Fé e razão em Richard Swinburne

Entrevista com Richard Swinburne*: Fé e Razão podem ser facilmente reconciliadas

Fonte: Revista IHU OnLine Instituto Humanitas Unisino

Colega de Richard Dawkins em Oxford, o filósofo inglês Richard Swinburne disse que “há boas razões para supor que as doutrinas cristãs sobre Deus são verdadeiras e, por isso, no sentido de crença e razão, elas podem ser facilmente reconciliadas. A razão dá sustentação à verdade”. Por telefone, ele discutiu com a IHU On-Line as idéias da obra Deus, um delírio e argumenta que, “embora exista um e outro cientista proeminente e ‘barulhento’ como Richard Dawkins”, tem dúvidas se a maioria dos cientistas no mundo são ateístas ou não. Um dos conjuntos fundamentais de argumentos de Swinburne “para a existência de Deus é a regularidade do universo. Por que alguém deveria ter objeções à descoberta da verdade, especialmente se a verdade é toda sobre Deus? A questão é o que nós fazemos com esse conhecimento e há perigos óbvios nesse tipo de conhecimento que podem ser usados para maus usos”. Otimista, ele espera que o “cristianismo possa promover paz e reconciliação entre diferentes comunidades e países” e acredita: “Se recuperarmos o espírito dos evangelhos, tenho certeza que o cristianismo pode ser, como está se tornando novamente, uma comunidade reconciliadora”. A entrevista foi concedida por Swinburne à IHU On-Line por ocasião de sua estadia em Natal, Rio Grande do Norte, quando foi o conferencista de abertura e encerramento do Seminário de Filosofia Analítica Contemporânea, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

IHU On-Line – Fé e razão podem ser conciliadas? Como?

Richard Swinburne – Eu acho que não existe problema entre conciliar esses dois campos. Há bons argumentos para a existência de Deus e, se você quiser, vou descrevê-los.

Penso que há boas razões porque Deus deveria permitir que todo o sofrimento que ocorre nesse mundo ocorra. Então, todos os argumentos dão sustentação à existência de Deus, não como certa, mas como provável. E é mais provável do que improvável. Eu acredito que há também bons argumentos para as doutrinas particulares da religião cristã, porque há bons argumentos para o tipo de pessoa que viveu a vida que Jesus viveu, e cuja força da vida culminou com o milagre da ressurreição para a qual eu penso que existem evidências históricas significativas. Isso constituiu o sinal de Deus naquela vida, assim como nos seus ensinamentos e na igreja que ele fundou.

Penso que, por esses dois conjuntos de razões, há boas razões para supor que as doutrinas cristãs sobre Deus são verdadeiras e, por isso, no sentido de crença e razão, elas podem ser facilmente reconciliadas. A razão dá sustentação à verdade. Nas propostas da religião cristã, fé não é bem a mesma coisa que crença. Fé é colocar sua confiança em alguma coisa. E este é um ato voluntário. E, mesmo se você tem boas razões para crer que existe um Deus, você pode decidir não depositar sua confiança nele. Mas isto seria uma coisa tola e errada de se fazer, mas mesmo assim pode ser feito.

IHU On-Line – Os cientistas precisam, necessariamente, ser ateus? Por quê?
Richard Swinburne –
Certamente que não. E embora exista um e outro cientista proeminente e “barulhento” como Richard Dawkins, eu tenho minhas dúvidas se a maioria dos cientistas no mundo são ateístas ou não. Mas, certamente, uma minoria muito significativa não é ateísta, e eu realmente não vejo nenhum conflito aí. Um de meus conjuntos fundamentais de argumentos para a existência de Deus é a regularidade do universo, e isto é um fato. Cada átomo no universo se comporta exatamente do mesmo modo, e os cientistas descobriram que modo é esse. Além disso, eles descobriram que muito mais partículas no universo se comportam de forma diferente do que acreditávamos antes. E eles descobriram que a maneira como essas partículas se comportam, ou seja, as leis mais fundamentais da natureza são tais que levam à evolução dos seres humanos desde o estado inicial do universo. Então, eu acredito que descobertas científicas nesse sentido são evidências positivas da existência de Deus.

O outro sentido é que, até 1900, cientistas tendiam a acreditar que o universo era determinista, ou seja, que todo evento era totalmente causado por eventos prévios. E, desde o surgimento da teoria quântica, isso é realmente muito duvidoso e por isso há um certo jogo, um certo indeterminismo na natureza. E assim, se nós quisermos exercer nosso livre arbítrio, nós precisamos de um certo indeterminismo na natureza, e esse Deus deve intervir nessa ordem natural sem violá-la, precisando de um tipo de indeterminismo na natureza. Então, penso que os desenvolvimentos dos últimos cem anos são evidências positivas para a existência de Deus.

IHU On-Line – Autoridades eclesiásticas acusam Craig Venter, o cientista conhecido pelo mapeamento do genoma humano, de querer competir com Deus. O homem contemporâneo pode, efetivamente, “brincar de Deus” ou mesmo competir com ele? Por quê?
Richard Swinburne –
Eu não estou preocupado com isso. Na medida em que ele está recém descobrindo o genoma humano, está descobrindo fatos científicos interessantes sobre como Deus fez nossos corpos. Por que alguém deveria ter objeções à descoberta da verdade, especialmente se a verdade é toda sobre Deus? A questão é o que nós fazemos com esse conhecimento. Há perigos óbvios nele, e que podem ser usados no mau sentido. Se descobrimos que alguém tem um gene que os cientistas pensam que é uma coisa ruim, eles poderiam produzir um aborto mesmo mais adiante na gravidez, e eu acredito que isso seria uma coisa muito ruim – destruir um ser racional já existente. Então, nós precisamos ser cuidadosos com o uso, mas não consigo ver nada de errado em possuir o conhecimento.

IHU On-Line – Por que é importante sabermos se Deus existe, ou não?
Richard Swinburne –
Se é verdade que Ele não nos fez meramente, mas nos mantém existindo a cada momento, ele é a causa elementar/derradeira para nossa existência e nós temos enormes razões para sermos agradecidos a ele, só para começar. E, assim como crianças humanas devem obediência limitada aos seus pais, nós devemos obediência ilimitada a Deus. Quero dizer, à medida que bons pais, não apenas pais biológicos, mas pais de criação, mantêm a criança existindo e fornecem a ela educação e nutrição, eles têm o direito de esperar que os filhos façam certas coisas, não porque elas são boas em si, mas porque não foi solicitado pelos filhos que fizessem isso. E, por isso, se existe um Deus, nós devemos-lhe gratidão, louvor e serviço. Se ele nos pede para fazer certas coisas, isso nos impõe uma obrigação. Então, isso importa muito.

IHU On-Line – Os teóricos da morte de Deus acertaram em sua previsão ou erraram? Se erraram, qual é o lugar de Deus na sociedade contemporânea?
Richard Swinburne –
Bem, se isto era pra ser uma previsão de que a religião está se extinguindo, por enquanto, ela falhou. Eu não sei se há mais pessoas que acreditam em Deus, ou menos, do que na época de Nietzsche. O que eu posso dizer é que a população do mundo cresceu consideravelmente e houve um grande crescimento do cristianismo na África e alguns países da América Latina. Eu diria que provavelmente a previsão estava errada. Mas se o cristianismo ou outra religião teística decaíram ou não, não é o ponto crucial.

IHU On-Line – Que cristianismo é possível em nosso tipo de sociedade?
Richard Swinburne –
Eu espero que o cristianismo possa promover paz e reconciliação entre diferentes comunidades e países. Nos primeiros 400 anos da existência da Igreja Cristã, ela não aplicou violência para derrubar regimes, aplicou reconciliação entre grupos em competição. A história do cristianismo, principalmente do cristianismo ocidental na Idade Média, não é uma boa história em relação a isso. Mas, claramente, qualquer um que lê os evangelhos e os ensinamentos da igreja primeva vai perceber que qualquer tentativa de estabelecer um estado cristão pela força e obrigar pessoas a acreditar em coisas está totalmente fora da linha do ensinamento cristão tradicional. Se recuperarmos o espírito dos evangelhos, tenho certeza que o cristianismo pode ser, como está se tornando novamente, uma comunidade reconciliadora. Reconciliadora entre países, entre tradições irracionais, entre grupos. Isso não significa que ele não suponha uma verdade dogmática no que as pessoas deveriam acreditar, não como resultado da força, mas como resultado de discussão racional e colocar isso em prática para trazer a paz entre as famílias. Esta é sua chance. Se a Igreja falhou no passado, ela pode fazer melhor agora.

IHU On-Line – Como o igualitarismo e a democracia podem se consolidar numa sociedade como a contemporânea?
Richard Swinburne –
Talvez eu não seja a pessoa mais adequada para responder a essa pergunta. Certamente nos seus primórdios, a Igreja tinha certas opiniões sobre como as pessoas deviam se comportar nas suas relações morais com os outros. Isto não se aplicava a nenhuma forma de governo em particular. É reconhecido que você deve pagar impostos ao Estado e que o Estado deve ter um sistema jurídico justo, mas, afora isso, eu não penso que a Igreja tenha muito a dizer. Isto não quer dizer que pensadores cristãos que refletem sobre as condições de nossa sociedade não possam sugerir que cristãos criem um tipo de governo, um tipo de lei. Talvez eles possam, mas isso não é uma coisa sobre a qual eu pensei o suficiente para expressar uma opinião.

IHU On-Line – Como podemos entender a tentativa de Dawkins de combater o fundamentalismo religioso através de um fundamentalismo ateísta?
Richard Swinburne –
Bem, eu posso entender o fenômeno Dawkins. Ele depende do tipo de pensadores americanos que foram influenciados pela dominância de um certo tipo de fundamentalismo religioso, especialmente nos Estados Unidos. Acredito que o cristianismo está comprometido com a visão de que o mundo tem apenas cerca de 6 000 anos e tudo o que os cientistas nos disseram sobre evolução é falso. Alguém como Dawkins e outros pensadores estão tão impressionados pela total irracionalidade disso, o que eles associam ao cristianismo e outras religiões teísticas como um todo, que eles sentem a necessidade de manifestar-se furiosamente. Mas, do meu ponto de vista, a religião cristã não está de forma alguma comprometida com a idade do mundo ser de 6 000 anos. Se esses pensadores estivessem familiarizados com isso, eles não estariam dizendo as coisas que dizem, por exemplo. Se lessem um livro como os comentário sobre Gênesis de Agostinho e qualquer coisa escrita por Gregório de Nice sobre a origem, eles teriam visto que essas pessoas estão muito preocupadas que os primeiros capítulos de Gênesis não deveriam ser interpretados de forma incompatível com a ciência grega que prevalecia naquela época. Nós devemos interpretar Gênesis à luz das outras coisas que sabemos, incluindo o que eles consideravam ciência moderna, ou seja, a ciência grega contemporânea, porque Deus era o autor de quase todo mundo natural.

IHU On-Line – Minha última pergunta volta ao início da nossa entrevista, sobre quais são os seus argumentos para a existência de Deus.
Richard Swinburne –
Bem, eu penso que os argumentos para a existência de Deus são cumulativos. Ou seja, temos que tomá-los juntos e cada um deles num grau significativo de probabilidade para a conclusão, da mesma forma que uma teoria científica eles são explicados pela teoria todos juntos. Uma coisa que precisa ser explicada, em primeiro lugar, é por que existe um universo físico, por que existe essa enorme quantidade de pedaços de matéria. Segundo, por que todos esses pedaços de matéria se comportam todos da mesma maneira, por exemplo, todos se atraem da forma como Newton descreveu, mas com uma matemática um pouco mais complicada. Mas, mesmo assim, cada partícula exerce exatamente a mesma atração gravitacional proporcional à sua massa sobre todas as outras partículas do universo. Há uma enorme coincidência aqui. Isso é algo que exige explicação. Então, a pergunta permanece: por que levar à evolução do ser humano quando a maioria desses arranjos não levaria a isso.

Outras coisas também pedem explicação. Pessoas fazem coisas porque elas têm crenças a respeito de como o mundo é, além de metas. Elas tentam mudar o mundo à luz das suas crenças e têm metas, poderes limitados no mundo. Então, a noção de uma pessoa é a noção de um ser com poderes, metas e crenças. Deus é o tipo mais simples de pessoa que pode existir porque Ele tem poderes, mas não são poderes limitados, são ilimitados. Portanto, Ele é um ser de poderes infinitos. Ele não é influenciado por causas ou inclinações irracionais. Ele sempre faz coisas porque elas são boas. E, assim, nós temos uma explicação possível para todas essas coisas em termos da explicação mais simples de pessoa que pode haver com poderes, metas e crenças. Por que Ele deveria fazer tudo isso? Bem, como eu digo, nós somos uma coisa boa e o que é único a nosso respeito é que nós temos um tipo de poder, um tipo de qualidade que Deus não tem. Nós podemos fazer escolhas entre o bem e o mal. É uma boa coisa que existam seres que possam fazer esse tipo de escolha, que possam decidir o próprio destino. É uma coisa que Deus não tem, ou seja, Deus não pode fazer nada errado.

*Professor de Filosofia da Religião Cristã na Universidade de Oxford, é um dos mais prestigiados especialistas daquela área. Swinburne é autor de inúmeras obras, entre elas The resurrection of God incarnate (Oxford: Clarendon Press, 2003); The existence of God (2. ed. Oxford: Clarendon Press, 2004) e Faith and reason (2. ed. Oxford: Clarendon Press, 2005). Em língua portuguesa, destacamos Será que Deus existe? (Lisboa: Gradiva, 1998)

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