmo de maneira categórica: A ex-esquerda sucumbiu por ignorância ou subestimação do conceito de ideologia e a consequência direta da falsa ideia de hegemonia na sociedade brasileira. Como também afirmo há tempos, chegando ao ponto da exaustão por repetição do conceito, não trato da hegemonia de tipo superficial ou rasteira, quando se entende – de maneira equivocada – a “ter hegemonia” a simplesmente impor alguns nomes para certos cargos-chave em instituições importantes dentro de uma sociedade estruturalmente desigual. Isso não é hegemonia, talvez hegemonismo, velho vício das esquerdas encantadas com a tentação autoritária.

Ouso afirmar que passamos ainda pela doença de um certo “hobbesianismo distributivista”, e muito além não vai o pensamento de tradição stalinista e também neovarguista. Neste segundo, tendo como aliados os primeiros, localizo a posição ideológica do ex-presidente Lula e do fenômeno do lulismo. E, assim como em 1954, perde-se tudo por não entender o tipo de sociedade pós-colonial onde nos encontramos. Ou pior. Perde-se tudo por acreditar na institucionalidade burguesa mais do que a própria oligarquia nacional e os estamentos que agora se aventuram na tomada do poder de Estado (tal como magistrados e procuradores).

Enfim, perde-se o Poder Executivo por não acreditar em nenhum momento em criar ou reforçar agentes coletivos com poder de veto. Logo, perde-se o Poder Executivo Pós-colonial, criollo e burguês por não querer nada com o Poder Popular.

Muito se há especulado a respeito da perda absurda do poder por parte do segundo governo Dilma (2015-2016). Podemos realçar o papel das empresas de marketing digital e centro de fomento do neoliberalismo; também a função estratégica da mídia massiva para formar um novo consenso conservador; a ação do imperialismo através da Operação Pontes e com a instalação da Força Tarefa da Lava Jato (praticamente incontrolável e em cooperação direta com os EUA); e obviamente a ação traidora do ex-aliado político, encabeçado pelo vice-presidente eleito e reeleito com a ex-ministra da Casa Civil de Lula. Mas, insisto, a ação do inimigo estratégico era subestimada pelo lulismo, que a via apenas como adversário circunstancial. Logo, ao não assumir a impossibilidade de uma aliança de longo prazo e consequente “defesa da estabilidade institucional”, Lula, Rui Falcão, José Dirceu e outros dirigentes de peso, conseguiram impor seu consenso e autoconvencimento sobre uma legenda com milhares de filiados, mas com pouca democracia interna na tomada de decisões centrais.

A derrota ideológica passa por confiar em demasia e não ter um trunfo, uma carta na manga. Ninguém em sã consciência pode se “surpreender” com a conduta de Michel Temer – a começar pela carta onde este se apresenta como “candidato” em pleno exercício da Vice Presidência – sendo este operador filho político de Adhemar de Barros e projetado nacionalmente através de Orestes Quércia. Considerando que a Direção Nacional do PT e o próprio Lula têm carreira em São Paulo, não se pode alegar desconhecimento ou má interpretação. Vou além no raciocínio.

A derrota ideológica é uma posição de antemão, onde um dos agentes centrais em um conflito simplesmente o nega, por supor que o antigo inimigo já não o considera mais “inimigo” por este tentar se apresentar como “fiável e comportado”. Ocorre que basta um mínimo de compreensão das sociedades concretas da América LatinaBrasil incluído e não fora, como se estivéssemos de costas para o Continente – para verificar que a mesa pode ser virada a todo instante. Se não bastassem nossos mais que convincentes processos históricos, bastava observar os golpes brancos, institucionais e bem sucedidos de Honduras (com a deposição de Manuel Zelaya Rosales (eleito em janeiro de 2006 e derrubado com o aval da Suprema Corte em junho de 2009) e Paraguai (quando o então presidente Fernando Lugo, assumiu em agosto de 2008 e derrubado após um controvertido impeachment em junho de 2012). Como a arrogância e a prepotência são filhas diretas do exercício do poder político, imaginaram que “no Brasil não ocorrem mais destas coisas; não somos uma republiqueta”. Não, claro que não. O Bananão se afirmou por cima das instituições e o estamento togado trouxe para si o papel de Poder Moderador, legislando por jurisprudência e súmula vinculante.

Mídia, bestialização e a ausência das ideias de câmbio

“E o povo bestializado, assistiu à proclamação da tal da república”. Assim encerra a narrativa clássica dos que acompanharam o golpe militar de 15 de novembro de 1889, quando o gabinete da Guerra derruba a monarquia brasileira a quem o marechal Deodoro da Fonseca servia. A mudança de regime político sempre tende a ser um momento traumático para operadores, elites em disputa ou setores de classe dominante perdendo interesses diretos. Mas, para a maioria, ainda quando há alguma inclinação popular no governo de turno, se esta não for organizada na defesa de suas bandeiras e conquistas diretas, a tendência é se dedicar a sobrevivência diária. Na ausência de sujeitos sociais com organicidade e referências desde a base, o povo brasileiro, infelizmente, percebe os sintomas dramáticos apenas quando se sente atingido. É como alguém caminhando no escuro e recebendo murros, sentindo as dores, mas não reconhecendo quem golpeia.

Quando temos um país com sujeitos sociais desorganizados, mesmo sendo estes são beneficiados por programas de governo, não é a melhoria material que vai levar a uma significação ou câmbio de consciência. Assim, ainda que a vida melhore, a maioria vai perceber que o dinheiro em conta, o emprego direto e os benefícios materiais vão implicar em mais trabalho e compromisso, e não em mudança ideológica. Por um período, estes beneficiados terão alguma identidade com o líder carismático – no caso, o ex-presidente Lula. Mas, assim que o modelo começa a ruir, o voto cativo fica “liberto”, em geral caindo na abstenção, branco ou nulo, conforme se verificou no primeiro turno das eleições municipais de 2016.

Como a vida cotidiana de amplas camadas das classes C e D melhoraram, mas não ao ponto de transformar as relações cotidianas, e nem mesmo diminuindo significativamente os índices de violência urbana, a identidade política com o “ex-sindicalista que nunca foi de esquerda” (frase do próprio Lula) não chega ao ponto de ser totalmente transferida para a sucessora. A ruína do modelo macroeconômico caminhou lado a lado e foi impulsionada pela permanente exposição seletiva e julgamento midiáticos, com foco no “conjunto da obra” do lulismo. Diante da possibilidade de subordinar o governo que fez de tudo para agradá-los, os conglomerados de mídia, liderados pela Globo e secundados por Estadão, Folha e Abril, costuraram o consenso conservador, auxiliados pelos neoliberais no andar de cima e os neopentecostais na base da pirâmide social. Deu no que deu.

Apontando a conclusão óbvia

Na ausência de organização social, é impossível defender práticas indefensáveis sem sequer entender a perda de direitos que já está ocorrendo. Para organizar a maioria, é urgente construir, pouco a pouco, um novo consenso dos sujeitos sociais que conformam esta maioria, apontando para a defesa de interesses e identidade popular totalmente antagônica às representações simbólicas da classe dominante colonizada.

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