O Desafio de Bonhoeffer: A Crise da Religião e a Autonomia do Mundo (Parte II)

O Desafio de Bonhoeffer: A Crise da Religião e a Autonomia do Mundo (Parte II)

Ser cristão não significa ser religioso de certa maneira, tornar-se alguém (um pecador, um penitente ou um santo) com base em alguma metodologia, mas significa ser pessoa; Cristo não cria em nós um tipo de ser humano, mas o próprio ser humano.                                              16.7.45

 

 


Um fenômeno é muito constatado em locais com situações: emergente ascensão de classes sociais em novas condições econômicas mais favoráveis, mantendo-se contudo uma estrutura desigual ou que marginaliza muitos outros componentes da sociedade circundante – onde se vê religiões ainda com um forte cumprimento de função de conferir coesão social mínima a este estado de coisas. Às camadas mais altas e/ou ascendentes, justificação, sendo favorecida pelos poderes espirituais que lhe dão pleno direito e se comprazem em estar na sua condição favorecida, lhes outorgando todos os méritos – desde que cumpridas algumas condições rituais e obrigações para com os líderes religiosos e sua instituição. Para as camadas mais baixas, a ideia de algo em si e na sua vida que fez com que não tenha mérito em ter seu quinhão no bolo – que é bom lembrar, não é para a todos mas, no discurso, é “para qualquer um” – e que expurgar-se na frequência dos rituais, as portas poderão ser abertas. Os que conseguiram seu lugar ao sol satisfizeram as forças espirituais. Há ainda meios, oportunidades, possibilidades, recursos, que o mundo produziu para proporcionar mais bem-estar e alívio, para pessoas das camadas mais baixas e também para aquelas de extratos médios ascendentes ou já tradicionais, que não estão ao seu alcance; diferente de outras épocas, é inadmissível aceitar que se tenha produzido condições no mundo hoje de superar a situação em que se encontra (ou atingir uma dada condição anelada), mas não esteja acessível para a pessoa.

As crenças prometem meios mágicos ou místicos diversos para se obter o que se anseia. Tais crenças e sistemas religiosos podem estar mais ou menos organizadas, centradas em templos, comunidades, ou podem ser menos sistematizadas e de adesão mais individualista e não associada, podem remeter-se mais a divindades, ou a conceitos mais etéreos; englobam versões adaptadas de religiões tradicionais, crenças exotéricas ligadas a autoajuda, misticismos com apropriação de termos e conceitos científicos, arengas mais vagas com empréstimos de filosofias zen, etc.


No caso cristão, a chamada Teologia da Prosperidade e semelhanças, em igrejas carismáticas em confissões tradicionais ou igrejas neopentecostais, constitui-se o exemplo do discurso religioso mais adaptado e sintonizado com o espírito e verniz do caráter social de nosso sistema e nosso tempo. Estimula desejos de se pautar existencialmente encontrando satisfação com as exigências culturais para o bom funcionamento da economia e estabilização política dela. É a mais bem adaptada, ajustada, consubstancial e integradora para os indivíduos na lógica, nos mecanismos de incentivos, recompensa, vergonha, autossatisfação e marginalização do sistema. Não se admira que assim, sejam as numericamente e materialmente mais bem-sucedidas. Propiciam meios para catarses individuais e coletivas ante as frustrações e stress do cotidiano na sociedade atual. Se norteiam e caracterizam-se pelas funcionalidades descritas mais logo acima. Exigem muito pouco em termos de constituição de racionalidades e corpos doutrinários que possam se chocar com o que é essencial na organização capitalista. Ao mesmo tempo criam uma certa agregação social sem confrontar o atomismo social da sociedade de consumo. O ideário religioso é adequado, apropriado e trabalhado para servir como ponte entre a a estrutura socioeconômica e os fetiches e ideias catalizadores para o comportamento que mantêm o funcionamento regular do sistema. Há um estímulo à aplicação intelectual pragmática no que é tocante ao sucesso material e sucesso nos padrões hierárquico-simbólicos do sistema social. Há um grande desestímulo intelectual, e mesmo o fomento a um obscurantismo subcultural pró-ativo, no engajamento ante a apreensão cognitiva analítica/sistematizadora das estruturas e processos naturais, sociais e culturais.

É onde reside um ponto a que remetemos a conjuntura de Bonhoeffer e sua provocação. Fazendo uma sintética recapitulação do contexto: Bonhoeffer fazia parte de um conjunto articulado de teólogos e lideranças pastorais que se insurgiram contra uma síntese religiosa cristã predominante em seu tempo que desembocou na adesão ao programa oficial do Partido Nacional Socialista, embora não fosse o horizonte definido dela. A chamada escola do “liberalismo teológico”, embora devamos tomar cuidado porque a experiência e tradição histórica do “liberalismo teológico” é muito mais ampla e rica do que essa delimitação.

“Epifania I :Adoração dos Magos” – de Gottfried Helnwein

Se constituía na “Religião do Sistema”: ao mesmo tempo que se propunha a uma “simplificação dogmática” que entendiam obstaculizar a mensagem principal da fé cristã, a “fraternidade universal”. Enfatizavam o caldeirão de potencialidades positivas que era o homem. Incorporaram a teologia a conceitos idiossincráticos da conjuntura moderna, como o Progresso Histórico Imanente e Inexorável. Seus conclames giravam em torno da concepção de uma “religiosidade inata” no ser humano, que seria ali configurada e canalizada para promover a unidade espiritual da nação. Serviria para dar suporte motivacional para o senso de dever dos cidadãos às instituições nacionais. Desta forma, a teologia ficava submissa à agenda dos aglutinadores ideológicos da conjuntura que, embora condicionada, era vista e propalada como universalista e realizadora da história.

Em reação a isto se constituiu a Igreja Confessante, que reafirmava princípios fundamentais do cristianismo e os contrapunham à pregação da Igreja Oficial de coadunar o cristianismo à ideologia do Estado, usando o Evangelho para se contrapor. Contudo, Bonhoeffer foi se contrariando por ela se afirmar em linguagem e conclames apolíticos especificamente religiosos internos à igreja.

As tentações dos cristãos que não se conformavam ao “liberalismo” a isto era o fundamentalismo, ou uma negação incondicional da modernidade em todos os pontos que se considere que a fé tradicional se sentisse constrangida; este é um aspecto. Outro aspecto é a religião buscar dimensões compartimentadas que estivessem “seguras” da autonomia do mundo. Também, que se buscasse usar de artifícios psicológicos para inculcar desespero interior, pânico ante a vida e fraqueza mental nas pessoas para elas terem como último recurso se escorar no discurso religioso. Podemos ver que são “tentações” frequentemente usadas como ferramentas estratégicas para diversas igrejas e pregadores.

Onde há saúde, força, segurança, simplicidade, eles farejam um fruto maduro para roer ou pôr seus ovos ruinosos. Seu objetivo inicial é levar o ser humano ao desespero interior, e então a parada está ganha. (…) Considero como o ataque da apologia cristã à maioridade do mundo primeiro como sem sentido, segundo como deselegante, terceiro como não cristão. Sem sentido, porque ele me parece como a tentativa de fazer retroceder à puberdade uma pessoa que se tornou adulta, ou seja, torná-la dependente de coisas das quais ela, de fato, não mais depende, lançá-la em problemas que para ela, de fato, não são mais problemas. Deselegante, porque aí se tenta explorar a fraqueza de uma pessoa para fins estranhos a ela, com os quais não concordou livremente. Não cristão, porque Cristo é confundido com um certo estágio da religiosidade do ser humano, ou seja, com uma lei humana                                                        – 8. 6. 44

Onde ele bradara o seu desafio profético que abre nossa reflexão. Uma chamado a um cristianismo “arreligioso” [diferente de irreligioso]. Sem Deus como tapa-lacunas do conhecimento, abstendo-se e prevenindo-se do obscurantismo; sem religiosidade como muleta, alienação escapista ou como em contraparte, argamassa social; sem usar do recurso de forçar alguém ao desespero eminentemente emocional [citar]; incitar à postura altera, responsável, consciente e madura no mundo. O engajamento em Cristo ser embebido e estar imanente no encarar e lidar da vida social, familiar, política, econômica, sabendo lidar com os termos a que estas esferas se propõem por si mesmas, não querendo acrisolar em particularidades da linguagem religiosa . Não promover nem a identificação, nem a clivagem, entre “espaço sagrado” e “espaço profano”. “(…) aprender a con-viver”: (…) não se postar como espectador, avaliador, juiz fora dos processos da vida; con-viver (…) a partir da plenitude dos motivos vitais” e “na plenitude das tarefas e dos processos concretos da vida com a sua infinita diversidade de motivos”. 
– De seu livro “Ética“.

As disciplinas espirituais, sacramentos, oração, leitura e estudo da Bíblia, louvor, etc., são vistos não como um ponto de aparte do mundo, mas como para dar força pulsional para o serviço no mundo. A isto ele retomava o conceito de “disciplina arcana”, em que as disciplinas eram algo a se guardar com cuidado na comunidade de fé e ministrado àqueles que se compromissaram com o caminho cristão, para se alimentar de sua essência, e não ser profanada servindo como atração cultural para o mundo. Atentando para Deus como participando, sofrendo na história e compartilhando das lutas nela, não como apartado ou, por outro lado controlando tudo como um Titereiro Transcendente. “Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz. (…) A religiosidade do ser humano o remete, na sua necessidade ou aflição, ao poder de Deus no mundo, Deus é o deus ex machina [ i. e., “o deus que surge mecanicamente”]. A Bíblia remete o ser humano à impotência e ao sofrimento de Deus; somente o Deus sofredor pode ajudar”. 16.7    “Pessoas buscam Deus na sua necessidade (…) cristãos ficam com Deus na Sua paixão” – do poema “Cristãos e pagãos”- constante em “Resistência e Submissão”.

A igreja deve sair de sua estagnação. Devemos voltar ao ar livre do confronto espiritual com o mundo. Devemos correr o risco inclusive de dizer coisas contestáveis, se isso possibilita levantar questões de importância vital. Como ‘teólogo moderno”, que entretanto leva ainda consigo a herança liberal, sou obrigado a tirar de debaixo do tapete tais questões. Entre os jovens, não haverá muitos que consigam reunir em si as duas coisas. Cartas do Cárcere, 3-8-1944.

O cristianismo está hoje aguda e profundamente re-confrontado com isto. De forma inapelável e impossível de escamotear e postergar. Como peitar de frente a instigação a esta responsabilidade, não tendendo à queda pragmática/utilitarista das práticas da Teologia da Prosperidade e Apelações de Manipulação Emotivista que tanto “sucesso” (por enquanto) fazem?

Encontramos tentações no caminho semelhantes: em um extremo, ser pautado pela busca de “relevância”; não há algo que fica ultrapassado mais rápido do que o “relevante”. Em outro extremo, se “refugiar” centrando-se novamente na dita “salvação individual”.

Redenção significa agora redenção das preocupações, das aflições, dos medos e anseios, do pecado e da morte em um além melhor. Mas seria isto de fato o essencial da proclamação de Cristo nos evangelhos e em Paulo? Discordo disso. A esperança cristã na ressurreição diferencia-se das mitológicas pelo fato de remeter o ser humano à sua existência sobre a terra de maneira inteiramente nova e radicalizada em relação ao Antigo Testamento. Diferentemente dos devotos dos mitos de redenção, a pessoa cristã não tem sempre ainda à disposição uma última escapatória das tarefas e dificuldades terrenas para dentro da eternidade, mas tem de degustar plenamente a vida terrena, assim como fez Cristo (‘meu Deus, porque me abandonaste?’) e somente ao fazer isto o Crucificado e Ressuscitado estará com ela e ela, por sua vez, estará crucificada e ressuscitada com Cristo. O aquém não pode ser abolido prematuramente. Neste ponto, o A.T. e o N. T. Permanecem unidos.                                       – 27.6.44

E como poderemos a delinear contornos para propostas? Creio que de forma primária, os primeiros passos devem ser dados analogamente ao que conhecemos como “via apodítica”: antes de sabermos “o que é”, sabermos “o que não é”. E para auxiliar nisto, tomarei como um brevíssimo estudo de caso iluminador, um “causo” pitoresco dos tempos dos juízes no povo hebreu, extraído do livro homônimo constante na Bíblia, “Juízes”. Elucida enormemente em que termos tem-se grande parte dos fenômenos de “conversão” e adesão religiosa no rosto majoritário das igrejas hoje.

Livro dos Juízes, capítulo 17:

Este homem, Micas, tinha uma casa de Deus; ele fez um ‘efod’ e ‘terafim’, e deu a investidura a um dos seus filhos, que veio a ser seu sacerdote.
(…)
Havia um jovem de Belém, em Judá, do clã de Judá, que era levita [ i. e. da tribo de Levi, dedicados a organizar e ministrar o culto e louvores] e residia ali como estrangeiro. Esse homem deixou a cidade de Belém, em Judá, para estabelecer-se como estrangeiro onde pudesse. No curso da sua viagem, chegou à montanha de Efraim, à casa de Micas, que lhe perguntou: ‘De onde vens?’ _ Eu sou levita de Belém de Judá – respondeu-lhe. _Ando em viagem a fim de me estabelecer como estrangeiro onde puder.
‘Fica comigo’, disse-lhe Micas. ‘Sê para mim pai e sacerdote e te darei dez siclos de prata por ano, vestuário e sustento’. O levita foi. Concordou em ficar com este homem, e jovem foi para ele como um dos seus filhos. Micas deu a investidura ao levita, e o jovem se tornou seu sacerdote e ficou morando na casa dele. ‘E agora’, disse Micas, “eu sei que Yahweh me fará bem, porque tenho um levita como sacerdote‘. ”

Veja-se bem. Com símbolos, amuletos, ritos e sacerdote profissional, a pessoa domestica Deus pactuando que ele sirva para lhe conferir boa sorte. Reduzira as incertezas inerentes da vida e se associara com poderes mágicos para ela adquirir uma lógica mais segura para se estabelecer nela. Está configurado o convênio, o contrato.

Adiante no livro, vemos um grupo de batedores de uma tribo à procura de uma terra para invadir, conquistar e se estabelecer. Eles se deparam com as terras e bens de Micas, e com o jovem sacerdote. Posteriormente, regressando do combate, os cinco batedores conduzem um contingente armígero do clã para as posses de Misã, mostrando-lhes os amuletos, símbolos e acessórios religiosos. Eles decidem se apropriar dos mesmos e acabam levando também o sacerdote, primeiramente constrangido por ameaça, e logo a seguir contente por persuasão de se tornar mais importante, trabalhando por toda uma tribo. Agora, Deus está amarrado a um contrato social em um jogo místico para conferir sucesso e chauvinismo.

E enviaram os filhos de Dã, da sua tribo, cinco homens dentre eles, homens valorosos, de Zorá e de Estaol, a espiar e reconhecer a terra, e lhes disseram: “Ide, reconhecei a terra.” E chegaram à montanha de Efraim, até à casa de Mica, e passaram ali a noite. E quando eles estavam junto da casa de Mica, reconheceram a voz do moço, do levita; e dirigindo-se para lá, lhe disseram: “Quem te trouxe aqui? Que fazes aqui? E que é que tens aqui?” E ele lhes disse: _ Assim e assim me tem feito Mica; pois me tem contratado, e eu lhe sirvo de sacerdote. Então lhe disseram: “Consulta a Deus, para que possamos saber se prosperará o caminho que seguimos.” E disse-lhes o sacerdote: _Ide em paz; o caminho que seguis está perante Yahweh“. Juízes 18:2-6

“”‘
Entrando eles, pois, em casa de Mica, e tomando a imagem de escultura, e o éfode, e os terafins, e a imagem de fundição, disse-lhes o sacerdote: _ Que estais fazendo? E eles lhe disseram: “Cala-te, põe a mão na boca, e vem conosco, e sê-nos por pai e sacerdote. E melhor ser sacerdote da casa de um só homem, do que ser sacerdote de uma tribo e de uma família em Israel?”
Então alegrou-se o coração do sacerdote, e tomou o éfode, e os terafins, e a imagem de escultura; e entrou no meio do povo.
Juízes 18:18-20

A “conversão” religiosa como disfarce para um contrato de conveniência. É assim que muitas pessoas têm se “convertido”, transformando Deus em um ídolo. O quanto é necessário resguardar este tipo de religião?

Mas se não conseguir levar a pessoa a encarar e caracterizar sua felicidade como sua desgraça, sua saúde como sua doença, sua força vital como seu desespero, então o latim dos teólogos se esgota. Trata-se, então, de um pecador empedernido de natureza especialmente perversa ou de uma existência ‘burguesa saturada’, e o primeiro está tão distante da salvação quanto o segundo. Olha, esta é a postura contra a qual eu me defendo. (…) Jesus nunca questionou a saúde, a força, a felicidade de um ser humano como tais e as considerou uma fruta podre; do contrário, porque ele teria restabelecido a saúde dos doentes, devolvido a força aos fracos? Jesus reclama para si e para o reino de Deus toda a vida humana em todas as suas manifestações                                                                                                               – 30.6.44

By: Rodrigo Souza

Um cristão anglicano da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Blogs: http://informadordeopiniao.blogspot.com/ http://defideorthodoxa-informadordeopiniao.blogspot.com/ http://bibliosofia-informadordeopiniao.blogspot.com/ colaboro como convidado em: http://adcummulus.blogspot.com/ Mais: aqui eu sou o que eu escrevo

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