O Cântico dos Cânticos lido pelas três grandes religiões

O Cântico dos Cânticos: o poema de amor mais conhecido, mais comentado, mais traduzido da história, e também o mais misterioso. O que significa o título? Por que um poema tão fortemente erótico foi assumido desde a antiguidade (Concílio de Yavné, 90 d.C.), no cânone do Antigo Testamento? E como foi possível que, nas tradições religiosas do Ocidente, judaica, católica, cristã, a literalidade do texto, que descreve sem meios termos uma relação sexual, tenha sido “freudianamente” removida em favor de uma interpretação mística muitas vezes puxada pelos cabelos, tão forçada na negação da evidência, de modo a parecer quase absurda a um olhar secular e malicioso?

A reportagem é de Viviana Kasam, publicada no jornal Il Sole 24 Ore, 30-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dirigimos as questões a Moshe Idel, considerado hoje o maior estudioso de mística judaica, que ensina na cátedra que foi Gershom Scholem; a Haim Baharier, famoso pelas suas lições de hermenêutica bíblica que se tornaram cult; e ao padre Enzo Bianchi, fundador e prior da Comunidade Monástica de Bose, escritor, editor da Qiqajon, profundor conhecedor e intérprete das Escrituras.

Eis a entrevista.

Por que o título?

Haim Baharier – Se abraçamos o que diz Rashi a respeito, se trataria de uma avaliação qualitativa: um canto acima de todo canto. Ou um canto por todos os cantos. Seguindo, ao contrário, o comentário do rabino Israel Salanter, o Cântico dos Cânticos é um texto paradigmático da pluralidade dos significados e, ao mesmo tempo, da univocidade: ou seja, uma voz profunda, separada, sempre identificável.

Enzo Bianchi – Esse título – que coincide com a primeira linha do texto: “Cântico dos Cânticos, que é de Salomão” – é um superlativo, portanto, indica “o canto por excelência”, o mais sublime entre todos os cantos cantados em Israel. Os rabinos diziam que há uma correspondência entre essa expressão e o Santo dos Santos, ou seja, o lugar mais interno do Templo, sede da presença de Deus. É um modo simbólico para afirmar que a palavra de Deus está presente mais do que nunca nesta pequena joia literária.

Portanto, o autor foi verdadeiramente o Rei Salomão?

Haim Baharier – Do ponto de vista histórico, seríamos legitimados a ter dúvidas. Porém, se imaginarmos uma espécie de casting, devemos admitir que o papel de autor do Cântico se presta bem ao Rei Salomão.

Moshe Idel – Acho que não, o texto é provavelmente mais tardio em alguns séculos com relação ao reino de Salomão, mas essa atribuição foi fundamental para fazer com que o Cântico fosse adotado no cânone bíblico.

Enzo Bianchi – Não é realista atribuí-lo ao Rei Salomão. Mas há um sentido lógico nessa atribuição, ligado ao fato de que, no texto, justamente o Rei Salomão é mencionado várias vezes (seis, para ser exato). Aprofundando esse dado, podemos nos perguntar: para uma mulher apaixonada, o seu amado não é sempre talvez um rei? Sob essa ótica, é bonito pensar que os dois personagens são, de alguma forma, um rei e uma rainha, mesmo que na realidade material do texto sejam mais provavelmente um pastor e uma pastora. O amor descrito é o de dois jovens, é o amor de todos os jovens apaixonados. O autor, seja quem for, certamente é um poeta refinado, capaz de descrever o amor com grande maestria.

Mas de qual amor estamos falando: amor sagrado, amor profano, ou ambos?

Moshe Idel – Segundo o seu significado original, é um canto erótico secular, que só mais tarde foi alegorizado tanto na tradição judaica, quanto na cristã, para se adaptar aos novos valores religiosos que surgiram mais tarde, a partir do primeiro século depois de Cristo.

Enzo Bianchi – Eu diria que o Cântico celebra o amor humano em todas as suas infinitas facetas, às quais se pode aludir só em chave poética: a distância, o buscar-se, o correr atrás, o encontrar-se, a relação sexual… É significativo que o nome de Deus apareça só no fim, quando se diz que o amor é uma chama, é um fogo divino. Nesse sentido, na tradição judaica, o Cântico logo se tornou simbólico do amor de Deus pelo seu povo. Na tradição cristã, é normalmente simbólico do amor entre Cristo e a Igreja ou, em ambientes monásticos, entre Deus, entre Cristo e o crente individual. Nesse caminho, o sentido literal do Cântico foi totalmente obscurecido. Mas quando se tentou inserir esse poema no cânone do Antigo Testamento, muitos se opuseram, justamente por causa das referências explícitas ao sexo contidas nessas páginas. Foi o Rabi Akiva que o fez entrar, durante o Concílio de Yavné (fim do século I d.C.), insistindo sobre a interpretação simbólica do que se dizia. São célebres as palavras usadas por ele para justificar tal inserção: “O mundo inteiro não é digno do dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel: de fato, todas as Escrituras são santas, mas o Cântico dos Cânticos é o Santo dos Santos”.

Fonte: IHU

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