Jesus do alto, Jesus de baixo. Ratzinger e o medo de uma teologia ateia

Jesus do alto, Jesus de baixo. Ratzinger e o medo de uma teologia ateia O debate sobre o aspecto humano de Jesus Cristo perdura entre teólogos contemporâneos como Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, autor de uma importante cristologia recém-publicada. Para o pontífice, o esforço arqueológico para delinear a figura histórica traz o risco de toldar o caráter eminentemente divino de Jesus.

 

O artigo é de Luiz Felipe Pondé, professor de filosofia, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 28-08-2011.

Eis o artigo. Afinal, quem foi Jesus? A pergunta é um clichê, mas movimenta rios de dinheiro e ideias. A figura do jovem herege judeu morto pelos romanos é peça-chave de nossa cultura e de nosso imaginário. Qualquer iniciante sabe que heróis como esses são em parte uma “construção” histórica, no sentido de que muita gente e muita coisa se unem pra constituir a face (se é que existe “uma” face neste caso) do personagem. No caso deste judeu herege, o caso é mais sério porque muita gente crê que ele seja também Deus, além de homem. O problema central acerca de Jesus é justamente sua “pessoa divina” e não apenas sua “pessoa histórica”. Muito já foi escrito sobre isso. A partir do século XIX, porém, o material se tornou mais “científico”, no sentido de se buscar, afinal de contas, quem teria sido o Jesus histórico. HEREGE JUDEU Antes de tudo, por que eu me refiro a ele como um herege judeu? Porque o cristianismo nasceu uma heresia judaica e seu líder, ainda que nunca tenha dito (não há fonte documental que prove isso) que ele fosse o messias (salvador esperado pelos judeus até hoje), é um herege, visto como tal pela aristocracia religiosa judaica de sua época, por ter “criado” uma seita com seus seguidores. Mais tarde, os seguidores diretos de Jesus passaram a pregar seu messianismo para comunidades judaicas “assimiladas” aos modos romanos ou gregos de viver (e que viviam em colônias romanas). A partir daí, a pequena heresia judaica se transformou no cristianismo que conhecemos. O encontro com a erudita cultura greco-romana pagã deu à jovem heresia judaica sua cor filosófica e teológica, pela assimilação da filosofia de então – platonismo e estoicismo, basicamente. Em meio às discussões acerca da doutrina em nascimento, uma das questões centrais era saber quem era Jesus, no sentido teológico. Muitos o consideravam “apenas” mais um profeta israelita, com vocação para falar aos pobres e oprimidos pela casta do templo judaico e pela ocupação romana. A fala de Jesus, ainda que não beligerante, tem a marca do profetismo hebraico do Velho Testamento (para os judeus “bíblia hebraica”). PROFETAS E o que vem a ser esse profetismo? Basicamente uma crítica social, política e moral. Os profetas de Israel criticavam os “poderosos” por seus abusos e o povo por seu “relaxamento” moral. E a todos por viverem uma religião vazia e puramente (nos termos do rabino e filósofo judeu do século XX, Avraham Joshua Heschel) “behaviorista”. Dito de outra forma, uma prática religiosa sem coração ou conteúdo, apenas “exterior”. Essa controvérsia será conhecida na tradição do cristianismo primitivo paulino como a oposição entre a lei e a intenção do coração no cumprimento da lei. Portanto, o cristianismo nasce sim com uma vocação de crítica do poder e dos costumes estabelecidos. Outros afirmavam que Jesus era “apenas” um espírito, e seu corpo teria sido, em termos atuais, mero “holograma”. Jesus não tinha, portanto, propriamente um corpo de carne e osso. A vitória final (se é que se pode falar em vitória final nesse assunto) foi daqueles que defendiam que Jesus era homem e Deus ao mesmo tempo, tendo, portanto, duas substâncias, a humana e a divina, sem confusão entre elas. Ratzinger Um temor presente (ainda que de certa forma velado) nos estudos da cristologia levados a cabo por Joseph Ratzinger (Bento XVI) em seus dois livros sobre Jesus é o risco de “revisão histórica” dessa vitória da hipótese de que Jesus seja homem e Deus. “Jesus of Nazareth” [trad. Adrian J. Walker, Doubleday, 372 págs., R$ 55,70], publicado no Vaticano em 2007, traz uma extensa introdução metodológica acerca dos riscos de uma revisão histórica da pessoa divina de Jesus por conta das “modas metodológicas” contemporâneas em estudos bíblicos. Afora essa introdução, o livro se ocupa basicamente dos primeiros anos públicos de Jesus e de sua “autoapresentação” como salvador único, e representante do Deus dos judeus. “Jesus de Nazaré – Da Entrada em Jerusalém até a Ressurreição” [trad. Bruno Bastos Lins, Planeta, 272 págs., R$ 29,90] de 2011, se ocupa dos últimos dias de sua vida no mundo, e é inferior em comparação ao primeiro volume de sua cristologia. Portanto, a empreitada de Ratzinger, além de ser uma busca pessoal da pessoa de Jesus, deve ser vista, em suas próprias palavras, como um esforço de entrada no debate cristológico contemporâneo por parte de um dos teólogos católicos vivos mais consistentes. CRÍTICA LIBERAL Qual seria esse debate e qual seria o risco implícito nele (ou, às vezes, quase resvalando numa “moda metodológica”), pelo menos aos olhos do papa teólogo? O risco de revisão histórica seria fruto de um movimento, que em si nunca teve intenção de revisão da divindade de Cristo, conhecido como crítica bíblica liberal, identificada com o protestantismo liberal alemão do século XIX. A intenção do movimento, muito pautada pelo caldo cultural do iluminismo, com vocação clara para declarar todo conhecimento não científico como vago e sem valor, era fazer um estudo histórico e documental da Bíblia e, dentro dele, da pessoa de Jesus de Nazaré. Não se pode dizer que tenha sido apenas “culpa” dos alemães protestantes, pois católicos como o francês Renan também estavam à caça do “Jesus histórico”. Ainda em 1914, o filósofo judeu alemão Franz Rosenzweig, em sua “Teologia Ateia” (sem tradução em português), chamava a atenção para o mesmo risco que alimenta, veladamente, a busca de Ratzinger. Para Rosenzweig, o protestantismo liberal alemão poderia concluir que Jesus era apenas um grande homem, pois as intenções inconscientes da crítica bíblica de então davam mais atenção ao que Jesus teria de humano e atenuavam seus aspectos “irracionais”, a saber, sua suposta divindade. Nos termos que Ratzinger usa em seu segundo volume sobre Jesus (e concordando de certa forma com parte do que a crítica especializada diz de sua obra sobre Jesus), sua cristologia pode ser vista como uma cristologia “do alto” em oposição a uma cristologia “de baixo” (ainda que ele recuse ser apenas um teólogo “do alto”). A diferença entre ambas é que a primeira daria maior atenção ao fato que Jesus é, antes de tudo, Deus intervindo na história, e a segunda optaria pelo caráter humano e histórico (portanto, político e social) de Cristo. RECONSTRUÇÃO A tendência da crítica bíblica liberal ao buscar a pessoa do Jesus histórico seria deslizar suavemente para privilegiar o personagem que habitou a Palestina em detrimento do que foi “construído” em cima dele por teólogos posteriores – lembremos que nos textos evangélicos em nenhum momento Jesus se diz Deus. Assim sendo, a divindade de Jesus poderia sair arranhada, na medida em que estaria “fora” da reconstrução histórica possível. O argumento metodológico de Ratzinger é que nada há de grandioso a ser “reconstruído” historicamente acerca de Jesus (sua arqueologia seria menor do que sua teologia), e que por isso o resultado seria apenas a projeção sobre o personagem histórico de Jesus dos preconceitos ou preferências dos próprios pesquisadores. Essas preferências seriam basicamente a de “modernizá-lo” a ponto de torná-lo mais palatável a um mundo que tende a diminuir a divindade de Jesus em favor de um Jesus líder político e não Deus. O que inclusive facilitaria o diálogo inter-religioso contemporâneo. Para Ratzinger, o Jesus que importa é o que nos fala diretamente de sua fonte primeira, os evangelhos, e não o dos “historiadores”. Outro lançamento é “Jesus – Uma Biografia de Jesus para o Século 21” [trad. Alexandre Martins, Nova Fronteira, 208 págs., R$ 39], do historiador “generalista” Paul Johnson. O livro também segue a tendência de uma “teologia do alto”, sem grandes diálogos com a crítica histórica, mas acaba sendo demasiadamente vago e confessional. Em nada acrescenta ao debate do século XXI sobre Jesus. O de Ratzinger é melhor.

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