O Desafio de Bonhoeffer – A Crise da Religião e a Autonomia do Mundo ( Parte I)

O Desafio de Bonhoeffer – A Crise da Religião e a Autonomia do Mundo ( Parte I)

O movimento em direção à autonomia humana (refiro-me à descoberta de leis segundo as quais o mundo vive e dá conta de si mesmo nas áreas da ciência, da sociedade e do Estado, da arte, da ética e da religião) que iniciou por volta do século XIII – não quero entrar na discussão sobre o momento exato – chegou a uma certa completeza na nossa época. O ser humano aprendeu a dar conta de si mesmo em todas as questões importantes sem apelar para a ‘hipótese Deus’.
(…)
Assim como no campo científico, também na esfera humana em geral ‘Deus’ está sendo afastado cada vez mais da vida; ele está perdendo terreno. Ora as visões católica e protestante da história concordam que se deva ver nesse processo a grande apostasia de Deus, de Cristo, e quanto mais elas se valem de Deus e Cristo e os jogam contra esse desenvolvimento, tanto mais este se compreende como anticristão. O mundo que chegou à consciência de si mesmo e de suas leis vitais está a tal ponto seguro de si mesmo que ficamos inquietos com isso. Desvirtuamentos e insucessos não conseguem deixar o mundo inseguro quanto à necessidade de sua caminhada e seu desenvolvimento; (…).
Ora, a apologia cristã reagiu, das mais diversas formas, contra essa segurança de si próprio. Procura-se demonstrar ao mundo que atingiu a maioridade que ele não seria capaz de viver sem o tutor ‘Deus’. – Cartas do Cárcere, 6.6.44 – em “Resistência e Submissão


Essas provocações não são proferidas por um renegado religioso que entrou para a onda pentelha atualmente chamada de “neo-ateísmo”. Foram escritas por um dos grandes nomes da teologia do século XX, Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano, que fora morto em campos de concentração nazistas devido à sua luta de desobediência civil contra o Reich, escritas na prisão em 1944 para seu amigo também teólogo Eberhard Bethge; sobre seu comportamento na prisão e sua morte temos não-poucas testemunhas de como se mantinha íntegro em sua fé, irradiando a paz de Cristo.

Desafios que pairaram sobre toda a teologia séria feita desde então. Figura em toda reflexão conscienciosa sobre o futuro da religião cristã no mundo. Muitos grandes nomes repensaram seu teologar a partir delas, e houveram várias tentativas de responder a esses vergalhões: Neo-ortodoxia, Teologia da Cultura, Teologia da Secularização, Teologia da Morte de Deus, Teologia da Esperança, Teologia da Libertação, etc., são algumas elencadas aqui que o espaço não permite destrinchar.

Mas ouso dizer que ainda não se conseguiu levar a cabo um tratamento que tenha dado conta efetivamente da tarefa, diante de todos os fenômenos socioculturais decorridos desde então. Todas tiveram seus condicionamentos momentâneos e tiveram como fraqueza circunscrever estes momentos como se fossem a configuração definitiva. E acabou que foi-se esquecendo… tenho ficado inquieto e busco aqui trazer alguns pontos importantes para justificar que, tanto como nunca, é preciso resgatar a preocupação atinente, sem respostas-prontas, para a ressonância das palavras de Bonhoeffer, sopradas pelo vento impetuoso, no período de transição caótica para o imprevisível que atravessamos.

O que pretendo com isso, portanto, é que Deus não seja introduzido clandestinamente em algum derradeiro lugar secreto, mas que simplesmente se reconheça a maioridade do mundo e do ser humano, que o ser humano não ‘seja tornado ruim’ na sua mundanalidade, mas que seja confrontado com Deus no seu ponto mais forte (…).

Mais uma vez ficou bem claro para mim que não devemos fazer com que Deus figure como o tapa-furos do nosso conhecimento imperfeito; quando então – e isto acontece forçosamente – os limites do conhecimento deslocam-se cada vez mais para fora, também Deus é deslocado junto com eles e encontra-se assim, num movimento de constante retirada.
(…)
Isso vale também para a relação entre Deus e o conhecimento científico. Mas vale também para as questões humanas gerais da morte, do sofrimento e da culpa. Atualmente, ocorre que também para essas questões há respostas humanas que podem prescindir totalmente de Deus. De fato, pessoas de todas as épocas conseguiram resolver essas questões também sem Deus, e simplesmente não é verdade que só o cristianismo tenha a solução para elas.
(…)
Também neste ponto Deus não é um tapa-furos; tem de ser conhecido não apenas nos limites de nossas possibilidades mas no centro da vida.

Tem sido comum nos depararmos na internet com pesquisas demográficas sobre confissões religiosas; o ponto mais destacado é a diminuição significativa nos últimos anos do número de fiéis religiosos em países com mais altos IDH’s [Índice de Desenvolvimento Humano], também, a diminuição à medida em que um país ou região chega de forma mais ampla em índices elevados. A relação entre não-participação religiosa e não-crença não é equivalente nem linear, bem como a não-crença em uma religião sistematizada com a não-crença em alguma realidade transcendente, supranatural ou exotérica. Mas é correlacional e não-discrepante.

O clima de fanatismo aguerrido e de provocações pentelhas em diversos ambientes costuma esculhambar com a análise sóbria e ponderada. Raramente vemos comentários com mínima capacidade de abstração lógica e substancial para abrir caminhos ao pensamento com propriedade, predominando interesses apologéticos (religiosos e antirreligiosos) obtusos, e o embotamento faz brotar pirraças patéticas ao estilo de gritos de torcidas organizadas. O que dificulta o empreendimento de quem não se identifica com os coros.

É patente que não ocorrera um processo de primária e básica apostasia da(s) fé(s) tradicional do recorte (país, nacionalidade, região, etc.), em que se catalizou de uma vez uma explosão da barbárie ao topo de indicadores de desenvolvimento social, como se fosse uma causa-efeito para um “Big-Bang civilizatório”.

Decorre dos dados mensurados que a desvinculação confessional com a religiosidade tradicional se acentua após se chegar a níveis maiores nos índices de renda econômica. Não houvera uma “apostasia” para depois se começar a construir escolas, hospitais, se avultarem empreendimentos econômicos, redes de articulações sociais, inserção mais favorável na cadeia mercantil e divisão internacional do trabalho. É depois desses processos já estarem em maiores níveis que começa a aumentar, em destaque, o compromisso regular com instituições religiosas.

A religiosidade atua em comunidades e sociedades experimentando privações, de múltiplas maneiras nos pulsos motivacionais das pessoas. Algumas acentuam-se mais. Pode servir de um escape subjetivo para o íntimo diante de uma situação opressora ( opressão para muito além do sentido restrito de coerção política). Refrigério, ou força interior para suportar a pressão e não se entregar ao sentimento de absurdo ou desespero. Pode servir também de acomodação; embora se desconte que, em muitas situações, o indivíduo realmente não tem condições concretas de subverter seu contexto, restando a loucura ou o suicídio. Esperanças transcendentais não necessariamente “alienam”, a pessoa “esquecendo” suas condição e evitando mudar devido a ela; não, as pessoas podem enfrentar a realidade, apesar de algumas batalhas serem inglórias e desesperadoras, considerando que sua resistência não ficará inútil e desperdiçada em vão, mas “contará”. A situação de opróbrio não fica sendo como a condição última e realidade definitiva para dizer quem a pessoa é e a quê foi incondicionalmente destinada.

A partir daí, agentes institucionais de religiões criam condições de trabalhá-la como aglutinador e estabilizador comunitário, social, “nacional”. A religião expande seus papéis e atua como “cimento” para a coesão social e fator simbólico-estruturador para a diferenciação e identidade, mesmo de “sintonização” para o cosmos que é projetado, idealizado e no qual as mentalidades se concebem inseridas e condicionadas. Há efeitos adversos para pessoas e ideias que se considere fator de desagregação e geradores de “caos” quanto a isto.

Sem dúvida, há limites variados para se conseguir cumprir esta “função”. Quando a leitura da vida passa a ser plenamente negativa, o apelo espiritual começa a ser encarado como engodo. A impressão de futilidade e desperdício, de tudo ser estabelecido em um fundamento de maldade e vaidade, cego e surdo a qualquer apelo melhor, passa a criar sim uma revolta quanto a qualquer discurso ou ideia de Sagrado ou Transcendente. A “coesão” começa a ser encarada de fato como artificial e deslegitimada.

O prisioneiro leitor da Bíblia, sobre o qual igualmente contei que, num estado de demência, havia se atirado sobre o major com um tijolo, certamente estava entre os desesperados que perderam todo o resquício de esperança e, como não se pode viver sem esperança, acharam uma saída no martírio espontâneo, quase produzido artificialmente. (…) Quem sabe qual o processo psicológico se passou nele; nenhum ser humano pode existir sem alvo e sem buscar esse alvo. Um ser humano que não tem mais alvo nem esperança muitas vezes se transforma, em virtude do vazio, num monstro… Mas o alvo de todos os presidiários era a liberdade.
– Do romance “Recordações da Casa dos Mortos”, de Fiódor Dostoiévski.

Podemos situar nisto a famosa e mal compreendida colocação de Marx quanto a religião ser o “ópio” do povo, numa época em que o ópio tinha consideração também de funções medicinais além da entorpecente. Colocação que também, de forma oportunista, costuma aparecer “surecada”:

O sofrimento religioso é, a um só e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. Ela é o ópio do povo.”

Nos lugares apontados nas pesquisas, as populações chegaram a uma condição de desenvolvimento material mais emancipada ante as precariedades em que viviam seus antepassados, mesmo em comparação com os menos distantes. Uma maior “liberdade” ante as “necessidades” duras de desprendimento de esforço físico e tempo para o mínimo necessário ao sustento material básico. Diversas atividades desgastantes cujos produtos gerados são necessários para manter seu padrão de vida são desenvolvidas e externalizadas em outras localidades e suas condições econômicas lhes permitem aproveitar disso. Muitos povos e países foram inseridos ou se inseriram de maneira mais oportuna nos ciclos e jogos de poder entre impérios, potências, hegemonias e grandes forças econômicas, por diversos fatores estratégicos nos locais e momentos certos.

Assim se permite mesmo às classes médias nestes países usufruírem de aproveitar gozos que, relativamente – ou mesmo não-relativamente – só se era usufruído pelos mais altos extratos das elites mais antigas, mesmo os reis da Antiguidade. E as classes mais baixas terem necessidades atendidas e oportunidades de usufrutos também inimagináveis em qualquer período da história. Mirando para adiante, vêem oportunidades antes inacessíveis, muito o que têm a ganhar; olhando para trás, vêem o quanto têm também a perder, que antes não se tinha. E ao redor, possibilidades de usufrutos e experiências.

Já em primeira instância, a religiosidade não é mais fundamental para conferir coesão social. Essa nova situação engendra outros mecanismos motivacionais de recompensa e fracasso, ambição e marginalização. Imprime-se nas consciências de que estão abertas no horizonte as fronteiras para ganho de status e mais bem-estar, poder e satisfação, usufrutos e conquistas, para a perícia e mérito. Ainda que não esteja aberto para todos, o argumento validador é que está aberto a “qualquer um”, mesmo com necessários ajustamentos periódicos, e sobre isto repousa o equilíbrio – estável ou instável – do sistema.

E neste ponto, encontra-se o fio da navalha das religiões. De força motivacional, passam a ser encaradas como entraves e constrangimentos para as pessoas aproveitarem a pleno alcance as possibilidades que a nova condição econômica, social e cultural lhes abre. Seu “descarte” é facilitado, no interior dos sujeitos, pela autonomia que o cosmos passa a ganhar no sistema simbólico também, que em grande parte, sua estrutura de produção está integrada aos mecanismos de funcionamento regular do sistema. Não significa que os sujeitos não busquem recursos simbólicos motivacionais e estabilizadores para seu ser e estar, buscam e se apegam a alguns, embora muitas vezes a alternativa optada seja cair sim na anomia social ou apatia. Quando não se encontra, o sentimento de desajustamento costuma ser não convivível. Contudo, tais recursos devem ter êxito em se amalgamar com o potencial aberto de demais recursos de vida, disponíveis nas condições em que ele está inserido (ou como ocorre por vezes, há aqueles e aquelas que acabam se encontrando com estímulos e significados em maneiras alternativas de viver que desafiam em pontos cruciais valores de sua sociedade, sendo opções contraculturais em escalas variadas, mas com baixo apelo em escala – e muitas vezes absorvidos e instrumentalizados pelo caráter social do sistema) e alimentem seu modo de vida de sentidos menos imediatos.

Em várias ocasiões, líderes e representantes das religiões tradicionais reagem a este cenário com apelos e discursos retrógrados, buscando formas de causar pânico e recorrer a medos em cenários que acarretem queda no status quo: “dissolução da família tradicional”, o temor de contatos, misturas e um “diluir” sociocultural com pessoas e respectivas culturas “alienígenas” à formação tradicional da sociedade a qual apela; além de apelos à identidade étnica e/ou nacional que pode estar se “dissolvendo”, à perda do reconhecimento mútuo e orgulho tradicional, etc. Nesse caso, o apelante aceita sacrificar o conteúdo último e ontológico do sistema religioso, quando ocorre de causar desconforto em conciliar com tais questões e se remeter a desafios mais profundos, impelindo a buscas de sentido último que não se ajustam ao status quo que se promete e para o qual aponta no apelo feito – em prol de sua função como amálgama e verniz social e legitimador identitário nacional ou étnico.

Vale lembrar que, obviamente, os cenários descritos não se aplicam igualmente em cada e todo os casos passíveis de observação; você verá casos de realidades com pessoas em condições mais pobres generalizadamente, com alto grau de evasão ou baixo grau de adesão religiosa, e realidades com pessoas em condições econômicas mais confortáveis generalizadamente, com alto grau de adesão e prática. Mas são cenários que se aplicam de maneira mais geral e difundida geograficamente.

By: Rodrigo Souza

Um cristão anglicano da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Blogs: http://informadordeopiniao.blogspot.com/ http://defideorthodoxa-informadordeopiniao.blogspot.com/ http://bibliosofia-informadordeopiniao.blogspot.com/ colaboro como convidado em: http://adcummulus.blogspot.com/ Mais: aqui eu sou o que eu escrevo

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