Por uma teologia narrativa: Por: Márcia Junges

“É narrando que se diz o mistério”

Linguagem científica é limitada e não pode dizer tudo sobre a verdade. A literatura das grandes narrativas da criação, seja sob ponto de vista ético ou estético, “leva a posturas éticas que se tornaram urgentes em tempos de crise ecológica, tão ou mais necessárias do que as ciências”, acentua Luís Carlos Susin

Por: Márcia Junges

Para o teólogo Luís Carlos Susin, é ilusória a pretensão da linguagem científica de “dizer tudo o que se pode narrar a respeito da verdade. Ciência não é sinônimo de verdade, é parte dela”. Ele evoca o filósofo Paul Ricoeur como exemplo do quanto a linguagem narrativa, com suas características míticas, tem uma densidade de verdade que a ciência não alcança. “É narrando que se diz o mistério”, comentou na entrevista exclusiva concedida, por e-mail, à IHU On-Line.

Questionado sobre os limites e possibilidades de se narrar Deus num tempo em que o sagrado e a secularização convivem lado a lado, Susin mencionou que “a reação ou volta ‘vingativa’ do sagrado em tempos de cientificismo pode ser compreendida por causa da pretensão das ciências, que devem também conhecer seus limites, mas não justificam, por exemplo, a forma fundamentalista com que alguns grupos querem ensinar o criacionismo no lugar ou ao lado da teoria da evolução em aulas de ciência. A criação pode ser entendida com mais justeza nas aulas de literatura, que também é uma poderosa forma de dizer a verdade. Aliás, do ponto de vista ético e estético, ao lado do religioso, a literatura das grandes narrativas de criação leva a posturas éticas que se tornaram urgentes em tempos de crise ecológica, tão ou mais necessárias do que as ciências”.

Susin é graduado em Teologia pela Universidade de Ijuí – Unijuí, e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Cursou mestrado e doutorado em Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma -PUG, Itália. Sua dissertação intitulou-se A subjetividade e alteridade em Emmanuel Lévinas, e a tese O homem messiânico em Emmanuel Lévinas. Leciona na PUCRS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana – ESTEF, em Porto Alegre. É autor de inúmeras obras, entre as quais citamos O homem messiânico no pensamento de Emmanuel Lévinas (Porto Alegre: EST/Vozes, 1984) e Teologia para outro mundo possível (São Paulo: Paulinas, 2006). É um dos organizadores de Éticas em diálogo: Lévinas e o pensamento contemporâneo: questões e interfaces (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003).

Em 15 de setembro, Susin ministrará o minicurso Narrar Deus criador, hoje, dentro da programação do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como é possível narrar o Deus Criador hoje?

Luís Carlos Susin – Depois do Hubble, o telescópio fantástico que funciona como nosso grande olho sobre o espaço imenso do universo, com suas fotografias que parecem telas de arte contemporânea (ou a arte se inspira no que aí vemos deslumbrados?), narrar a história do universo se tornou simplesmente fascinante. Mas isso não significa ainda narrar que o universo é criação divina, que há um Deus Criador com sua mão invisível por trás ou por dentro do universo. As ciências não desenvolveram e nem lhes compete desenvolver métodos que provem ou se deparem com um Deus. Um cientista pode ser agnóstico ou crente, mas isso é uma decisão de fé, não uma constatação científica. Para quem crê na ação criadora de Deus, a narrativa da criação ganha sentido dentro das grandes tradições religiosas e literárias, portanto da cultura que expressou o sentido da fé, e não propriamente da ciência.

Umberto Eco  parafraseou Wittgenstein afirmando que “aquilo de que não se pode falar, deve-se narrar”. Para falar sobre algo com sensatez, segundo Wittgenstein, é necessário ter o controle analítico das palavras, dos juízos, da linguagem. Mas ao lado de suas exigências epistemológicas, o próprio Wittgenstein teve suas aventuras místicas, suas “fugas” do controle analítico. A linguagem científica não consegue dizer tudo o que se pode narrar a respeito da verdade. Ciência não é sinônimo de verdade, é parte dela. Paul Ricoeur  é um bom exemplo do quanto a linguagem narrativa, com suas características míticas, tem densidade de verdade que a ciência não alcança. É narrando que se diz o mistério.

IHU On-Line – Quais são os limites e as possibilidades dessa narrativa considerando a secularização, por um lado, e o retorno ao sagrado, por outro?

Luís Carlos Susin – Depois de Galileu,  mas, antes ainda, com Leonardo Da Vinci  e os perspectivistas que conseguiram expressar em diferentes linguagens – na pintura, na matemática – o espaço físico, é necessário manter a distinção de linguagens e de conhecimentos. No século XX, o conhecimento científico do universo, tanto no macro como no micro, obrigou ainda mais a perder qualquer ingenuidade a respeito da mistura que criou tantos problemas e, inclusive, injustiças. Portanto, a narrativa da criação, como o conhecimento científico, deve saber o seu lugar, o seu estatuto de verdade, sem se pretender conhecimento científico e sem ansiar por buscar para si a comprovação das ciências, o que continuaria a gerar confusões.

No outro extremo estaria o que, nos tempos de Averróis  e de Santo Tomás, chamou-se de “verdades paralelas”, admitidas pelo primeiro e contestadas pelo segundo: o que é verdade num âmbito da realidade não poderia não ser verdade em outro. Mas isso não impede diferentes enfoques ou, se quisermos, regiões, da verdade. A doutrina religiosa e a teologia, de modo específico a teologia da natureza, buscam o significado religioso, a presença (ou ausência, pois ateus também fazem teologia nesse sentido), sem pretender explicar como funcionam ou qual a essência das coisas. Assim, de certa maneira, as mesmas realidades podem ser lidas e compreendidas em sua condição “secularizada”, como objetos disponíveis ao estudo e ao conhecimento científico, e em sua condição “sagrada”, por sua graça de existir e o significado que se pode experimentar a partir desta graça.

A reação ou volta “vingativa” do sagrado em tempos de cientificismo pode ser compreendida por causa da pretensão das ciências, que devem também conhecer seus limites, mas não justificam, por exemplo, a forma fundamentalista com que alguns grupos querem ensinar o criacionismo no lugar ou ao lado da teoria da evolução em aulas de ciência. A criação pode ser entendida com mais justeza nas aulas de literatura, que também é uma poderosa forma de dizer a verdade. Aliás, do ponto de vista ético e estético, ao lado do religioso, a literatura das grandes narrativas de criação levam a posturas éticas que se tornaram urgentes em tempos de crise ecológica, tão ou mais necessárias do que as ciências.

IHU On-Line – Que conexões são possíveis de se traçar ligando essa narrativa “Deus”, a alteridade e a preservação do meio ambiente?

Luís Carlos Susin – As ciências avançaram muito em tempos de afirmação da autonomia humana, e contribuíram para ampliar os espaços da autonomia. Mas a fé é uma postura existencial heterônoma. Evidentemente, explica-se a exacerbação da autonomia dos sujeitos em reação ao excesso anterior de heteronomia ou de submissão às autoridades das diversas instituições “totais”, como a família, a escola, a Igreja, o Estado. Por seu caráter de totalidade, essas instituições se confundiram com o sagrado. E a autonomia moderna foi iconoclasta com este tipo de sagrado e de heteronomia. Ninguém que tenha passado pela experiência do autoritarismo sagrado das instituições está disposto a abdicar da conquista da autonomia que a cultura ocidental nos conquistou arduamente em tempos de modernidade, onde as ciências foram a “primogênita” e uma das ferramentas mais poderosas de emancipação.

Mas a criança foi junto com a água do banho lançada fora: com essas instituições dessacralizadas estremece também a imagem do divino, e agora Deus só pode ser reconhecido a partir de outro lugar. Acontece que também os outros humanos, as outras culturas e comunidades humanas acabam se tornando irreconhecíveis quando há uma exacerbação do sujeito autônomo. E, ainda mais difícil, as outras criaturas perdem seu estatuto de gratuidade e de existência própria. Por isso os tempos modernos produziram as guerras mais cruéis e a maior crise ecológica possível na relação desigual entre alta tecnologia graças ao desenvolvimento das ciências e baixíssimo reconhecimento ético dos outros, de todo outro.

Responsabilidade: palavra-chave

A reação e a recuperação também podem ser felizmente constatáveis. Não é um bom sinal onde isso começa pela religião, quando se apela em primeiro lugar para Deus. Certamente ele é o “primeiro outro”, aquele do primeiro mandamento de amor, portanto de reconhecimento, mas na prática é o segundo que torna o primeiro verdadeiro: o reconhecimento social dos outros e o reconhecimento da necessidade de relações de reciprocidade e até de dom de si de forma “irrecíproca” – mais amando do que se importando em ser amado -, que abre espaço também para o reconhecimento ético de um criador divino no mistério da criação. Dizendo em termos escolásticos: ninguém nem nada é “por si mesmo”, ainda que a liberdade seja o momento em que se é “por si mesmo”, mas paradoxalmente isso só é possível diante de outros, na relação positiva com outros.  Portanto, uma liberdade e uma autonomia só são possíveis como “responsabilidade”, e a responsabilidade é o “ser por si mesmo” que precisa responder por si diante dos outros: o que faço aos outros, antes mesmo de perguntar o que faço de mim mesmo, e o que faço de mim mesmo como resposta aos outros: a responsabilidade é a palavra- chave.

Isso nos leva ao drama do meio ambiente, que só pode ser bem respondido quando se aprende a tratá-lo junto ao drama social. É impossível separar como duas realidades diferentes e dois tratamentos diferentes. Quando São Francisco  chamou o sol e o vento, a água e o ar de “irmãos”, intuiu, poeticamente, conforme os salmos, que as criaturas e os humanos formam uma comunidade indissociável.
 
IHU On-Line – Nesse sentido, como a ética de Lévinas se firma na possibilidade de tornar a narrativa de Deus um “a priori de carne e osso”, para recuperar uma ideia que o senhor discute em outra entrevista concedida à nossa publicação?

Luís Carlos Susin – A afirmação dos “a priori’s” é de tradição kantiana, que já Hegel criticava em um aspecto: eram universais abstratos, faltava-lhes a densidade da realidade concreta. Ele foi buscar um exemplo máximo de “universal concreto” no centro da tradição cristã, ou seja, Jesus, que é – na confissão cristã – Deus em carne e osso, portanto o mais singular e o mais universal. Lévinas era um pensador judeu, e sua filosofia bebe da tradição bíblica: a forma de homenagear Deus e de reconhecê-lo é o seu mandamento, mas o mandamento está dirigido à relação de justiça, portanto de reconhecimento e de socorro aos outros que não tem pão, que estão com a fome corroendo seus estômagos, e que não tem uma capa para defender sua pele do frio – o pobre, o órfão, o migrante. Deus “vem à ideia” na prática do socorro e da justiça, é assim que Lévinas se expressa.

Interpretando a importância que Lévinas deu à sensibilidade antes das ideias, podemos afirmar que Deus bate na pele antes de vir à ideia, fere o ouvido e os olhos, porque sua alteridade está no fundo da alteridade de todo outro deslocado e sem casa ou pão, antes de estar no fundo da subjetividade. Esta, a subjetividade, se constitui solidamente só quando se faz casa e pão para outro – essa maravilha por excelência que inicia toda estética que coincide com ética, onde Deus canta o seu salmo – em nós, o Criador nas criaturas. Isso se pode narrar, é maravilha do universo.

Leia mais…

Luiz Carlos Susin já concedeu outras entrevistas e depoimentos à revista IHU On-Line e ao site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Fonte:http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2820&secao=308

Indicado por: Rodrigo Condeixa

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